A purificação da memória e o pedido de perdão

A purificação da memória e o pedido de perdão

imagem de Vatican.va

Dom Antonino Dias

A história que se escreve e ensina é, muitas vezes, a história dos que se consideram vencedores, fossem quais fossem os seus objetivos, o pretexto, a estratégia e os meios que usaram. Para valorizar tal façanha e os seus fins, convém que a história seja narrada a enaltecer o seu heroísmo, sirva ao seu endeusamento e deprecie os vencidos como se de formiga branca ou erva daninha se tratasse. A verdade, porém, – ou pelo menos parte dela! -, mais tarde ou mais cedo, sempre vem ao de cima. Só a verdade nos libertará!…

À entrada do terceiro milénio, São João Paulo II escrevia que o ano jubilar se caracterizara pelo pedido de perdão, não só pelas pessoas que se interrogaram sobre a sua própria vida para implorar misericórdia, mas também pela Igreja inteira, “que quis recordar as infidelidades de muitos dos seus filhos que ao longo da história obscureceram o seu rosto de Esposa de Cristo. Há muito que nos predispúnhamos para este exame de consciência, cientes de que a Igreja, contendo pecadores no seu seio, é «simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação». Congressos científicos ajudaram-nos a focalizar os aspetos onde, no arco dos primeiros dois milénios, nem sempre brilhou o espírito evangélico. Como esquecer a comovente Liturgia de 12 de Março de 2000 na basílica de S. Pedro, durante a qual, com os olhos fixos no Crucifixo, fiz-me porta-voz da Igreja, pedindo perdão pelo pecado de todos os seus filhos? Esta «purificação da memória» reforçou os nossos passos no caminho para o futuro, tornando-nos ao mesmo tempo mais humildes e vigilantes na nossa adesão ao Evangelho (NMI, 6).

O tempo da purificação da memória continua, vive-se com vergonha e humilhação, mas também com sinceridade, humildade e esperança numa maior fidelidade ao Evangelho. A Igreja sempre se renova, se é humana, é sobretudo divina. Ainda a viver a peregrinação penitencial do Papa Francisco ao encontro dos povos indígenas do Canadá, celebramos, a 9 de agosto, o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Serão 370 milhões que lutam pelo reconhecimento dos seus direitos, pelos territórios que habitam e respetivos frutos, pela sua forma de vida que é única. Repartem-se por 90 países, constituindo 5% da população global e 15% do total da população mais pobre, mas culturalmente muito ricos. A falta dos direitos básicos, a colonização, as doenças, a baixa expectativa de vida, a degradação do ambiente, a perseguição, as ameaças territoriais, as deslocações forçadas por conflitos e violências, a discriminação sistemática, a apropriação ilegal das suas terras, as catástrofes naturais e as poucas garantias de verem cumpridos os seus direitos, torna-os excessivamente vulneráveis e ameaçados nas suas formas de vida, cultura e identidade. A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável prometem não deixar ninguém para trás, mas o processo é lento. Só o querer e a coragem de implementar políticas inclusivas, equitativas e acessíveis a estes povos concretizarão as suas aspirações e os seus direitos. Entre outros direitos, eles são iguais perante os demais povos, não podem sofrer qualquer tipo de discriminação, têm direito à autodeterminação, à nacionalidade própria, à sua integridade física e cultural que deve ser preservada e garantida, inclusive, pelos Estados. Não podem ser removidos à força dos seus territórios que sempre souberam amar, respeitar, guardar e valorizar. Têm o direito de exercer as suas crenças espirituais bem como a utilizar, a promover e a divulgar o seu própria língua, sempre ligada à sua cultura, à sua história, à sua identidade. Quase metade dos 6.700 idiomas do mundo, na maioria indígenas, corre o risco de desaparecer, o que significa uma perda do conhecimento tradicional. O Dia Internacional dos Povos Indígenas é para alertar para esta situação e para que estes povos não tenham os seus direitos básicos ainda mais diminuídos.

Sem poder reparar o mal feito, o Papa Francisco fez da sua recente Visita Pastoral ao Canadá uma peregrinação penitencial: “Vim com espírito penitencial, para vos manifestar o pesar que sentimos no coração, enquanto Igreja, pelo mal que não poucos católicos vos causaram apoiando políticas opressivas e injustas aplicadas a vós. Vim como peregrino, com as minhas limitadas possibilidades físicas, para propiciar mais passos em frente convosco e a vosso favor: para que se prossiga na busca da verdade, para que se progrida na promoção de percursos de cura e reconciliação, para que se continue para diante semeando esperança para as futuras gerações de indígenas e não indígenas que desejam viver juntos (…) Há pouco, escutei vários de vós, ex-alunos das escolas residenciais: obrigado pelo que tiveram a coragem de dizer, contando grandes sofrimentos, que eu não teria imaginado. Isso despertou em mim a indignação e a vergonha que, há meses, me acompanham. Também hoje e aqui quero dizer-vos o grande pesar que sinto; e desejo pedir perdão pelo mal cometido nas escolas por não poucos católicos que contribuíram para as políticas de assimilação cultural e de alforria. Mamianak – lamento. Veio-me ao pensamento o testemunho dum idoso em que descrevia a beleza do clima que reinava nas famílias indígenas antes da chegada do sistema das escolas residenciais (…) Queridos amigos, estamos aqui com a vontade de percorrer, juntos, um itinerário de cura e reconciliação, que, com a ajuda do Criador, nos ajude a projetar luz sobre o que aconteceu e a superar o passado obscuro”.

Francisco também afirmou que, de facto, esta «história de sofrimento e desprezo», originada por uma mentalidade colonizadora, «não se cura facilmente». E alerta-nos para o facto de que «a colonização não para; embora em muitos lugares se transforme, disfarce e dissimule». É o caso das colonizações ideológicas. Se outrora a mentalidade colonialista transcurou a vida concreta das pessoas, impondo modelos culturais pré-estabelecidos, também hoje não faltam colonizações ideológicas que afrontam a realidade da existência, sufocam o apego natural aos valores dos povos, tentando desenraizar as suas tradições, a história e os laços religiosos. Trata-se duma mentalidade que, com a presunção de ter superado «as páginas negras da história», abre espaço à cultura do cancelamento que avalia o passado com base apenas em certas categorias atuais. Assim estabelece-se uma moda cultural que uniformiza, torna tudo igual, não tolera diferenças e concentra-se apenas no momento presente, nas necessidades e direitos dos indivíduos, negligenciando muitas vezes os deveres para com os mais débeis e frágeis: pobres, migrantes, idosos, doentes, nascituros… São eles os esquecidos nas sociedades do bem-estar; são eles que, na indiferença geral, acabam descartados como folhas secas para queimar”.

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