Propaganda Russa descodificada por Anton Sklyarenko

 Propaganda Russa descodificada por Anton Sklyarenko

Vitório Rosário Cardoso, Membro da Comissão das Relações Internacionais do PPD/PSD

Que consequências para a Segurança Nacional de Portugal?

*Vitório Rosário Cardoso, Membro da Comissão das Relações Internacionais do PPD/PSD

O artigo «”Illusion of Truth” Virus», assinado por Anton Sklyarenko e publicado na revista International Courier, aborda de forma incisiva o fenómeno contemporâneo da manipulação informacional e a disseminação de narrativas falsas, frequentemente denominadas de “vírus” da verdade.

O autor ucraniano, especialista em assuntos de contra-inteligência e anti-subversão, explora como a ilusão da verdade, conceito amplamente estudado nas ciências cognitivas, não só permeia o discurso público a nível global, mas também representa um fator de risco concreto para a segurança nacional dos Estados modernos.

O que é o «Vírus da “Ilusão da Verdade”?

O «Vírus da “ilusão de verdade”» descreve a tendência humana para acreditar em informações repetidas, independentemente da sua veracidade.

Sklyarenko evidencia como este mecanismo, aliado à velocidade e amplitude das redes digitais, pode ser catalisador para campanhas de desinformação, minando a confiança nas instituições, polarizando, dividindo as sociedades.

Que implicações para a Segurança Nacional Portuguesa?

Sob a óptica da segurança nacional de Portugal, o artigo de Sklyarenko assume especial relevância.

O país, embora considerado seguro e estável, não está imune aos desafios globais da manipulação informacional.

O autor salienta que as campanhas de desinformação, muitas vezes orquestradas por atores estrangeiros ou grupos com interesses específicos, podem afetar a percepção pública, influenciar processos eleitorais e criar fissuras sociais ou até explorar vulnerabilidades e conflitos sociais.

Para Portugal, a proteção do espaço informacional é, assim, uma extensão natural da sua política de defesa.

O artigo sugere que uma abordagem robusta deve incluir:

  • Monitorização ativa de redes sociais e media digitais para identificar padrões de propagação de desinformação;
  • Promoção da literacia mediática junto da população, capacitando cidadãos para reconhecerem notícias falsas e conteúdos manipulados;
  • Reforço da cooperação internacional, especialmente ao nível europeu e transatlântico (NATO), para partilha de informação e estratégias de mitigação;
  • Desenvolvimento de legislação adequada que responsabilize os agentes de desinformação e proteja a integridade do espaço público.

A análise de Sklyarenko, mesmo ao focar em dinâmicas globais, é particularmente pertinente para Portugal no contexto actual.

O artigo serve de alerta para a necessidade de uma estratégia integrada, multidisciplinar e preventiva, capaz de responder a ameaças difusas, invisíveis e, muitas vezes, subestimadas pelas autoridades oficiais e sociedade civil.

Proteger a verdade e garantir a confiança pública tornam-se, assim, elementos fundamentais para a segurança nacional.

Num mundo onde a ilusão de verdade pode ser tão contagiosa quanto um vírus, o desafio das democracias liberais é o de imunizar as suas sociedades, não apenas com tecnologias e leis, mas sobretudo com pensamento crítico e resiliência colectiva, se quisermos preservar as nossas sociedades do mundo livre.


Cuidado com o vírus da “Ilusão da Verdade”!

*Por Anton Sklyarenko para revista “International Courier” (Artigo original traduzido «Beware the “Illusion of Truth” Virus! – Міжнародний кур’єр» de 05/09/2025)

Vamos começar por analisar o conceito de “ilusão da verdade”.

Ao repetir uma mentira – especialmente várias vezes – pode fazer com que as pessoas acabem por acreditar nela. Porquê? Porque o nosso cérebro, com o passar do tempo, começa a processar a repetição como uma forma de credibilidade.

