Cartas a Guiomar: Os outros mandamentos (15)

Cartas a Guiomar: Os outros mandamentos (15)

Querida Guiomar,

Passámos ontem pela primeira tábua dos mandamentos, vamos hoje fazer uma revisão da segunda.

O quarto mandamento sai-nos direitinho do coração. Ou saía. Ultimamente, com os ataques que a família tem sofrido, parece ser cada vez mais difícil, pelo menos para algumas pessoas. E, no entanto, Deus tinha as coisas muito bem planeadas: um pai e uma mãe para toda a vida, irmãos, guerras e paz, mas total segurança de bens e afectos. Na verdade, esta realidade não é só de agora; ao longo da história da humanidade, sempre houve famílias estranhas, e até é bem provável que as famílias normais tenham sido sempre uma excepção. O que não nos impede de continuar a tentar, porque a verdade é que as famílias normais são, de longe, as mais felizes, e aquelas que melhor conseguem suportar os embates.

O quarto mandamento manda-nos honrar pai e mãe, obedecer-lhes e estar-lhes gratos, e cuidar deles na velhice. Os pais também têm obrigações, como prover ao sustento material, moral e espiritual dos filhos, e o facto de uns não cumprirem as suas obrigações não dispensa os outros de cumprirem as deles. Os pais têm de cuidar dos filhos, mesmo que eles sejam rebeldes e gostem de rugby; e os filhos têm de respeitar os pais e de cuidar deles na velhice, mesmo que eles sejam sovinas e apreciadores de whisky velho. Custa mais, é evidente; mas é assim mesmo.

Por outro lado, a autoridade que os pais têm sobre os filhos é limitada. Não me entendas mal! Os pais têm obrigação (não é o direito, porque de um direito pode-se prescindir; é uma obrigação) de exercer a sua autoridade para educar os filhos, e de impor regras dentro da família (regras racionais; não têm o direito de acordar os filhos todos os dias às quatro da manhã para cantarem o hino nacional). Mas não têm o direito de os obrigar, por exemplo, a seguir uma carreira profissional específica, e muito menos a fazer o mal (pelo contrário, estão estritamente proibidos, como toda a gente, de os incitar ao pecado). Têm o dever de os educar na fé (e fazem muito bem em os obrigar a ir à missa ao domingo, como os obrigam a ir à escola, a apanhar as vacinas e a comer legumes) mas, a partir de certa altura, não podem forçá-los a praticar a religião em que foram educados, nem a praticar religião alguma, nem podem impedi-los de praticar a religião que tiverem adoptado.

Por seu turno, os filhos não são propriedade dos pais. Os filhos são pessoas capazes de autonomia, que Deus colocou aos cuidados dos pais para que eles lhes ensinem essa autonomia. Já os filhos, e qualquer que tenha sido a educação que receberam, têm a estrita obrigação de não abandonar os pais quando estes se tornam incapazes, e de os acompanhar até à morte, na medida das suas possibilidades.

O quinto mandamento proíbe-nos de matar. É um mandamento bastante simples e directo, que não suscita assim muitas dúvidas. Estamos proibidos de matar o inocente porque a vida humana é sagrada. Não podemos cometer homicídios directos e voluntários (mas, se formos atacados, podemos defender-nos, desde que o façamos apenas com a violência necessária a essa defesa, e se acontecer matarmos o atacante não teremos pecado), nem sequer de nós mesmos (ou seja, suicidar-nos).

Como não podemos cometer homicídios, não podemos praticar abortos (nem colaborar, seja de que maneira for, nessa prática), porque abortar é matar uma criança que ainda não nasceu. O aborto é sempre um homicídio, e não pode ser praticado em nenhuma circunstância. Abortar é matar uma criança que, além de ser absolutamente inocente, está absolutamente dependente da protecção dos outros. Qualquer bebé, em qualquer fase que se encontre do seu desenvolvimento, é um ser humano com direito à vida; um bebé com uma semana, que é só uma bolinha de células, e que nem a mãe ainda sabe que existe, é tanto um ser humano e tem tanto direito à vida como o mais famoso actor de Hollywood ou o mais prestigiado investigador do cancro. Exactamente o mesmo! O facto de ainda não ser capaz de subsistir sem a ajuda da mãe é completamente irrelevante, porque o tal actor mais famoso de Hollywood, se se estampar com o carro e ficar feito num oito, e ninguém o for socorrer, também não consegue subsistir, e não é por isso que temos o direito de o matar.

Como não podemos cometer homicídios, não podemos praticar a eutanásia (nem colaborar, seja de que maneira fora, nessa prática), porque praticar a eutanásia é matar uma pessoa só porque ela está velha, ou está doente, ou é deficiente, ou seja o que for. Nem que ela nos peça! Se eu te pedir que me espetes dois chuços nos olhos, não é certamente por eu to pedir que tu mo farás. Pois também não é por uma pessoa nos pedir que a matemos, que nós temos o direito (e muito menos a obrigação) de a matar. Nem por ela estar a sofrer. Se eu te pedir que me cortes a cabeça porque há dois anos que estou cheia de enxaquecas, com certeza que não te passa pela cabeça fazeres-me a vontade. Pois o mesmo se aplica às pessoas que estão a sofrer.

