Porto, Ermesinde, Fátima e Balazar: geografia portuguesa do Sagrado Coração
Abril na idade dos porquês

Um dos assuntos que sempre despertou em mim especial interesse foi a revolução de Abril. Na realidade, considero-me seu filho pois à data o meu pai cumpria serviço militar em Moçambique. Como consequência desta, cumpriu menos tempo que o normal até então, o que provavelmente muito contribuiu para que a minha vinda ao mundo tivesse ocorrido mais cedo.
Desde os tempos de escola que me tentaram “vender” a ideia de que a revolução se fez sob a égide de 3 “D”. Democratizar, Descolonizar, Desenvolver. Na realidade, o único “D” que verdadeiramente uniu os operacionais que planearam e executaram o golpe de estado foi “D” de DESEJO. Desejo de vingança. Não fosse o decreto nº 353/73 de 13 de Julho, que equiparava os oficiais milicianos aos oficiais oriundos da academia militar, e a primavera de 74 não teria conhecido Abril.
Só assim foi possível unir oficiais descontentes com o regime, mas com uma suscetibilidade política tão extremosa que abraçavam todo os espectros desde a extrema esquerda à extrema direita. Havia neste movimento apoiantes convictos do comunismo na sua forma mais primitiva, (para quem democracia e desenvolvimento são palavras desconhecidas) até aos simpatizantes assumidos do ultranacionalista Kaúlza de Arriaga, (que estavam dispostos a fuzilar quem falasse em descolonização).
Felizmente, estavam em maioria, aqueles moderados que de facto se preocuparam mais com os portugueses no seu todo que apenas com o seu umbigo. Ficarão para sempre na nossa história como os heróis que devolveram a liberdade e a democracia aos portugueses. Infelizmente, quase só perduram na eternidade os rostos de Salgueiro Maia e Spínola. A muitos outros heróis, tanta vez esquecidos, devemos esse grande passo que nos permite hoje expressar o nosso pensamento.
Não foi preciso esperar muito para que o povo percebesse que efetivamente alguns destes militares não estavam ali ao serviço dos portugueses, nem tão pouco da democracia. O 11 de Março seguinte esclareceu as dúvidas todas, afinal o comunismo estava instalado e em marcha. Não fosse o 25 de Novembro de 1975 e a democracia e a liberdade não passariam de palavras de circunstancia na boca dos ditadores pró-soviéticos, assim ao estilo Norte Coreano. Mesmo assim, não contentes com o resultado final da revolução, alguns desses “pais da liberdade” viriam a criar já na década de 80 uma organização terrorista (FP25) com o intuito de impor pelo terror o poder que os votos não lhes conferiam. Reconhecer a liberdade é um dever. Tal como é um dever nunca esquecer que Portugal teve terroristas que mataram dezenas de vítimas inocentes e colocaram uma nação a caminho do caus e destruição.
Passados 47 anos, há, no entanto, perguntas a fazer, respostas a exigir, rumos a mudar.
Seremos mesmo um povo livre? Ou não passamos de um povo libertado?
Que liberdade há numa sociedade onde os jovens com empregos de sonho são “escolhidos” em função do cartão de militante e os verdadeiramente competentes desesperam para que não sobre mês no final do parco vencimento?
Que liberdade há numa sociedade onde as reformas “douradas” chegam com a meia idade e as reformas de miséria obrigam a trabalhar até aos 70?
Que liberdade há num pais onde os corruptos não negam as provas da sua corrupção e se limitam a dizer que as mesmas foram obtidas de forma ilegal?
Que liberdade há numa sociedade que não confia na sua justiça e duas centenas de milhares de pessoas se juntam para pedir a “cabeça” de um juiz sucessivamente derrotado das suas decisões nas instâncias superiores?
Que liberdade há num país em que as autoridades multam um trabalhador que tenta matar a fome comendo uma simples sandes na sua viatura?
Que liberdade há num país onde os principais órgãos de comunicação social comprometem a sua idoneidade a troco da venda de “publicidade institucional”?
Finalmente, porque motivo estamos a fazer estas perguntas? Será porque a democracia é ainda uma criança na idade dos porquês? Ou é porque na realidade já está velha, moribunda, em avançado estado de alzheimer, e de tão demente não se recorda dos ideais que lhe deram à nascença? Vai esta democracia amadurecer? Ou avizinha-se a queda da III Républica?
*João Paulo Marrocano

2 Comentários
Excelente artigo. Parabéns.
É verdade antigamente é que era bom, as saudades que eu tenho dos 47 anos de Salazar e Marcelo, ainda bem que há gente que sabe o que quer para o Portugal, temos que repor o estado novo e voltar a Governar e com ajuda da igreja certamente vamos conseguir, parabéns pelo seu artigo e em breve falarei consigo pessoalmente para o ajudar no seu trabalho de lembrar as tristezas que o 25 de abril nos trouxe.
Um abraço
JM