Cartas a Guiomar: Os novíssimos (19)

Cartas a Guiomar: Os novíssimos (19)

Querida Guiomar,

Estavas ontem tão triste com a morte da tua madrinha…

Mas a verdade é que todos morremos. Tu também vais morrer (eu também). Às vezes pensamos na morte como uma coisa que acontece só aos outros, quando a verdade é que a morte é a coisa mais certa que todos temos na vida, e pode acontecer-nos a qualquer momento. E depois da morte vem a vida eterna. Ora, a vida eterna é aquilo que teremos para sempre. E convém muito ter a noção do que é este para sempre – porque é mesmo para sempre, ou seja, nunca mais acaba. Não são 10 anos, nem 100, nem 10 mil milhões de anos; a comparar com a eternidade, 10 mil milhões de anos é um número ridículo, não é nada! A eternidade são 10 mil milhões de anos a multiplicar por infinito. Convenhamos que é bastante tempo. É por isso que é a parte que mais conta na nossa existência.

Há quem diga que, no futebol, a coisa mais importante são os golos, mas isso é falso; os golos não são a coisa mais importante, são a única coisa importante do futebol. O mesmo se passa com a vida eterna. Ir para o céu não é a coisa mais importante da nossa vida, é a única coisa que realmente importa. Mas, para querer o céu, não basta querer assim assim; é preciso querer mesmo, ou seja, é preciso cortar definitivamente as amarras com tudo aquilo que nos impede de lá chegar, e que é essencialmente o pecado. Não podemos querer ir para o céu a meias, porque senão não vamos mesmo! Não podemos ter uma vela acesa a São Miguel e outra ao demónio.

O que é que acontece depois da morte? Quando morremos, somos imediatamente julgados por Deus num juízo particular. A nossa alma apresenta-se diante do trono celeste e Deus revela-nos a verdade da nossa vida pelas obras que praticámos. Mas nota que Deus não nos vai julgar pelos êxitos que tivemos, nem pelo dinheiro que ganhámos, nem por sermos atraentes ou repugnantes, inteligentes ou estúpidas, dextras ou canhotas, campeãs de judo ou miss mundo; nada disso conta o que quer que seja – é zero, um zero absoluto na nossa avaliação (e eu tenho de o repetir muitas vezes a mim própria). Deus não nos vai julgar por termos recebido o Prémio Nobel, nem por termos descoberto a cura para o cancro, nem por termos sido presidente dos Estados Unidos ou capa da revista do nosso bairro; nada disso conta um miligrama que seja no acesso à felicidade eterna (e verdade seja dita que também não conta assim muito no acesso à felicidade neste mundo – depois de adquirida, qualquer dessas coisas nos deixa na boca um sabor amargo a pouco). Deus vai julgar-nos, única e exclusivamente, pelo que tivermos amado. A forma do céu é o amor (lembras-te dos dois mandamentos aos quais podem resumir-se os dez?).

Realizado esse julgamento, podem acontecer-nos duas coisas: ou alcançámos o céu, ou não. Em seguida, temos três destinos: se nos tivermos salvado, ou vamos para o céu, ou vamos para o purgatório; se nos tivermos condenado, vamos para o inferno. Vão directamente para o céu as almas que tiverem morrido em graça (arrependidas dos seus pecados e com eles devidamente confessados) e que se encontrarem completamente purificadas e capazes de ver a Deus, podendo portanto gozar imediatamente da felicidade eterna. As almas que tiverem morrido em graça, mas que não se encontrarem completamente purificadas das marcas do pecado vão para o purgatório purificar-se. O purgatório não é um estado agradável, porque a purificação se faz através do sofrimento, mas também não é um castigo; é uma espécie de repescagem para quem não aproveitou todas as graças que recebeu em vida, é um estado de esperança intensa, porque estas almas sabem que o céu já ninguém lhes tira! Podem levar mais ou menos tempo a lá chegar, mas pelo caminho é que não ficam.

