Sinfonias verdes por vales e cumes de férias saudáveis

Sinfonias verdes por vales e cumes de férias saudáveis

Começamos por dizer que em férias cá dentro é preciso olhar à volta, como fizemos, neste agosto. Tantas belezas nos pedem para as fixarmos e ouvirmos os seus mil silêncios e harmonias que nos dão mais sanidade. Do espaço interno do ser (S. Agostinho), nos dias de férias pelo Portugal profundo, os psts e alertas dos tons verdes não se calam.

Os verdes amarelos da luz do sol, verdes vivos da erva a crescer, o denso verde-escuro dos pinhais e o mortiço dos carvalhos centenários e o luminoso verde dos rebentos, à porfia, vibram sinfonias. A eles se juntam os verdes azulados das oliveiras e os verdes cinzentos das colinas e montanhas distantes, inclinadas a trepar pelas serras até ao azul celeste. Nos silvados ressoavam as manchas de dezenas de tons a gritar às aves e às outras cores que se calassem.

As contemplações dos tons verdes, em centenas de cenários, malgrado alguns incêndios, enchem de luz verde e fazem vibrar os bastonetes da retina e os sensores neuronais da serenidade. Podem constituir, no dizer da Santa Hildegarda, monja doutora da Igreja, no seu livro de medicina do século XII, uma cura de verde para os olhos irritados. Veja iniciação a esta “teóloga, naturalista, terapeuta, compositora, pregadora, musicista, poeta e dramaturga”, no sítio (25.08.2021).

Se à volta da orla marítima, Portugal é mar de azul imenso, pelo centro-norte é um ondular infindo de verdes semeados de pontinhos branco-vermelho-cinza de casas, igrejas e monumentos.

Iniciei na Ribeira do Alitém do rio Arunca (na grafia antiga da vida de João de Barros que aí casou, viveu alguns tempos e faleceu), onde estas películas de cinema natural de cenas verdejantes deram gozo e repouso aos dias de férias. Cenas que se prolongavam até às serras de Sicó e da Lousã. Só é pena que o grande historiador das Décadas e primeiro gramático do português, século XVI, seja desconhecido, nesta terra, onde as ruínas da que foi a sua quinta vão caindo e só a capelinha a Santo António das pinheiras que edificou para seu mausoléu seja romaria. Pelo norte, do Minho ao Douro, contempla-se aquela riqueza de cumes-santuários envoltos em densos verdes de matas vetustas, Viana, Bom Jesus, Sameiro, Penha de Guimarães, Senhora da Graça, Nossa Senhora da Assunção (Santo Tirso), Santa Quitéria (Felgueiras)…a convidar a um momento de prece. E ainda nos deleitam os vales verde-azulado-brancos dos rios Lima, Cávado, Ave, Tâmega, Douro, Paiva. As suas bordas convidam a extasiar-nos com marcos monumentais na formação lusa do nosso ser portugueses, desde há quase 900 anos.

Só a Rota de Cister elenca 38 mosteiros no país, não fosse S. Bernardo primo do pai de D. Afonso Henriques! Quem não pensa em Santa Maria do Bouro, Tibães, Vilar de Frades, S. Miguel (Cabeceiras de Basto)?…Alcobaça, Lorvão e Celas…Contemplam-se uns, em cenário de exteriores, outros pelo espaço interior. Dentre estes, tive a surpresa de uma visita guiada ao Mosteiro museu de Arouca, de que mal conhecia a sua igreja. Surpresa de grande marco cultural identitário do Portugal das monjas cistercienses de Santa Mafalda, bem conservado com um recheio museológico privado valiosíssimo, único no país, acautelado no século XIX com diligência sagaz, como o guia deixava entender. E ainda com uma história de desenvolvimento social de uma vasta região semeada hoje por verdes arvoredos a perder de vista.

A conservação de tanta monumentalidade lusa é um desafio para o país que somos. Esperemos que ao menos as restaurações, (Tibães, Tarouca, etc.) suplantem o furor da desconstrução e destruição, em nome de teorias justiceiras da moda wokista do “nós é que somos” em vez de “também somos filhos”. Em tempos de pandemia, a saúde de férias com verdes sinfonias agradece mesmo em idade noventona de mil parabéns recebidos.

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