À esquerda do CHEGA? Somos todos Freitas

 À esquerda do CHEGA? Somos todos Freitas

Paulo Freitas do Amaral, professor de história

Durante décadas, muitos recusaram a herança política de Diogo Freitas do Amaral.

Chamaram-lhe centrista com desdém, institucionalista com impaciência, democrata com desconfiança.

Mas as urnas falaram — e o mapa político do país revelou uma verdade incómoda e incontornável: toda a direita democrática portuguesa está hoje à esquerda do Chega.

Não se trata de uma interpretação, mas de um facto.

Todos os que respeitam o Estado de direito, a dignidade do adversário e a ética da responsabilidade estão, objetivamente, a milhas do populismo tóxico que cresce à sombra da frustração coletiva.

E é nesse exato ponto que o país se reencontra, talvez sem o saber, com a visão que Freitas do Amaral deixou como legado: a de uma direita civilizada, europeia, humanista, moderada — e profundamente democrática.

Ele foi muitas vezes atacado por estar entre dois mundos. Mas hoje, quem não grita, quem não odeia, quem não joga com o fogo da revolta, está precisamente onde ele sempre esteve. No centro. No espaço do diálogo. No terreno da construção.

Cinquenta anos depois da fundação da nossa democracia, o veredito da história impõe-se com ironia: se não votou Chega, se se indignou com o tom dos debates, se recusou o ódio como forma de ação política — parabéns.

Sem saber, está no campo da moderação. Está, talvez, mais próximo de Freitas do Amaral do que de qualquer outro nome que hoje se queira associar à direita.

Mas há uma herança que vale a pena sublinhar, porque é silenciosa e, no entanto, profunda: o maior legado de Freitas do Amaral foi ter civilizado a direita portuguesa e permitido, com isso, que a nossa democracia resistisse e se consolidasse durante mais de quarenta anos.

Ele fê-lo recusando o revanchismo, afastando o radicalismo e mostrando que era possível ser firme sem ser fanático, patriota sem ser reaccionário, e conservador sem deixar de ser democrático.

Esta pedagogia da convivência foi talvez o seu maior feito político — mais importante do que qualquer cargo, mais duradouro do que qualquer eleição.

Ao colocar a direita portuguesa dentro da moldura democrática europeia, ajudou a tornar possível aquilo que hoje tomamos por garantido: um regime em que os extremos foram, durante muito tempo, marginais.

Um país que aprendeu a discordar dentro de regras, com decência e com respeito.

Hoje, a tentação populista volta a assombrar o debate público.

E aqueles que sempre se viram como alternativa a esse ruído, acabam por perceber — com surpresa ou com alívio — que estão, afinal, mais próximos do centro do que pensavam.

Estão no campo da responsabilidade, da liberdade com justiça, do pluralismo sem ruído. Estão, sem saber, a caminhar onde Freitas já tinha estado.

Porque no fundo, mesmo sem o querer, agora somos todos Freitas.

Mesmo os que ainda não o admitem. E ainda bem.

*Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor

Para si... Sugerimos também...

Faça o seu comentário

Subscreva a nossa newsletter