Esse fenómeno psicológico é conhecido como o efeito da ilusão da verdade, no qual a exposição repetida a uma informação substitui a nossa percepção da sua precisão real.

Como é que isso funciona? 

Primeiro, há a familiarização: quando ouvimos algo repetidamente, começa a parecer familiar. E os humanos frequentemente associam a familiaridade com a verdade. 

Em seguida, ocorre a aceitação como verdade: o nosso cérebro prefere a facilidade cognitiva. Quanto mais fácil for processar uma afirmação, mais provável é que a percebamos como verdadeira. 

Depois, a repetição fortalece a codificação da memória: informações repetidas permanecem mais facilmente na nossa mente, tornando-se mais acessíveis e convincentes. 

Por fim, isso levará a uma mudança na percepção da realidade.

Em casos extremos, especialmente quando a pessoa que repete a falsidade também é sua a origem, ela pode começar a acreditar nas suas próprias mentiras.

A repetição, nesse caso, torna-se numa ferramenta de auto-engano e inicia-se a construção artificial de uma visão do mundo. 

Na era atual de confrontação global entre modelos democráticos e autoritários, a ilusão da verdade é uma arma poderosa – central nas estratégias de propaganda e desinformação.

Repetir os mesmos argumentos – até mesmo as mentiras mais descaradas – pode levar populações inteiras a aceitá-los como facto real. 

Essa é precisamente a arma utilizada pelo Kremlin na sua vasta máquina de propaganda.

O seu objetivo: confundir a percepção internacional e justificar a sua brutal agressão contra a Ucrânia – assassinatos em massa de civis, incluindo crianças e mulheres, e a destruição de cidades inteiras. 

O Kremlin depende de uma rede de veículos de comunicação fiéis – tanto nacionais quanto internacionais – para implantar as suas narrativas na mente do público.

Os meios de comunicação controlados pelo Estado russo e os “portadores da verdade” funcionam como câmaras de ressonância, propagando mentiras e distorções.

No entanto, em resposta à guerra de desinformação da Rússia, grande parte da comunidade internacional tem tomado medidas para bloquear ou sancionar essas plataformas.

No entanto, uma vez “absolvidos e abençoados” pelos seus mestres em Moscovo, muitos desses chamados jornalistas adoptam uma estratégia mais insidiosa: infiltram-se nos ecossistemas dos meios de comunicação social europeus.

Hoje, vozes pró-Kremlin actuam nos espaços de informação dos países da União Europeia, funcionando como “Cavalo de Tróia” que recicla regularmente o conteúdo dos meios de comunicação estatal russa, citando funcionários do Kremlin, manipulando factos e disseminando mentiras explícitas. 

Com base em análises e monitoramento contínuos, aqui estão alguns dos veículos de comunicação atualmente a funcionar como “altifalantes” da desinformação russa por toda a Europa: 

  • Portugal – AbrilAbril,
  • Eslováquia – Pravda, Jednotneslovensko, Infovojna, Hlavnydennik, Slovanskenoviny, Dennikvv;
  • Países Baixos – Frontnieuws; Moldávia – Md.kp.media, Evedomosti;
  • Bulgária – Pogled.info, Trud, Glasove, Epicenter;
  • Turquia – Aydinlik;
  • França – Ripostelaique, Reseau Іnternational;
  • Finlândia – Uusi MV-Lehti; Estôia – Baltnews/Baltija; Romênia – Cutiapandorei;
  • Alemanha – Jungewelt;
  • Polónia – Wolne Media, Niezależny Dziennik Polityczny;
  • Noruega – Steigan;
  • Itália – L’Antidiplomatico;
  • Espanha – Rebelion;
  • Hungria – Magyar Hírlap, Magyar Nemzet, Klubradio, Оrigo;
  • República Tcheca – Pravy Prostor, CZ24.News;
  • Suíça – NZZ, Uncutnews;
  • Croácia – Geopolitika, etc… 

Agora, alguns podem-me acusar de parcialidade ou de hostilidade em relação aos meios de comunicação social internacionais e às suas equipas editoriais.

