O quê?!… Esta é a Bíblia do Papa?!….

O quê?!… Esta é a Bíblia do Papa?!….

Mas será mesmo causa de reparo?!… Pois, pois, para que isso fique esclarecido e ninguém fique com dúvidas, hoje, mui respeitosamente, com todas as vénias e cortesias, vou solicitar a sua Santidade o favor de se explicar perante os meus amigos leitores. Embora todos os dias o sejam, ou devam ser, aproxima-se o dia por excelência da Bíblia. Isto é, em cada ano e por iniciativa do Papa Francisco, o III Domingo do tempo comum é o “Dia da Palavra de Deus”. A propósito, e porque não devemos esquecer a sua divulgação, recordo também, a todos, a Bíblia Youcat para os jovens. Faz parte da Coleção Youcat, é notável pela sua apresentação, pela síntese que faz, pelos testemunhos que deixa, pela equipa de peritos internacionais que a elaborou. Pois é aí, no Prefácio dessa Bíblia, que o Santo Padre se explica e nos deixa um belo testemunho sobre  a sua relação com a Bíblia. Eis o texto, um estímulo e um apelo, para os jovens e menos jovens:

“Meus queridos jovens amigos,

Se vocês vissem a minha Bíblia, talvez não ficassem muito impressionados. Diriam: “O quê? Esta é a Bíblia do Papa? Que livro tão velho e usado!”. Poderiam também oferecer-me uma nova, talvez uma que custasse 1000 euros, mas eu não gostaria dela. Amo a minha velha Bíblia, aquela que me acompanhou durante metade da vida. Viu as minhas alegrias, foi banhada pelas minhas lágrimas: é o meu inestimável tesouro. Vivo dela e por nada do mundo me desfaço dela.

A Bíblia para os jovens, que acabaram de abrir, agrada-me muito: é tão viva, tão rica em testemunhos de santos, de jovens, que dá vontade de a ler de uma só vez, desde a primeira até à última página. E depois? Depois escondem-na, fazem-na desaparecer numa prateleira de uma biblioteca, quem sabe atrás, na terceira fila, onde acaba por acumular pó. Até ao dia em que os vossos filhos a venderão numa feira de velharias. Não, isto não pode acontecer!

Quero dizer-vos uma coisa: na atualidade, mais do que no início da Igreja, os cristãos são perseguidos; por que razão? São perseguidos porque usam uma cruz e dão testemunho de Cristo; são condenados porque têm uma Bíblia. Então, a Bíblia é um livro extremamente perigoso, de tal forma que em certos países quem possui uma Bíblia é tratado como se escondesse granadas no armário! Mahatma Gandhi, que não era cristão, uma vez referiu: “A vocês cristãos é confiado um texto que tem em si uma quantidade de dinamite suficiente para fazer explodir em mil pedaços a civilização inteira, para colocar de cabeça para baixo o mundo e levar a paz a um planeta devastado pela guerra. Porém, tratam-no como se fosse simplesmente uma obra literária, nada mais do que isso”.

O que é que vocês têm, então, nas mãos? Uma obra-prima literária? Uma seleção de antigas e belas histórias? Neste caso, seria necessário dizer aos muitos cristãos que se deixam aprisionar e torturar pela Bíblia: “Vocês são realmente tolos e pouco sábios: é somente uma obra literária!”. Não, com a Palavra de Deus, a luz veio ao mundo e nunca mais se apagou. Na minha Exortação Apostólica Evangelii gaudium (n.º 175) escrevi: “nós não procuramos Deus tateando, nem precisamos de esperar que Ele nos dirija a palavra, porque realmente “Deus falou, já não é o grande desconhecido, mas mostrou-Se a Si mesmo”. Acolhamos o tesouro sublime da Palavra revelada!”

Portanto, vocês têm nas mãos algo de divino: um livro como fogo, um livro no qual Deus fala. Por isso, recordem-se: a Bíblia não é feita para ser colocada numa prateleira, mas para ser levada na mão, para ser lida frequentemente, a cada dia, quer sozinho, quer acompanhado. De facto, vocês praticam desporto em grupo, vão ao centro comercial acompanhados; porque não ler juntos, em grupos de dois, três ou quatro, a Bíblia? Talvez ao ar livre, imersos na natureza, no bosque, á beira-mar, de noite à luz das velas… fariam uma experiência forte e envolvente. Ou talvez tenham medo de parecer ridículos diante dos outros?

Leiam com atenção. Não permaneçam à superfície, como se faz com histórias de banda desenhada! A Palavra de Deus não pode ser lida com “uma vista de olhos”! Antes, perguntem-se: “O que diz este texto ao meu coração? Deus fala-me através desta palavra? É possível que suscite anseios, a minha sede profunda? O que devo fazer?”. Somente desta forma a Palavra de Deus poderá mostrar toda a sua força; somente assim a nossa vida se poderá transformar, tornando-se plena e bela.

Quero confidenciar-vos como leio a minha Bíblia. Pego nela frequentemente, leio um pouco, depois coloco-a de lado e deixo que o Senhor olhe parta mim. Não sou eu que olho para Ele, mas é Ele que olha para mim: Deus está realmente ali, presente. Assim que me deixo observar por Ele e escuto – e não é certo sentimentalismo -, percebo no mais profundo do meu ser aquilo que o Senhor me diz. Às vezes não fala: então não ouço nada, somente vazio, vazio, vazio… Mas, paciente, permaneço lá e espero por Ele, lendo e rezando. Rezo sentado, porque me faz mal ficar de joelhos. Por vezes, quando estou a rezar, chego até a adormecer, mas não há problema: sou como um filho próximo do seu pai, e isto é o que interessa.

Querem fazer-me feliz? Leiam a Bíblia!

Vosso, Papa Francisco”.

Reitero a sugestão que aqui deixei na semana passada: que cada família, como pequenina Igreja doméstica e primeira escola de fé e oração, no Dia da Palavra de Deus, destaque, lá em casa, em local nobre, a Sagrada Escritura, podendo continuar aí pelo tempo fora, como sinal e presença. Sendo o Evangelho de São Marcos o Evangelho deste ano litúrgico, sugiro, agora e ao longo do ano, a leitura do seu Evangelho. E que bom seria se, de cada um de nós, se pudesse dizer o que Santo Atanásio diz de Santo Antão: ao ler a Sagrada Escritura, nada lhe esquecia, “tudo retinha de tal maneira que a sua memória acabou por substituir o livro”.

No site da Diocese poderá encontra uma sugestão que o Secretariado da Pastoral preparou para uma celebração da Palavra em família. Basta carregar neste link:

Antonino Dias, Bispo de Portalegre-Castelo Branco, 22-01-2021

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