Finalmente, como não podemos cometer homicídios, também não podemos matar-nos (nem ajudar outras pessoas a matarem-se). Quando se diz que a vida humana é sagrada, pretende-se dizer que a nossa vida também é sagrada para cada um de nós. Nós não somos donos da nossa vida – não somos nós que no-la damos, e portanto ela não nos pertence. A vida, toda a vida, é de Deus, pelo que só Ele tem direito a dar-lhe destino. (Atenção, na maior parte dos casos, as pessoas suicidam-se devido a perturbações psíquicas, que lhes retiram ou diminuem fortemente a capacidade de decisão e portanto a responsabilidade. Essas pessoas são dignas da nossa compaixão e das nossas orações.)

O oitavo mandamento (não me esqueci dos outros dois, já lá vou), que nos proíbe de levantar falsos testemunhos e de faltar à verdade, é um dos mandamentos que violamos com mais descontracção e menos consciência de que estamos a pecar; com efeito, a má língua é um dos mais apreciados e praticados desportos humanos, e a mentira é considerada um acto normal da vida em sociedade. Ora bem, este mandamento proíbe-nos de dizer mal dos outros, proíbe-nos de dizer mentiras. Não se mente! Não se diz mal das pessoas! E isto não é negociável. Quando não podemos dizer bem de uma pessoa (incluindo os políticos), calamo-nos. Isto não significa que não chamemos aos bois pelos nomes. Se o teu vizinho de baixo assaltou um banco, tens de dizer que ele assaltou um banco, e que assaltar um banco, além de ser pecado, é crime; o que não podes fazer é juntar a palavra ladrão a todas as frases em que consta o nome dele. Há que chamar bem ao bem e mal ao mal; mas não se pode identificar o pecado com o pecador. Em vez de dizeres que o António é um ladrão, dizes que o António assaltou um banco; faz toda a diferença, porque um ladrão é um profissional da matéria que não pode deixar de roubar (por assim dizer) e quem assaltou um banco uma vez pode perfeitamente nunca mais voltar a cometer o mesmo crime.

Além de ser um pecado, a propagação da mentira dá cabo das sociedades e impede as pessoas de se relacionarem umas com as outras com normalidade, porque nunca sabemos se podemos agir confiadamente com base no que nos disseram. Não há mentiras piedosas! A mentira é um pecado e a piedade uma virtude, de maneira que uma mentira piedosa é uma contradição nos termos. É verdade que há circunstâncias em que não podemos dizer toda a verdade (é o caso do sigilo da confissão, bem como do segredo profissional dos médicos, dos advogados, etc.), por razões de justiça ou de caridade; e há circunstâncias em que não podemos sequer dar a entender que não podemos dizer toda a verdade. Nesse caso, ou nos calamos, se podemos, ou dizemos o que pudermos dizer, sem mentir. Se uma tia-avó te dá uma camisola horrenda, não vais obviamente dizer que a camisola é horrenda; mas podes dizer que é macia, ou que gostas imenso daquela cor, ou que é parecidíssima com uma que viste há pouco tempo numa montra – ou, se fores muito pressionada, podes mesmo dizer que não é bem o teu estilo, tudo coisas verdadeiras, que não chocam nem magoam. Por exemplo.

Por fim, não estamos obrigados, em nome da verdade, a responder a todas as perguntas que nos fazem. Se um jornalista perguntar ao presidente dos Estados Unidos o código de acesso aos mísseis nucleares, ele não tem de responder. As pessoas só têm direito a saber as respostas às perguntas que fazem se tiverem direito a fazer essas perguntas. As perguntas que violam o nosso direito à intimidade não têm de ser respondidas.

Passemos agora a dois pares de mandamentos, o sexto-e-nono e o sétimo-e-décimo. São dois pares curiosos, porque dizem respeito à mesma matéria mas, enquanto os primeiros (o sexto e o sétimo) regulam palavras e acções, os segundos (o nono e o décimo) regulam pensamentos e desejos; ou seja, os primeiros regulam a realidade que produzimos para fora de nós e os segundos a realidade interior a nós. Os seres humanos são um todo; por isso, é natural que os pensamentos e os desejos tenham tanta importância como as palavras e os actos. Tanto somos responsáveis por uns como por outros. Foi por isso que Deus instituiu estes dois pares de mandamentos, que nos orientam por fora e por dentro.

O sexto-e-nono mandamentos proíbem-nos os pecados contra a castidade, que consiste na adequada integração da sexualidade na pessoa. Nós somos seres sexuados, o que significa que cada um de nós tem um modo de ser feminino ou um modo de ser masculino; salvo em casos muito excepcionais, estes modos de ser estão marcados em nós desde o princípio, caracterizam-nos como o que somos, e ultrapassam em muito as expressões da sexualidade física. Mas a sexualidade física é uma força poderosa em nós (precisamente porque está intimamente ligada a uma actividade difícil, que é o cuidado dos filhos), e uma força que, se não é controlada, passa a controlar-nos. A castidade consiste no domínio de si mesmo nesta matéria, de modo a que todas as expressões da sexualidade, seja sob a forma de actos, seja sob a forma de pensamentos e desejos, tenham lugar no contexto para o qual foram pensados: o do matrimónio. Todas as pessoas têm de viver a castidade, cada uma no seu próprio estado: os solteiros como solteiros, os casados como casados.

