Coisas do arco da velha!…

Coisas do arco da velha!…

imagem retirada de https://super.abril.com.br/

Ainda que não seja mago nem vidente, hoje vou falar de magia. Se mirabolantes, os fenómenos que apresento são evidentíssimos. Mesmo sem querer, constatam-se por aí, de quando em vez, coisas que não sei se serão do arco se da arca da velha, o leitor poderá escolher! Se não desafiam as ninfas do tejo, atestam a necessidade de purificação e de saber em quem é que, afinal, acreditamos! Terço pendurado no espelho, junto ao volante da viatura, e a ferradura atrás no taipal ou à frente, até em automóveis. Cordão pendurado ao pescoço com o Crucifixo, mas este misturado com chifres, figas e outras velharias mais, quais amados bezerros de ouro! Muitas imagens de santos, dentro de casa, e, à porta ou portão, uma ferradura ou afins. Crianças acabadas de batizar, e logo alguém a colocar-lhe uma pulseirinha no pulso com toda essa tralha, pois não vá o diabo tecê-las!… E muito mais se poderá acrescentar. Querendo estar bem com os dois, acende-se uma vela a Deus e outra ao diabo, como soe dizer-se, e eles que façam o favor de lá se entender… Fraco testemunho cristão, mesmo que alguém diga que ninguém tem nada a ver com isso! É certo que não, nem é isso que está em causa. No entanto, para além do dever de dar bom testemunho, nenhum cristão se merece sujeitar à mofa silenciosa e escarninha do bom senso!

Vou falar de magia. É evidente que não me refiro àquela magia que é a arte dos ilusionistas e prestidigitadores. Com a sua imaginação, cultura, conhecimentos e habilidade, através de jogos de mãos, truques e meios naturais, criam a ilusão de estarem a desafiar as leis da física e exercem saudável fascínio no público que se diverte com isso. Esta magia não utiliza elementos ilícitos, não tem objetivos desonestos, é inofensiva, é legítima, é arte.

Refiro-me àquela magia que, se não é fácil de definir, implica uma visão do mundo que faz crer na existência de forças ocultas que vagueiam pelo mundo e exercem a sua influência sobre a vida do cosmos e do homem. Quem as promove e exerce, mesmo que nelas não acredite, pretende convencer os outros que pode controlar essas forças e obter resultados automáticos. Porque precisam de levar a vida, convém-lhes que assim seja e difundem tal serviço, mas a culpa não é deles, são livres e respeitáveis, a culpa é de quem lá vai, embora também sejam livres. Como escreveram os Bispos da Toscânia, na sua Nota Pastoral sobre “Magia e Demónios”, publicada pela Paulinas Editora e que me provocou e apoiou neste texto, “os mágicos, que atribuem a si próprios o poder de resolver problemas de amor, de saúde e de riqueza, ou ainda os que pretendem libertar do “mau-olhado”, de “feitiços”, são indivíduos que fazem a sua própria publicidade através de anúncios pagos nos jornais diários de grande circulação, exibem diplomas ou outros comprovativos universitários e chegam mesmo a aparecer nos meios audiovisuais, sobretudo na televisão. Não é exagero falar de uma “indústria da magia”.

Se há a magia branca negativa, a imitativa, a contagiosa e a encantadora, saliento a “magia negra”, aquela que recorre a poderes diabólicos ou pretende atuar sob a sua influência, transformando os seus seguidores em “servidores de Satanás”. Tem o seu auge nas “missas negras”. No campo da adivinhação, para além da que pretende predizer ou ler o destino das pessoas através dos astros e das estrelas (astrologia), ou mediante as cartas (cartomancia/tarologia), ou das linhas das mãos (quiromancia) ou doutras trapalhices, temos aquela que recorre a médiuns para invocar o espírito dos mortos e revelar o futuro (necromancia ou espiritismo). Mas há outros grupos esotéricos e ocultistas, antigos ou recentes, da teosofia à antroposofia e à New Age, a pretender penetrar no conhecimento de verdades ocultas e adquirir poderes espirituais especiais.

