Opinião: De Putin e de louco todos temos um pouco

Opinião: De Putin e de louco todos temos um pouco
João Paulo Marrocano

A guerra, fértil campo onde a mentira semeia o engano, leva já 30 dias de germinação nas planícies Ucranianas. Os motivos e pretextos que levaram ao desencadear do conflito são muitos e a interpretação dos mesmos será sempre variável consoante o interesse de cada um. Provavelmente este confronto mais não é do que a soma de uma visão lunática de um ditador com um ego mal resolvido pelo fim da guerra fria.

Mas, por muito que tentemos entender este hediondo ataque da Rússia a outro Estado Soberano, de pouco nos serve agora tal exercício. De que nos serve o passado se a humanidade tem memória curta e não aprende com a história?

A velha Europa, onde sobra de políticos o que falta em estadistas, parece que acordou de um pesadelo próprio de uma infindável letargia. Violentamente sacudida por um Volodymyr Zelensky que tem galvanizado um povo ávido de liberdade e memória mais longa que a nossa, apressou-se, e bem, nas reacções. Mas não haja ilusões, esta Europa que aplica agora sanções à Rússia, é a mesma que as aplicou em 2014 aquando da anexação da Crimeia, mas que em 2018 se juntava a Putin para assistir a um jogo de futebol num camarote presidencial. Que resposta damos nós aos que trocam a dignidade do povo ucraniano pelo conforto da sua casa aquecida com gás Russo?

E em Portugal? De que nos serve olhar para Putin como único culpado se ficámos em silêncio quando vimos um primeiro ministro a passear-se na Baixa Pombalina com um Muammar-Kadhafi? De que nos serve chamar ditador sanguinário a Putin e ignorámos que tivemos um vice-primeiro ministro a negociar com um Nicolás Maduro? E que dissemos nós quando tivemos um presidente da república que correu sedento por uma selfie com um quase defunto Fidel Castro?

Há alguma diferença entre ditadores? Não, nós é que na nossa irracionalidade própria dos racionais achamos que sim, consoante eles sejam ou não, benéficos no nosso instinto de sobrevivência, condição primária da nossa condição animal.

Olhar o passado é tempo perdido numa sociedade de memória curta, importa por isso olhar o futuro, na esperança de soluções. E é do continente Africano, que tanta vez mais não foi que uma baioneta na ponta das espingardas de um mundo em permanente convulsão, que nos chegam palavras de humanidade e esperança. É deste continente que nos chegam hoje vozes lucidas, com olhos postos no futuro e consciências sem remorsos do passado.

“O Quênia e quase todos os países africanos nasceram com o fim do império. Nossas fronteiras não eram de nosso próprio desenho. Elas foram desenhadas nas distantes metrópoles coloniais de Londres, Paris e Lisboa, sem se importar com as nações antigas que ficaram separadas. Hoje, além da fronteira de cada país africano, vivem nossos compatriotas com quem compartilhamos profundos laços históricos, culturais e linguísticos. Na independência, se tivéssemos escolhido perseguir Estados com base na homogeneidade étnica, racial ou religiosa, ainda estaríamos travando guerras sangrentas muitas décadas depois. Em vez disso, concordamos em nos contentar com as fronteiras que herdamos, mas ainda buscaríamos a integração política, econômica e legal do continente. Em vez de formar nações que sempre olharam para trás na história com um saudosismo perigoso, escolhemos esperar uma grandeza que nenhuma de nossas muitas nações e povos jamais conheceu.”

Discurso de Martin Kimani, embaixador do Quénia na ONU proferido no passado dia 26/02/2022

Não sabemos como nem quando acabará a guerra. Não sabemos se as vítimas poderão ser contabilizadas individualmente ou alcançarão o negro estatuto de mera estatística.

Sabemos sim que a cada um de nós, em cada instante, compete trabalhar para um mundo melhor, mais justo e mais digno. Compete-nos também estar atentos e vigilantes na defesa dos valores da liberdade. Desviar a atenção deste foco é vender a nossa própria dignidade por 30 moedas de prata.

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