Opinião: Os muros que nós construímos

Opinião: Os muros que nós construímos
João Paulo Marrocano

Nunca tanto se falou de esquerda e direita como nos últimos tempos. Face ao avolumar de problemas estruturais e á tentativa de impor de ideias por parte de algumas minorias com agendas e interesses próprios, o mundo no geral e Portugal em particular, tem enveredado por um extremar de posições políticas. Na verdade, a origem de definição de esquerda e direita não é consensual. Para uns tem origem nos primórdios do parlamento Britânico, para outros a definição é bem mais antiga e reflete o facto de no Hemisfério Norte todas as cidades desenvolvidas se situarem na margem direita dos rios. Tal como as margens do lado direito dos rios são mais prosperas e desenvolvidas, em contraste com as margens esquerdas mais pobres, também em política temos sempre associados os partidos de direita à prosperidade e desenvolvimento em contraste com os partidos ditos de esquerda mais associados à pobreza.

Assim, cedo nos habituámos a ver nos países nórdicos exemplos de países de direita e nos países mediterrânicos países mais à esquerda. No continente Americano essa divisão é ainda mais acentuada na divisão que agrega de um lado EUA e Canadá e do outro lado do “muro” todo o restante continente. Portugal, não escapa ele próprio a essa divisão, o Norte mais desenvolvido e industrializado contrasta com o Sul mais pobre. Se olharmos atentamente para a prosperidade verificada por região e para o mapa das preferências políticas, obtemos uma matriz esclarecedora.

Por cá, essa discussão mais acérrima de “esquerda e direita” teve o seu ponto alto na sequência de um acordo parlamentar entre os partidos ditos de esquerda que impediram Pedro Passos Coelho de formar governo, mesmo tendo ganho as eleições e que juntos conseguiram formar a solução que haveria de ficar conhecida como “geringonça”. “O PS não precisa da direita, nunca mais, para governar. É uma vitória muito importante”. Foram estas declarações proferidas por Pedro Nuno Santos aliadas à arrogância de António Costa que agora o impediu de procurar uma solução junto dos partidos mais à direita para fazer aprovar o orçamento de estado para 2022.

Por vezes essa divisão e intolerância ideológica atingiu tal proporção que a divisão passou a um nível físico com a construção de muros reais. No rescaldo da II Guerra Mundial, a Alemanha de Leste construiu um muro na sua fronteira para impedir a fuga dos seus próprios cidadãos para a “outra” Alemanha, ficaria conhecido como “muro de Berlim”. Também Cuba mantem há décadas o seu povo refém dentro das suas próprias fronteiras naturais de onde só clandestinamente é possível sair. Em sentido contrário, assistimos a um debate mundial sobre a construção de um muro na fronteira entre os EUA e México para impedir a entrada descontrolada de milhares de deslocados dos países pobres da América Latina. Atualmente a construção do muro físico encontra-se suspensa, ainda assim as fronteiras continuam fechadas.

Na realidade, todos os países constroem muros ou dificuldades burocráticas mais ou menos intransponíveis, os países politicamente mais à esquerda para impedir os seus cidadãos de fugir ao controle dos seus regimes, os países mais à direita para impedir a entrada descontrolada de imigrantes em busca de melhores condições de vida.

Em democracia, cada um dos nossos votos é uma “pedra” na construção desses “muros”. Depende de nós decidir se queremos construir um “muro” que nos restringe e aprisiona a liberdade ou um “muro” que nos protege enquanto sociedade livre, democrática, e com capacidade de decidir por si só o seu próprio destino. Em democracia, cada vez que nos abstemos de votar, deixamos nas mãos de outros a construção que a nós pertence.

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