Atirou a capa fora e deu um salto

 Atirou a capa fora e deu um salto

imagem retirada de https://pequenosirmaos.com.br

Dom Antonino Dias

E daí?!… E daí não sei. Se querem saber se a capa do homem ficou no chão ou se alguém a rapinou e se pisgou com ela, isso não lhes sei dizer! Quem o poderia ter dito, não se chegou à frente para no-lo explicar. Infelizmente, também não havia câmaras de vigilância nem, por perto, os coca-bichinhos para vídeos de telemóvel! No entanto, o resto que ali se passou, isso sim, foi muito bonito e digno de registo, ficou escrito. É possível que alguém, sob curiosidade mórbida, queira apenas explorar o que realmente aconteceu à capa. No entanto, se isso lhes serve de algum conforto, posso dizer-lhes que aquela capa não era a capa preta do homem que, com a sua metralhadora lurdinha, desafiava os corruptos e os poderosos fluminenses. Tampouco era a capa negra do homem das bebidas Sandeman. Também lhes posso garantir que não era a capa vermelha do super homem nem a capa rosa e amarela dos toureiros. Muito menos a capa que São Martinho partilhou com o pobre ou o manto de Jesus que aqueles figurões sortearam entre si. Era a capa do filho de Timeu, não sei se preta ou vermelha, se negra, rosa ou amarela, não sei se já esfarrapada pelo uso e pela pobreza, se leve ou pesada. Mas, lembram-se? Lembram-se desse homem da capa?

Chamava-se Bartimeu. Se me dão licença, eu estico-lhes a memória. Era um cego que tinha por ocupação estender a mão à caridade, lá para as bandas de Jericó, a terra das tâmaras, pedindo o pão nosso de cada dia. Com certeza que o pobre coitado já tinha ouvido falar de Jesus e das mirabolâncias que Ele dizia e fazia. É de esperar que alimentasse a ideia de um dia se encontrar com Jesus para ser confirmado na fé e na esperança que já fervilhavam no seu coração. E eis senão quando, chega-lhe aos ouvidos o crescente burburinho duma multidão que se aproximava, e que, segundo se presume, não vinha a falar de futebol nem de buracos bancários ou bazucas para coesões territoriais. Intrigado sobre o que realmente seria aquilo, o cego veio a saber que era Jesus que se aproximava, acompanhado por discípulos, curiosos e alguns amigos da onça. Bartimeu logo viu ali uma excelente possibilidade de dar um salto para a felicidade. E não esteve com meias medidas nem perdeu tempo. Lá do seu canto à beira do caminho plantado, começou a gritar: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”, “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”. Mas eis que uns tantos, – muitos, diz o Evangelista São Marcos -, muitos repreenderam-no para que se calasse. São Lucas refere que quem o mandava calar eram os que iam à frente. Também hoje há muita gente que, do alto do escadote do seu ego, se julga ir à frente em tudo, com o direito de mandar calar os outros. Mas o cego é que não estava pelos ajustes e muito menos acatava ordens de quem nunca tinha visto mais gordo e continuava a não ver. E se quem o mandava calar tinha os olhos no sítio, esses olhos estavam muito sujos e demasiadamente remelados, não eram capazes de enxergar o que significava estar cego e depender da generosidade alheia. Por isso, quanto mais repreendiam o cego mais o cego atestava os pulmões de ar para gritar à boca cheia: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”. Indiferente às repreensões de quem apenas fazia monte e barulho à volta de Jesus, o cego não desarmou, não baixou a guarda: resistiu, insistiu e persistiu. Entretanto, Jesus não se fez esperar. Perante quem não percebia o sofrimento da pessoa em causa, parou e disse àquela malta: “Chamai-o”.

E se muitos o mandavam calar, outros houve que se adiantaram para o animar a ter confiança: “Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar por ti”. E o extraordinário aconteceu!  “O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus”. O Senhor, fazendo-se estranho e curioso, perguntou-lhe: “Que queres que Eu te faça?” O cego logo respondeu com fé e confiança: “Mestre, que eu veja”. Os contra a gritaria meteram a viola ao saco, Jesus elogiou a fé do cego que logo recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho (cf. Mc 10, 46-52; Lc 18, 35-43).

Foi há dois mil anos, mas continua a acontecer. Há quem, à margem dos caminhos da vida – as “cegueiras” são muitas e muito diversas! -, há quem, sempre confiante e com esperança, continue a gritar por Jesus. Discernir qual a melhor resposta a dar às exigências da fé e da vida, descobrir os verdadeiros caminhos a seguir, nem sempre é empresa fácil. Muito mais difícil se torna se se prescinde de ajuda e apenas se confia nas próprias forças e capacidade. E tal como outrora, também hoje não falta quem mande calar ou tente ridicularizar ou desanimar quem deseja dar um passo em frente na conquista de novos mundos e novos desafios pelos caminhos da fidelidade ao Senhor e à vida. Estas pessoas que presumem ir muito à frente desta maneira de sonhar, pensar e estar, nem sempre precisam de palavras para mandar calar. Usam silêncios reprovadores, sorrisos sarcásticos e destruidores, gestos cínicos e mordazes, querem fazer opinião e influenciar. Porque, por vezes, não querem estar sozinhas em situações pouco coerentes, preferem ver os outros do seu lado ou à margem dos caminhos da vida. Magoados no seu íntimo com tais chacotas e piadinhas, os atingidos ora se calam, ora respondem com um sorriso amarelo, ora fingem tudo encaixar na desportiva!… Regra geral, são pessoas que também não deitam mão do “mimimi”, isolam-se, sofrem sozinhas. E quem lhes provoca este sofrimento, porque julga que é superior, não tem a coragem de arremessar fora a capa da sua hipocrisia – uma cegueira incrível! -, e de dar um salto em frente que o livre de preconceitos daninhos, de aparências existenciais, de molestar os outros com a sua autossuficiência, de pensar que já está muito à frente. Mesmo que julguem ter os olhos bem abertos e saudáveis, acrescentam à sua cegueira a dureza de coração, destruindo sonhos e ideais, amofinando quem procura ser fiel aos compromissos assumidos e orientar a vida por valores que realizem e salvem. Feliz de quem encontra no seu caminho a voz de alguém a dizer-lhe: “Coragem, Ele está a chamar por ti”.

* Antonino Dias, Bispo de Portalegre-Castelo Branco, 07-06-2021.

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