Opinião: Equinócio das censuras modernas

Opinião: Equinócio das censuras modernas
João Paulo Marrocano

O passado dia 24 de Março, apresentou-se como uma espécie de equinócio da democracia. Depois de 17499 dias de um longo inverno ditatorial, celebrámos 17500 dias de liberdade. Foi este o dia escolhido para o arranque oficial do quinquagésimo aniversario do 25 de Abril de 1974.

Infelizmente, parece que vamos ter uma cerimónia inquinada à nascença. É bom recordar que para preparar uma cerimónia que se quer digna dos ideais que a suportam, foi nomeado comissário executivo Pedro Adão e Silva. A Ramalho Eanes caberia a honra de encabeçar um painel de individualidades com papel importante na revolução. Ramalho Eanes acaba por abandonar a comissão depois da polémica levantada em torno do injustificado alto vencimento atribuído a Adão e Silva e sua perpetuação temporal. São também apontadas razões de divergências com Vasco Lourenço, um dos capitães de Abril. Perante a polémica, Marcelo Rebelo de Sousa chama a si a responsabilidade pelas cerimónias e Pedro Adão e Silva acaba promovido a ministro da Cultura.

O recém-empossado ministro estreia-se com uma polémica entrevista que deve merecer de cada um de nós o maior repúdio. Questionado sobre a indissociabilidade entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, respondeu que o foco das comemorações deve ser sobre o que “une” os portugueses, e isso exclui, segundo o ministro, o 25 de Novembro. Reconhece, portanto, o Sr. ministro que os Portugueses se dividem em dois, de em lado os que são democratas livres e do outro, os que se consideram donos da liberdade, da sua liberdade.

Não, comemorar a democracia não pode ser isto. Sim, este é tempo de explicar ás gerações mais jovens que entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro, tivemos um 11 de Março. Sim, este é o tempo de explicar às gerações mais jovens que de facto devemos, e muito, a alguns militares que ousaram fazer a revolução de forma completamente abnegada, mas também é tempo de assumir que na verdade alguns deles apenas quiseram trocar uma ditadura por outra. Sim, é ao 25 de Abril que devemos a abertura do caminho da democracia, mas foi o 25 de Novembro que nos abriu a porta da liberdade. Aos que acham que estou errado na minha observação, recomendo a leitura atenta do Diário de Notícias do dia 28 de Setembro de 1974.

É certo que uma grande parte da população portuguesa já nasceu e cresceu depois da queda da ditadura, mas numa altura em que a Rússia faz questão de nos lembrar que a liberdade não é um bem irrevogável nem um direito absoluto, talvez seja importante que as comemorações não se esgotem no momento em que os instrumentos musicais regressem às caixas forradas a veludo e os discursos de circunstância sejam arrumados numa gaveta de recordações.

É este o tempo de olhar para o nosso passado recente sem medos nem fantasmas. É este o tempo de encarar a verdade tal como ela foi e não como tanta vez nos querem fazer acreditar que ela foi. É este o tempo de dizer aos que ano após ano aparecem de cravo na lapela como donos da liberdade que a liberdade não tem dono, a liberdade é livre, livre de amarras e de falsas profecias. É este o tempo de cumprir um dos mais nobres desígnios da humanidade, ser livre de pensamento, estimular o Homem a pensar e ensinar a respeitar o pensamento dos outros.

Um povo culto e de pensamento livre é provavelmente o maior pesadelo de uma classe política medíocre. Talvez seja na verdade esse o grande medo do ministro da cultura e de muitos daqueles que de facto não conseguem disfarçar a sua tez vermelha e desejavam que o caminho de Abril tivesse parado no dia 11 de Março.

Sermos livres tem um preço a pagar, o preço de mantermos a vigilância permanente a quem escolhemos para guiar os nossos destinos coletivos. Não devemos esquecer, nunca, que se a ditadura usava um grosso lápis azul para “educar” o que às massas estava vedado, a democracia usa tanta vez a fina e subtil borracha da omissão para nos manter dentro da cerca dos interesses que tanta vez dominam as democracias.

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1 Comentário

  • Equinócio das censuras modernas

    Artigo muito lúcido, pertinente e elegante.
    Obrigada e parabéns
    Susana Mexia

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