Não Se Deixe Abater

 Não Se Deixe Abater
Maria Helena Paes

Há momentos na nossa vida que são extremamente complicados. Sobretudo quando sentimos um ou mais desgostos anunciados que se encontram latentes sobre nós com um prazo indeterminado. Difícil, mesmo, é não nos deixarmos abater. Passo a contextualizar. Na sequência do falecimento de uma grande amiga, a Manuela, quando me encontrava ainda a fazer o luto, sou surpreendida com a notícia de que uma criança pela qual nutria um particular carinho, tendo sido deixada pelos pais num hospital, recolhida posteriormente por uma instituição de solidariedade social, tendo passado este Natal em minha casa, encontrava-se em fase terminal. Que desgosto enorme! Mal refeita da notícia, recebo um telefonema dando-me conhecimento de que a minha madrinha, freira franciscana, também se encontrava em fase terminal. Sinto-me como um barco à deriva, no meio de uma grande tempestade, em tempos de pandemia SARS-COV-2. Tudo se torna mais difícil. Não se pode visitar o menino nem a madrinha. Tanto que fica por dizer e fazer! Como posso ajudar? Um olhar amigo ao tomar conhecimento das notícias, referiu algo que me ajudou, que me deu força: “Não se deixe abater!” Jesus está presente, atento, ainda que pareça que a minha barca se encontra à deriva. É a cruz enquanto âncora segura a caminho da salvação. A fé certamente irá gerar resistência e resiliência às tempestades que se avizinham. Ainda assim, tudo vai passar sobre mim, tenho de encontrar força para superar um dia de cada vez as cruzes que se aproximam.

E chegou a primeira cruz. A partida para a Casa do Pai do menino, a sua missa em que todos nos despedimos com muito amor e carinho por este anjinho, o Francisquinho, que agora nos deixava precocemente, não tendo sido possível, por motivos óbvios, despedirmo-nos fisicamente. À distância, também, devido à pandemia, comecei a acompanhar a doença terminal da minha madrinha, irmã Maria Gilda, com muita pena minha. E um dia partiu serenamente. Nem sequer me foi possível ir ao funeral. Triste, sabendo que já se encontrava no Paraíso, e que seria uma grande intercessora no Céu, mandei celebrar uma missa, o que me ajudou imenso. Durante a mesma veio-me ao pensamento de que ainda não tinha celebrado a missa por alma da minha grande amiga Manuela, isto porque andava à procura do sacerdote que a tinha acompanhado, ministrado a Unção dos Doentes e acompanhado no funeral.

No dia seguinte, quando fui à missa, constatei que o sacerdote que a celebrava, era o Pe. Gonçalo que tinha acompanhado a Manuela. Seria certamente a primeira graça recebida da minha madrinha e a certeza de que já se encontrava no Céu. Os meus filhos, neta e nora participaram igualmente na mesma. Por ironia do destino, teve lugar num Convento com a presença de inúmeras irmãs. Senti igualmente a presença da minha madrinha. Cumpria-se uma semana do seu falecimento. Na verdade, Deus escreve direito por linhas tortas. Podia começar agora o verdadeiro luto pela Manuela, com algum alívio devo confessar, aceitando os acontecimentos enfrentados devido à pandemia Covid-19, rezando e celebrando uma primeira missa após a sua partida. No Céu teria ficado feliz por nos ver todos juntos a rezar por ela. Resta a saudade de todos os que partiram. Cada um, ao seu modo, trouxe alegria, felicidade, carinho, acompanhado também por dor e sofrimento. É a vida a passar! Este aparente silêncio de Deus fez-me recordar a impressionante homília do Papa Francisco, na Praça de São Pedro, quando a atravessou só. “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda a velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos num mar agitado, imploramos-Te: “Acorda, Senhor!” Concluo este artigo com uma frase de S. Josemaria no seu livro Sulco, ponto 66: “É verdade, não valemos nada, não somos nada, não podemos nada, não temos nada. E simultaneamente, no meio da luta quotidiana, não faltam os obstáculos, as tentações… Mas a alegria dos teus irmãos dissipará todas as dificuldades, logo que te reunires com eles, porque os verás firmemente apoiados n’Ele: “quia Tu es Deus fortitudo mea” -, porque Tu és, Senhor, a nossa fortaleza”.

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