Como costuma acontecer com os apologistas russos – embora eu hesite em chamá-los de colegas – essas acusações partem do que eu chamaria de “exportadores de DNA de bílis.”

«Pogled.info» (Bulgaria)

Fonte primária russa

Descrição: republicação (sem o link para a fonte primária) do jornal russo sancionado “Tsargrad TV”, que inclui narrativas de propaganda russa sobre a “missão existencial” da agressão militar russa na Ucrânia – confronto com todo o mundo ocidental.

«Baltnews/baltija.eu» (Estonia)

Rostislav ISHENKO

«Frontnieuws.com» (Netherlands)

Fonte primária russa

Descrição: o artigo (com referência ao meio de comunicação russo sancionado «Russia Today/RT») que difunde narrativas de propaganda russa sobre o “caos” político na Ucrânia.

«Uusi MV-Lehti» (Finland)

Russian primary source

«Cutiapandorei» (Romania)

ZELENSKYY – é o fantoche do Ocidente que pode sempre ser transformado em papagaio ou macaco treinado (V. MEDVEDCHUK) – 27.07.2025

Fontes primárias russas:

O que diz o “Espião de PUTIN” sobre ZELENSKYY passados ​​quase três anos da sua libertação graças à troca de prisioneiros.

MEDVEDCHUK afirmou que não acreditava na possibilidade de troca até ao último momento.

«Jednotneslovensko.info» (Slovakia):

Fonte primária russa

Descrição: O exército russo mantém a iniciativa no campo de batalha, conquista novos territórios e, passo a passo, desloca as Forças Armadas Ucranianas.

Ainda assim, permitam-me que termine com as palavras de um dos mais notórios propagandistas do Kremlin, Dmitry Kiselyov: “Coincidência? Não me parece.”

Assim, voltemos ao ponto de partida:

Cuidado com a “ilusão da verdade”!

Ucranianos denunciam propaganda russa em Portugal

Desde 2014 que o Presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, Pavlo Sadhoka, tem denunciado às autoridades nacionais a expansão da propaganda e acções encobertas russas no nosso país, e com ainda maior hostilidade russa, em intensidade e agressividade sobretudo detectadas desde 2022.

Na linha de pensamento da análise de Anton Sklyarenko, o Presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal e a sua equipa dissecaram e analisaram a página de propaganda russa “Abril Abril”.

Publica-se na íntegra a análise feita à página Abril Abril pela resistência ucraniana em Portugal liderada por Pavlo Sadhoka:

1. «O mundo já não será o que era»

A mensagem principal do artigo corresponde às declarações de Putin feitas nos meios de comunicação russos de que, a partir de agora, o mundo nunca mais será o mesmo desde o início da década de 1990, quando os Estados Unidos assumiram o controlo total do planeta.

O tema e a apresentação do artigo aproximam-se do discurso oficial russo, expresso, entre outras coisas, numa entrevista com o Presidente da Federação Russa: “V.V. Putin: A nossa posição aqui é extremamente clara.

A nova ordem mundial é um desenvolvimento estável e pacífico, sem crises e choques…”.

https://www.mid.ru/ru/foreign_policy/international_safety/1686280/

https://tass.ru/politika/12727959

Putin: o domínio ocidental nos assuntos mundiais está a dar lugar a um sistema mais diversificado

2. «Aquilo era o retrato do inferno»

“… em que Biden serviu como vice-presidente. Cargo em que desempenhou um papel fundamental no golpe de Maidan, de estilo nazi, na capital ucraniana, que abriu caminho para o massacre de cerca de 14 mil pessoas no Donbass entre 2014 e 2022 e a perda de pelo menos 500 mil vidas no confronto militar direto entre a Ucrânia e a Rússia que se seguiu.

