Nova Portaria pode excluir media regionais dos fundos europeus
Nova Portaria pode excluir media regionais dos fundos europeus

APMEDIO alerta: nova Portaria pode excluir media regionais dos fundos europeus
A APMEDIO – Associação Portuguesa dos Media Digitais Online lançou um alerta dirigido a todos os órgãos de comunicação social regionais e locais portugueses.
Em causa está a Portaria n.º 263‑B/2026/1, de 15 de junho, que define o regime de publicidade institucional relativo a projetos financiados pelos Fundos Europeus.
À primeira vista, a medida poderia representar uma oportunidade para o setor. Contudo, uma análise detalhada revela um cenário muito diferente.
Um critério que poderá excluir a maioria dos media regionais
A elegibilidade dos órgãos de comunicação social depende dos critérios previstos na alínea a) do n.º 1 do artigo 4.º do Decreto‑Lei n.º 98/2007.
Este diploma exige que as entidades proprietárias ou editoras tenham:
- pelo menos cinco profissionais com contrato de trabalho,
- três jornalistas com carteira profissional,
- tiragem mínima de 5000 exemplares por edição, quando a periodicidade é igual ou inferior à trissemanal.
A pergunta impõe‑se: quantos órgãos de comunicação social regionais e locais cumprem estes requisitos em 2026?
Segundo a APMEDIO, a resposta é simples: muito poucos.
Na prática, estes critérios poderão afastar jornais regionais, rádios locais, publicações digitais e outros meios de proximidade que garantem diariamente o direito das populações à informação local.
Critérios desajustados da realidade atual
O diploma que serve de base à Portaria foi publicado em 2007, num contexto económico e tecnológico completamente diferente.
Desde então, o setor transformou‑se profundamente:
- novos modelos de negócio,
- digitalização acelerada,
- mudanças nos hábitos de consumo de informação,
- reorganização das redações para sobreviver num mercado exigente.
Apesar disso, continuam a aplicar‑se critérios que dependem da dimensão empresarial, ignorando a evolução do setor.
A qualidade do jornalismo não depende do número de trabalhadores
Para a APMEDIO, este princípio é errado.
A qualidade e a responsabilidade editorial devem ser avaliadas através de elementos como:
- registo na ERC,
- existência de Estatuto Editorial,
- designação de Diretor de Informação,
- cumprimento das leis da comunicação social,
- respeito pelo Estatuto do Jornalista e pelas normas deontológicas.
São estes fatores que garantem rigor e credibilidade — não o número de trabalhadores contratados.
Uma situação que não é isolada
Nos últimos anos, várias medidas públicas foram apresentadas como apoio à comunicação social.
Contudo, em muitos casos, os critérios acabaram por beneficiar sobretudo operadores de maior dimensão, deixando de fora uma parte significativa dos meios regionais e locais.
A nova Portaria segue a mesma lógica.
O silêncio não pode ser a resposta
A APMEDIO considera surpreendente o reduzido debate público sobre esta alteração legislativa.
Enquanto se multiplicam conferências e grupos de trabalho sobre o futuro da comunicação social, foi publicada uma Portaria que poderá excluir precisamente os meios que mais necessitam de apoio.
Até ao momento, a associação afirma não conhecer qualquer posição pública de outras entidades representativas do setor.
A comunicação social regional e local merece ser ouvida
Os meios regionais e locais não pedem privilégios.
Pedem apenas que as políticas públicas reflitam a realidade de 2026, e não critérios definidos há quase vinte anos.
Não é aceitável que regras desatualizadas determinem quem pode participar em regimes financiados por recursos da União Europeia.
Um apelo à mobilização do setor
A APMEDIO apela a todos os diretores e responsáveis editoriais para que analisem a Portaria e avaliem os seus impactos.
A defesa da comunicação social regional e local exige participação, debate e união.
A associação compromete‑se a continuar a desenvolver iniciativas junto do Governo, Assembleia da República, Presidente da República e instituições europeias, defendendo uma revisão urgente dos critérios.
E deixa um convite: que todos os órgãos de comunicação social regionais e locais se juntem a esta causa comum.
*António Guedes Tavares, Presidente da Direção