Para chegarmos ao juízo particular o mais purificados possível das marcas do pecado, e passarmos rapidamente para o céu, podemos fazer penitência neste mundo. A Igreja ensina que a penitência se faz através da oração, da esmola, do jejum, e do sofrimento, quando oferecidos por amor e em união com Cristo na cruz. A Igreja ensina mesmo que, ao contrário do que nos possa parecer, o sofrimento é um sinal da predilecção de Deus, que não poupou o Seu próprio Filho, antes O entregou à morte por nós. Tudo o que nos acontece, seja agradável ou desagradável, é enviado ou permitido por Deus com vista à nossa salvação e santificação; nada acontece por acaso. Por isso, quando Deus nos envia dores, doenças, dificuldades, a nós ou às pessoas que mais amamos, fica-nos bem agradecer-Lhe, porque está a abreviar-nos o purgatório e a querer levar-nos mais depressa para junto d’Ele. Embora também possamos protestar (um bocadinho). Santa Teresa de Ávila, que passou as passas do Algarve e tinha muita confiança com Nosso Senhor, estava certa vez a queixar-se da quantidade de dificuldades que Deus lhe tinha enviado naquele dia específico. É assim que Eu trato os Meus amigos, respondeu-lhe Jesus; e Santa Teresa, que não era mulher para se calar quando lhe puxavam pela língua, respondeu-Lhe: Por isso é que tens tão poucos! E tinha razão! Mas também ficou confirmado que o sofrimento está longe de ser uma maldição – pelo contrário.

Devido à comunhão dos santos, e à unidade entre a Igreja triunfante, a Igreja padecente e a Igreja militante, as almas que estão no céu e as almas do purgatório intercedem por nós, ajudando-nos no nosso esforço para vivermos como cristãos, e nós podemos interceder (uns pelos outros e) pelas almas que estão no purgatório, ajudando-as a chegar mais depressa ao céu. Fazemo-lo através de orações, de pequenas mortificações, e principalmente através do mais eficaz de todos os sacrifícios, que é a Santa Missa. Também podemos fazê-lo através das indulgências. As indulgências consistem na remissão da pena pelo pecado por recurso aos méritos de Cristo e dos santos, e são alcançadas através da prática de determinadas obras; assim, por exemplo, fazer peregrinações, rezar o terço em família e oferecer o trabalho são tudo actos que permitem obter indulgência. Mas atenção, é preciso cumprir determinadas condições, que são sinais de uma disposição penitente: confessar-se por essa altura e comungar no mesmo dia, rezar pelas intenções do papa, e sobretudo ter uma profunda aversão ao pecado venial deliberado (que é a condição mais difícil de todas). As indulgências podem ser aplicadas ao próprio ou às almas do purgatório.

Finalmente, as almas que tiverem morrido em pecado, ou seja, que tiverem voltado propositadamente as costas a Deus, vão para o inferno. O inferno é um estado de sofrimento intenso e eterno, e um estado horrível, porque nós fomos feitos para amar a Deus e vemo-nos privados Dele para toda a eternidade (que são os tais 10 mil milhões de anos a multiplicar por infinito). A condenação eterna é uma possibilidade real, porque nós somos realmente livres. A nossa liberdade não é uma ilusão; nós somos senhores do nosso destino, em particular do nosso destino eterno. E não há ninguém que leve mais a sério a nossa liberdade do que Deus, que nos oferece o destino eterno que nós escolhermos: com Ele ou sem Ele. Deus tem uma preferência clara: quer-nos com Ele; e faz todo o possível e o impossível para nos ter com Ele. Mas nada fará contra a nossa vontade. Somos nós que decidimos, através das nossas obras e da nossa vida.

No final dos tempos, Cristo virá de novo, em toda a Sua glória, e procederá ao Juízo Final, no qual todos os pensamentos, desejos e actos de todas as pessoas de todos os tempos serão revelados e conhecidos por todos. Vai ser um banquete de bisbilhotice! Vamos ficar a saber tudo o que de nós pensaram e por nós fizeram todas as pessoas que connosco se cruzaram – e elas de nós; nem o mais recôndito pensamento ficará oculto (é arrepiante, não é?). Depois, dar-se-á a ressurreição da carne, acabará o purgatório, proceder-se-á à separação definitiva dos bons e dos maus, e serão instaurados os novos céus e a nova terra, a plenitude do Reino de Deus, onde deixará de haver morte, corrupção, imperfeições e sofrimento. E a Igreja triunfará definitivamente, com Cristo-Rei como sua cabeça.

É uma descrição que até causa vertigens!

*Maria José Figueiredo

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