O sexto mandamento proíbe-nos o adultério (a prática de qualquer tipo de actos sexuais com uma pessoa diferente daquela com quem estamos casados), a masturbação (a excitação do próprio corpo para a obtenção de um prazer sexual fora do acto conjugal), a fornicação (a prática de actos sexuais fora do casamento), a pornografia (a produção e o consumo de imagens de actos sexuais), a prostituição (a comercialização de actos sexuais), a violação e a prática de actos homossexuais. Em suma, o sexto mandamento proíbe-nos de praticar quaisquer actos de natureza sexual excepto com a pessoa com quem somos casados; assim, não se podem ter relações sexuais com a/o namorada/o, mesmo que se trate de uma relação duradoura e que vai certamente terminar em casamento! Os actos sexuais devem ter lugar exclusivamente dentro do matrimónio, que é o contexto para o qual existem! Um/a namorado/a não é uma pessoa com quem se vive, é uma pessoa com quem se anda a pensar se se quer passar o resto da vida.

Viver como um cristão não será talvez a coisa mais fácil do mundo – sobretudo na sociedade actual, que respira sexo por todos os poros –, mas está longe de ser impossível; milhões de pessoas viveram assim desde que o mundo é mundo, e continuam a viver, e são felizes! E, se pecam gravemente contra o sexto ou o nono mandamento, vão confessar-se, pedem perdão a Deus, e recomeçam. Não cai o mundo quando se peca contra o sexto ou o nono mandamento; cai o mundo é quando se peca e se afirma que não se pecou.

Algumas das mulheres com quem Jesus manteve diálogos mais comoventes durante a Sua vida neste mundo eram pecadoras contra o sexto mandamento, e ainda por cima conhecidas como tal: a samaritana do poço de Jacob, a mulher apanhada em adultério, Maria Madalena. Jesus tratou-as com um amor que elas não tinham encontrado em mais ninguém, mas não disse a nenhuma delas que continuasse com a vida que tinha, que fazia muito bem! Pelo contrário, disse-lhes muito claramente que mudassem de vida, que não tornassem a pecar – e foi o que elas fizeram.

O nono mandamento é o complemento interior do sexto e proíbe-nos de alimentar pensamentos e desejos relativos às acções proibidas no sexto. Às vezes temos pensamentos deste género sem querer, mas isso não é pecado. Pecado é ficar a olhar para eles, a virá-los da frente para trás, a dar-lhes conversa como Adão e Eva fizeram com o demónio.

Temos muitas ajudas para evitar os pecados contra o sexto e o nono mandamento e viver a virtude do amor; são elas: a oração, a frequência dos sacramentos, o esforço pessoal, e muito particularmente a devoção a Nossa Senhora, que foi a mais pura e a mais casta de todas as criaturas que jamais existiram ou existirão, e que está sempre disposta a dar-nos uma mão para sermos puros e castos como Ela.

O sétimo mandamento proíbe-nos de ficarmos com aquilo que não nos pertence, nomeadamente de roubar, de não pagar um salário justo, de cometer fraudes, bem como de praticar a corrupção e a usura (que consiste em emprestar dinheiro com juros acima do razoável e do estabelecido).

Os bens da criação, que são obra de Deus, destinam-se a ser partilhados por todos os homens. Isto não quer dizer que todos tenham de ter o mesmo, mas quer dizer que, para uma sociedade ser justa, todos têm de ter o mínimo para viver com dignidade. A Igreja ensina que todas as pessoas têm direito à propriedade privada dos bens que tenham adquirido de modo justo, propriedade privada essa que se destina a garantir a liberdade e a segurança das pessoas, ajudando-as a satisfazer as suas necessidades fundamentais. Já as grandes disparidades entre ricos e pobres, nomeadamente quando os mais pobres não têm o suficiente para viver como criaturas de Deus, são condenadas pela Igreja como situações iníquas.

No seu dia a dia, os católicos estão proibidos de destruir a natureza e de estragar aquilo que é comum, de sair das lojas com CDs debaixo do braço sem os pagar, de fugir aos impostos, de invadir a propriedade alheia e de ficar com o telemóvel que encontraram em cima do balcão do café. E estão obrigados a partilhar o que têm com aqueles que têm menos do que eles, seja sob a forma de esmolas directas, seja sob a forma de ajuda a instituições de beneficência. O décimo mandamento proíbe-nos de cobiçar o que é dos outros, de ansiar por ter constantemente mais, de ter inveja de tudo o que não nos pertence, de ficarmos tristes por não termos o mesmo que os outros. É – acredita! – um dos mandamentos que mais liberdade interior gera em nós.

E pronto, creio que já tens agora uma base razoável para o teu exame de consciência.

*Maria José Figueiredo

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