Diocese: De Constância a Thodaneri – A ponte de fé que nasceu na JMJ LISBOA 2023

Parece estranho, em 2026, ainda estarmos a falar da JMJLISBOA2023, quando já se passou alguns anos desde que tudo aconteceu. Mas é verdade quando dizemos: os acontecimentos não são apenas um momento isolado, mas o conjunto da sua preparação, da sua vivência concreta, e de tudo o que germina depois. Com as comunidades do concelho de Constância e as JMJLISBOA2023 foi exatamente isso aconteceu – e continua a acontecer. Estes momentos tornaram-se eternos através dos muitos frutos que, desde então, floresceram.
O que começou com a preparação para a JMJ LISBOA 2023, um ano antes, e com o acolhimento de alguns jovens indianos nas comunidades do concelho Constância, transformou-se numa ponte entre duas igrejas separadas por uma imensa massa de terra e um vasto oceano.
Tudo teve início no verão de 2022 com os encontros de preparação entre os responsáveis e as equipas dos diferentes grupos que iriam ser acolhidos. Depois, enquanto o mundo, já em 2023, voltava os olhos para Lisboa, as comunidades de Constância abriam as portas e o coração para acolher esses vários grupos. Entre eles, um grupo de jovens vindo da Índia. Ali, entre encontros, choques de culturais, partilhas de vida e oração, nasceu uma ligação que o tempo não apagou; pelo contrário, estreitou-se. Com todos os grupos acolhidos, do Bangladesh, do Brasil e da Lituana, mas de modo especial, com os jovens indianos, que conseguiram permanecer, mesmo após a partida. Foi um encontro marcante que, juntamente com toda a festa vivida em Lisboa, provocou e transformou a vida de muitos.
Na sequência desta experiência, no Concelho de Constância e em Lisboa, em 2024, aceitei o convite do director da Comissão para a Juventude do Estado de Tamil Nadu para visitar os jovens que as nossas comunidades tinham acolhido. O objectivo era avaliarmos juntos os Dias nas Dioceses, nas comunidades do Concelho de Constância, durante da JMJ LISBOA 2023, e o impacto na vida de fé dos jovens e no quotidiano das suas comunidades, após o regresso às diferentes 18 dioceses, que compõem a Comissão da Juventude de Tamil Nadu.
Até chegarmos à Arquidiocese de Madurai, onde estava previsto o encontro de avalização, percorremos muitos quilómetros para rever alguns jovens e conhecer as suas famílias e viver as suas realidades. Em Portugal tínhamos aberto as nossas casas e tínhamo-los sentados a mesa das nossas famílias, e eles quiserem responder com o mesmo gesto fraterno. Foi indescritível entrar nas suas casas e participar, ainda que brevemente com a partilha de uma refeição, de um chá, de um momento de oração ou de “uma” bênção, na mesa e na vida daquelas famílias, dando corpo a uma imensa alegria, entre tanta simplicidade e, em muitos lugares, mesmo pobreza.
O encontro de partilha e avaliação da JMJLISBOA2023 aconteceu na paróquia de Samayanallur, Arquidiocese de Madurai. Foi um encontro muito rico e marcado pelo forte testemunho de alguns jovens. Devido às grandes distâncias, entre estas dioceses, muitos jovens tiveram que apanhar aviões ou viajar horas sem fim de autocarro e comboio, chegando mesmo no dia anterior, apenas para conversarmos e almoçarmos juntos, por algumas horas. Fiquei “chocado” com tamanha entrega e disponibilidade; muitas vezes, os nossos jovens não dão um passo para uma actividade na própria paróquia, enquanto ali se viajavam dias para a conversa com um padre com quem tinham estado, apenas por uns dias. Realidades tão diferentes! Encontrei uma fé vibrante que contrasta com uma pobreza material profunda em muitas zonas. Não uma pobreza de fé, de espírito ou de alegria, mas, em muitos lugares, em condições básicas de organização e de vida, nada que tenha a capacidade de ofuscar a beleza imensa daquele país, particularmente o Sul, por onde caminhei.
Neste “entra e saí” de dioceses, encontrei a comunidade de Thodaneri, num cenário de extrema carência. É uma comunidade cristã com o estigma cultural de “Dalits” (os chamados “impuros”) que, há mais de dez anos, não tinha um lugar digno para celebrar a sua fé. Na igreja em ruínas, vi crianças que ali brincavam, num entra e sai, num espaço onde a identidade daquela gente se perdia entre os escombros e a marginalização social e religiosa, por serem uma pequena comunidade católica entre comunidades hindus. Aquela imagem – o espaço degradado, a simplicidade das crianças e o olhar de alguns anciãos presentes – nunca mais desapareceu do meu coração. Depois de algumas brincadeiras com a miudagem e umas palavras com as pessoas, que ali entretanto se juntaram, nasceu a inquietação de fazer alguma coisa por aquela comunidade e por aquelas crianças: reconstruir a esperança através da reconstrução da sua Igreja, o lugar do encontro com Deus.
No regresso a Portugal, o desafio era gigante. Como reconstruir uma igreja a milhares a milhares de quilómetros? A resposta surgiu do diálogo, do entusiasmo e da generosidade das paróquias do Concelho de Constância, de muitos amigos, e do apoio da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, através da Renúncia Quaresmal de 2025. O projecto ganhou fôlego e, numa “corrente dos amigos” que deu o empurrão final, telha após telha, a constrição física foi concluída. Foi uma mobilização de “amigos dos amigos dos amigos”, provando que a solidariedade, quando tem um rosto e um propósito, não conhece limites. É preciso, todos os dias, agradecer a Deus haver corações tão generosos ao nosso redor.
Assim, no final de Janeiro de 2026, regressei a Thodaneri, em representação da Diocese de Portalegre – Castelo Branco, das suas comunidades, e de tantos amigos. Desta vez, não para ver ruínas, mas para celebrar a vida e a esperança. Juntamente com o Arcebispo, D. Antonysamy, abrimos as portas e inaugurámos a nova Igreja de Santo Inácio de Loyola.
A festa foi extraordinária, com muita música e cor, mas o brilho nos olhos das crianças e adolescentes foi o maior sinal de celebração. Para eles, aquela igreja não é apenas um edifício de tijolos e argamassa; é um símbolo de dignidade, a prova de que não foram esquecidos e de que somos verdadeiramente, uma Igreja Católica Apostólica Romana. Ao cortarmos a fita amarela que selava as portas da igreja, não estávamos apenas a abrir uma igreja; estávamos a reafirmar uma ponte histórica entre Portugal e a Índia, agora revitalizada por uma nova geração. Naquelas terras, por onde outrora passou São João de Brito e tantos outros missionários portugueses, a língua e a bandeira Portuguesa ainda são recordadas com muito carinho.
Foi uma semana rica de encontros que estreitaram ainda mais as nossas relações e que nos fazem sentir mais próximos e corresponsáveis pela missão da Igreja. Thodaneri reza por Constância, pela nossa Diocese e por cada pessoa que, na sua generosidade participou neste projecto O que para nós foi uma partilha, para eles foi o milagre da esperança. Temos de estar muito agradecidos a Deus por tudo o que Ele concretiza nas nossas vidas e nos fazer ser a verdadeira Igreja de Cristo.
Padre Nuno Miguel




