60 anos de uma guerra por acabar

 60 anos de uma guerra por acabar

Combatentes na Guiné: imagem retirada de www.ensp.unl.pt

 Há 60 anos, Portugal acordava para a dura realidade da guerra. O velho país europeu, o primeiro a chegar a África, era o único que ainda tinha territórios ultramarinos. Depois das escaramuças de Fevereiro, era em Março que a UPA iniciava a terrível matança. Entre brancos e negros, estimam-se mais de 5000 vítimas só no primeiro mês de terror. Depois de Angola, a guerra alastraria à Guiné e a Moçambique.

     O regime Salazarista, imprescindível para salvar Portugal da malograda primeira república, está doente. Não percebeu os ventos de mudança saídos da II Guerra Mundial. Os novos blocos do poder disputam influências e Portugal tem muito território para dividir interesses. 

     “Para Angola rapidamente e em força” e “orgulhosamente sós” são as frases do regime. Milhares de jovens, de todos os territórios são chamados para a guerra. Os primeiros a tombar só regressam à terra natal se a trasladação for paga pela família até que um dia, uma humilde mãe pede a quem lhe levou o filho vivo para o trazer de volta, ainda que cadáver. As urnas começam a chegar à metrópole como regra. Muitos são, no entanto, os que ficam eternamente em terras africanas. São o preço da nossa História.

     Vem a revolução dos cravos e com ela a incerteza. Se os políticos em Lisboa dão poucas garantias, os movimentos de libertação nada garantem. Milhares de cidadãos de todas as províncias ultramarinas preferem a incerteza da Europa, muitos deles nunca tinham saído de África. Muitos ficam abandonados para trás entregues a si próprios e à sede de vingança dos seus “libertadores”. Só na Guiné, pelo PAIGC, são fuzilados centenas de cidadãos cujo único crime foi terem servido Portugal. 

     Os anos passam, os ódios entre os velhos inimigos vão- se desvanecendo. Importa, no entanto, não “mexer” no passado e ex-combatentes são assunto proibido qualquer que seja o seu paradeiro ou condição de vida. 30 anos passados da independência dos novos países, o Coronel Moura Calheiros resolve fazer o que ao Estado Português competia. Organiza uma expedição à Guiné para resgatar as ossadas dos militares que sob o seu comando para o cumprimento do dever ficaram para trás. Cumpre-se o lema da Companhia de Caçadores Paraquedistas 121, “ninguém fica para trás”. Chamam-lhe “a última missão”.

     2021 acorda e a “guerra” esquecida abre duas frentes inesperadas.

     Guiné Bissau.

     Umas dezenas de ex-combatentes das nossas forças armadas manifestam-se contra o abandono a que Portugal os “condenou”. Numa lição de civismo que envergonha qualquer homem, limpam as campas dos camaradas tombados e cobrem-nas com o nosso estandarte. Gritam com a força que a idade lhes permite, “-Nascemos Portugueses e até que a marcha do silencio se ouvir, Portugueses seremos”. As TV’s de Portugal silenciam a revolta, afinal têm 15 milhões de razões para manter o silencio da traição.

     Lisboa.

     Morre um soldado de Portugal. 

     Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, instituição que tem como principal missão promover a paz racial acende a “fogueira da inquisição”. Chama “criminoso de guerra” ao velho soldado. Mamadou Ba não é um qualquer cidadão. Acolhido por Portugal como um filho, revela-se pródigo. Revela-se ingrato com o povo que o acolheu de coração aberto e que tudo lhe deu. As palavras ferem o orgulho dos veteranos combatentes, brancos, negros ou amarelos. Ignora que Portugal, mais do que de raças, de cores de pele ou de religiões, faz-se da história que nos une há 5 séculos. Milhares de ex-combatentes trabalharam uma vida inteira e recebem uns trocos de reforma. Os “Mamadous” deste país são pagos a peso de ouro pela sua inutilidade. Evidentemente, acabam sempre pagos com o dinheiro de todos nós.

     Não, Mamadou Ba, não é um criminoso. Na verdade, não passa de um novo escravo, um escravo frustrado. É um novo “colonizado” às mãos dos “Vascos” de “Abril” inconformados com “Novembro”. Na verdade, são estes “democratas” que nunca conformados com os votos contados nas urnas criam marionetas desestabilizadoras. A “guerra subversiva” não se ficou afinal pelas imensidões de África.

     É verdade que foi a ditadura que levou os homens para a guerra, mas foi a democracia que abandonou os antigos combatentes. Foi a democracia que criou os novos escravos. 

João Paulo Marrocano

3 Comentários

  • A vergonha “do costume”!
    Penso que o nosso Min Negócios Estrangeiros poderia / deveria ter um “departamento” encarregado deste tipo de “memória colectiva”, promovendo, nas datas equivalentes, alguma mensagem recordatória, e com contribuições várias, de cidadãos a entidades.
    Cumprimentos,
    E. Oliveira, Lisboa

  • Fui combatente em Moçambique de janeiro 72 a março 74 em zona 100por cento Tete.Nos não perdemos a guerra os governantes apos 25 de Abril de 74 é que entregaram as nossas provincias ultramarinas a troco de nada,Sem que tirassem proveito do nnosso sacrificio,Quem acabou por tirar o proveito foi os russos e os Cubanos.Cumpri com o meu dever de cidadão Portugues ,Hoje sinto uma tristesa de não ser visto como um ex-combatente, assim com outros camaradas combatentes,,Mas digo em voz alta nós nunca perdia-mos a Guerra. Um desabafo dum ex-combatente, JOSE PINHEIRO DA SILVA.COMP, CAÇ,3500 DO BATALHAO 3875,

  • Excelente artigo sobre uma guerra inglória . A juventude de Portugal foi dizimada. O sofrimento foi atroz. Lamentavelmente os territórios que lutaram por ser independentes, sabemos hoje não estavam à altura de tão grande desígnio. Fazendo alusão sobre uma parte do artigo, os tais que ascenderam ao poder, assassinaram muitos dos seus concidadãos por ódio. Hoje são esses os interlocutores com Portugal ao mais alto nível. Há feridas que não saram, certamente dos dois lados. Esses países que adoptaram a língua de expressão portuguesa, lutaram tanto para ser independentes da Nação Portuguesa, foram imediatamente colonizados por outros países que os exploram mas que não deixam vinculo afectivo.Com Portugal por interesses de vária ordem nomeadamente ajudas sem retorno, não conseguem cortar o cordão umbilical. Quanto ao exemplo dum cidadão de nome Mamadou a quem Portugal acolheu, tem mantido em mordomia à custa do erário nacional, já deveria ter sido extraditado e ter-lhe sido retirada a nacionalidade portuguesa.Este é o exemplo daquilo que os portugueses não querem no seu seio. Não veio por bem, não pode ser bem recebido. Quanto à dádiva da nacionalidade deveria haver mais critério.

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