Sobre a sua credibilidade “a razão científica contemporânea, ou simplesmente a razão essencial, considera a magia como uma forma de irracionalidade, seja com respeito a conceções pré-lógicas que se atribui, seja em relação aos meios que ativa ou aos objetivos que procura”. Para os cristãos, continua a ser atual o que a Igreja sempre ensinou: “Ninguém no teu seio faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha; ou se dê a encantamentos, aos augúrios, à adivinhação, à magia, ao feiticismo, ao espiritismo, aos sortilégios, à evocação dos mortos, porque o Senhor abomina todos os que fazem tais coisas” (Dt 18,9-12), “não vos contamineis com isso. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 19,31). Há contradição entre o anúncio da fé e a magia. O pensamento e comportamento mágico manipulam espiritualmente a realidade, alienam, criam obstáculos, afastam do Reino de Deus (cf. At13, 6-12; Gal 5,20; Ap 9,21; 18,23; 21, 8; 22,15). Hipólito excluía do Batismo os magos, astrólogos e adivinhos. Tertuliano, outro autor do século III, escreve: “De astrólogos, bruxos, charlatães de toda a espécie, não deveria sequer falar-se. No entanto, recentemente um astrólogo, que se dizia cristão, cometeu a imprudência de fazer a apologia do seu ofício! Portanto, é necessário recordar, ainda que sucintamente, a esse homem e aos colegas de ofício, que ofendem a Deus colocando os astros sob a proteção dos ídolos e fazendo depender deles a sorte dos humanos”.

Nestes nossos tempos, porém, apesar de tanta escolaridade e evangelização, com tanto saber e cultura, a escravatura a essas práticas é preocupante. Em vão se busca aí sentido e respostas para as inseguranças e fragilidades da vida. “É uma compensação do vazio existencial que carateriza a precariedade da nossa época”. Multidões de pessoas metem-se por esses atalhos, procuram esses poderes pretensamente ocultos e sobre-humanos, pensando que por aí se libertam de perturbações existenciais, da dor, do mal e do medo da morte, de situações de angústia e de temor, de questões reais e traumáticas da vida. Ou então, procuram factos extraordinários e milagrosos, inclusive no campo dos relacionamentos amorosos, no campo económico, etc.

É evidente que não se pode cair num preconceito racionalista e negar, perante fenómenos extraordinários e extremos, a possibilidade da ação do Demónio, ela pode existir. Mas também seria pouco saudável que, por falsos misticismos ou por falta de maturidade na fé, ver, sempre e em qualquer caso, a ação do Maligno e recorrer à magia que nada resolve e a todos explora e escraviza, não liberta. Como referem os Bispos da Toscânia, os atos de ocultismo “só encontram terreno fértil onde existe ausência, vazio de evangelização”. Há que proclamar novamente, “com um vigor renovado, como nos alvores da Igreja, que só Jesus, o Ressuscitado que vive eternamente, é o Salvador. “E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar” (At 4,12).

O atual Catecismo da Igreja Católica refere assim: “Todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demónios, evocação dos mortos ou outras práticas supostamente «reveladoras» do futuro. A consulta dos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e de sortes, os fenómenos de vidência, o recurso aos “médiuns”, tudo isso encerra uma vontade de dominar o tempo, a história e, finalmente, os homens, ao mesmo tempo que é um desejo de conluio com os poderes ocultos. Todas essas práticas estão em contradição com a honra e o respeito, penetrados de temor amoroso, que devemos a Deus e só a Ele. Todas as práticas de magia ou de feitiçaria, pelas quais se pretende domesticar os poderes ocultos para os pôr ao seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo – ainda que seja para lhe obter a saúde – são gravemente contrárias à virtude de religião. Tais práticas são ainda mais condenáveis quando acompanhadas da intenção de fazer mal a outrem ou quando recorrem à intervenção dos demónios. O uso de amuletos também é repreensível. O espiritismo implica muitas vezes práticas divinatórias ou mágicas; por isso, a Igreja adverte os fiéis para que se acautelem dele. O recurso às medicinas ditas tradicionais não legitima nem a invocação dos poderes malignos, nem a exploração da credulidade alheia (CIgC, 2116-2117).

“Se escolhe Cristo, não podes ir ao bruxo. A magia não é cristã”, diz o Papa Francisco.

A Quaresma implica purificação e conversão verdadeira!

Antonino Dias, Bispo de Portalegre-Castelo Branco, 12-03-2021.

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