Afonso III o rei que ouviu os “autarcas”

 Afonso III o rei que ouviu os “autarcas”

Paulo Freitas do Amaral, Professor de História

A poucos meses das eleições autárquicas, é importante lembrar que o municipalismo português não nasceu com o 25 de Abril nem é um exclusivo da democracia contemporânea.

As suas raízes são fundas, medievais, e um dos seus maiores impulsores foi precisamente um rei do século XIII: Afonso III.

Foi ele quem, em 1254, nas Caldas da Rainha, tomou a inédita decisão de convocar Cortes para ouvir os “homens bons” dos concelhos — os autarcas da época — sobre uma medida sensível: a quebra da moeda.

O rei tinha poder absoluto. Mas preferiu escutar. Discutiu com os representantes populares e, perante os seus argumentos, recuou. Cedeu à vontade dos concelhos.

Este momento marcou a história política do país e consagrou uma prática de consulta e participação popular que se tornaria marca identitária da governação portuguesa ao longo dos séculos.

Portugal era, de facto, uma vanguarda: só Afonso VII de Leão e Castela, avô de Afonso III, fizera algo semelhante, tornando ambos os primeiros monarcas da Europa a ouvir o povo em Cortes — um feito que nem os reis ingleses se atreveram a imitar na época.

D. Afonso III foi muito mais do que o último conquistador do Algarve.

Filho de D. Afonso II e irmão de D. Sancho II, ficou para a história como um dos monarcas mais visionários da Idade Média europeia.

O seu percurso singular começa ainda em França, onde cresceu na corte da rainha Vitória, educado pelos melhores pedagogos do tempo, entre os quais se destaca Jean de Joinville, e na companhia de Luís IX, seu amigo íntimo de infância, que viria a ser canonizado como São Luís.

Foi neste ambiente refinado que Afonso se destacou como homem culto e corajoso, ganhando fama de herói ao participar em várias campanhas militares e distinguindo-se na frente de batalha em França, como um guerreiro temido que derrotava inimigos corpo a corpo.

Os contactos diplomáticos e o prestígio que conquistou entre a elite europeia — em contraste com o descrédito em que caíra o seu irmão, D. Sancho II, apaixonado e desligado dos deveres régios — prepararam o caminho para a sua aclamação em Portugal, com o apoio do Papa e da alta nobreza.

D. Sancho II não deixou descendência, e a alternativa natural foi o seu irmão Afonso, homem respeitado além-Pirenéus e com sólida rede de alianças internacionais.

Após conflitos com o irmão e já com o apoio do poder eclesiástico, Afonso III assumiu o trono português com uma visão de Estado profundamente reformadora.

Reorganizou o território em comarcas, acelerou a emissão de forais, estruturou uma administração mais eficaz e alterou os símbolos da bandeira nacional — que, com castelos e quinas, perduram até hoje como marca da nossa identidade.

Homem de saber e de visão, Afonso III cercou-se dos melhores. Entre os seus amigos próximos contava-se Pedro Hispano, futuro Papa João XXI, o único Papa português da história.

Foi este ambiente de cultura e inteligência que legou ao seu filho, D. Dinis.

O “Rei Poeta” e fundador da Universidade de Coimbra não surgiu por acaso: herdou do pai o gosto pela ciência, pela arte de governar e pela modernização do reino.

Foi o próprio Afonso III quem trouxe de França o pedagogo responsável pela sua educação, assegurando a continuidade de uma formação de excelência para o seu herdeiro.

Ao estabilizar as fronteiras, preparou o caminho para que D. Dinis pudesse assinar o Tratado de Alcanizes — a definição final da fronteira com Castela, que permanece inalterada até hoje.

Portugal, tal como o conhecemos, nasceu com Afonso III, o rei que pôs o povo a falar, que soube conquistar pela força e governar com a razão, e que deixou ao filho não apenas um trono, mas uma pátria consolidada.

E deixou-nos também uma lição atual: ouvir os representantes do povo é, afinal, uma tradição portuguesa com mais de sete séculos. Que a memória de Afonso III nos inspire nestas eleições autárquicas.

Afinal, não estamos apenas a escolher presidentes de câmara — estamos a honrar uma prática que nos fez vanguarda democrática antes mesmo de a palavra existir.

*Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor

Para si... Sugerimos também...

Faça o seu comentário

Subscreva a nossa newsletter