O artigo destaca a atitude dos Estados Unidos e dos países ocidentais em relação à Revolução na Ucrânia. Na verdade, replica as posições expressas por figuras estatais russas.

https://portugal.mid.ru/ru/news/intervyu_ministra_inostrannykh_del_rossii_s_v_lavrova_portugalskomu_mediakholdingu_rtp/

“Trata-se do facto de V. A. Zelensky estar a cumprir ordens para destruir quaisquer manifestações da civilização russa no território do país onde não ele, mas os seus antecessores, os mesmos radicais e neonazis, foram autorizados a realizar um golpe de Estado com o objectivo principal: transformar a Ucrânia num instrumento de contenção e minar a segurança da Federação Russa, a eliminação de tudo o que é russo naquelas terras que foram dominadas pelos russos…

A reacção do Ocidente a uma operação militar especial (um passo absolutamente justo e insubstituível em defesa da nossa segurança e das pessoas que viveram durante séculos nestas terras, a quem o regime de Kiev decidiu deixar os direitos à sua língua, religião, cultura e valores) a ações repugnantes semelhantes dos neonazis que invadiram Kiev com o apoio dos Estados Unidos, libertaram o completo abuso por parte de Washington de todos os instrumentos que promoveu como parte dos mecanismos de funcionamento da economia mundial.

3. «Rússia tomará «medidas adicionais» se a NATO destacar tropas para a Ucrânia»

“Moscovo alertou que não ficará de braços cruzados no caso de a NATO enviar tropas para a Ucrânia, o que “levará a uma nova escalada de tensões perto das fronteiras” e “exigirá medidas adicionais da Rússia para garantir a sua segurança”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, aos jornalistas na sexta-feira.

São apresentadas as declarações dos representantes oficiais do Kremlin, nomeadamente o porta-voz Peskov, sobre a resposta adequada da Federação Russa através do apoio da NATO à Ucrânia. A estrutura da apresentação e as construções linguísticas são semelhantes às dos textos oficiais russos.

https://tass.ru/politika/11058013

MOSCOVO, 2 de abril. /TASS/. A Rússia tomará medidas adicionais para garantir a sua segurança em caso de um possível reforço do agrupamento de tropas da NATO em torno da Ucrânia. O anúncio foi feito aos jornalistas na sexta-feira pelo secretário de imprensa do presidente russo, Dmitry Peskov.

 4. “Brincar à paz num ritual de morte

“A Europa não é apenas masoquista em relação aos seus clientes norte-americanos, é suicida. São as pessoas que sofrem, não as classes políticas, até que a sua paciência se esgote e comece o inevitável ajuste de contas com o regime federalista e sociopata pan-europeu.”

O artigo retransmite as declarações do líder do Kremlin sobre o colapso económico e energético na Europa.

https://tass.ru/ekonomika/14648613

Putin classificou a política energética dos países da UE como um “suicídio económico”.

сфере

5. «Quando será a próxima invasão russa?» https://www.abrilabril.pt/internacional/quando-sera-proxima-invasao-russa

Passou mais uma data: 16 de fevereiro, data marcada por Biden, Johnson, von der Leyen e outros parceiros e aliados para a invasão russa da Ucrânia.

O artigo analisa a probabilidade de uma nova agressão russa contra países vizinhos (Ucrânia). O tema e os argumentos aproximam-se da retransmissão de narrativas russas. Apesar de o estilo do autor ser próprio, o tema e a construção dos argumentos estão em harmonia com as narrativas da propaganda russa.

https://www.rbc.ru/politics/16/02/2022/620c165e9a7947b5ed53bdae

“Um representante do Kremlin aconselhou, em tom de brincadeira, os residentes ucranianos a “ajustarem os seus alarmes para esta hora e verem por si próprios”.

Anteriormente, os tabloides britânicos noticiaram que a invasão poderia começar na noite de 15 para 16 de fevereiro.”

Conclusão: Os artigos acima no site: https://www.abrilabril.pt/ contêm citações directas de fontes de informação russas, citações de autoridades russas, repetição de teses dos media russos, os tópicos da publicação portuguesa ecoam de perto a retórica russa.

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