Não convém acabar de iniciar

Não convém acabar de iniciar
Dom Antonino Dias

A vida vai-se construindo com rotinas sem que deva ser rotineira ou macambúzia. Desde o levantar ao deitar, cada um, nas suas próprias circunstâncias, cumpre os seus ritos habituais, procurando reagir a um certo rame-rame que estupidifica e alabrega. Cada novo dia desafia-nos a viver de cara lavada e com entusiasmo contagiante, com gosto e alegria agradecida, com competência criativa e fidalguia no trato, com atitudes de sentinela vigilante e de arautos destemidos à semelhança dos profetas bíblicos que não tinham medo de fazer acordar para a verdade aqueles que dormiam sossegados na injustiça e na indiferença humilhante. Avaliar o desempenho neste palco da vida onde cada um, com mais ou menos maquiagem e mestria, vai encenando como deve ou quer, como pode ou sabe, faz-nos aprender mais com a consciência dos próprios limites do que com o reconhecimento das capacidades. Admitir os limites torna-nos humildes, coloca-nos a caminho, faz-nos contar com os outros, faz com que nos vamos superando, com que percebamos que, se por aqui não vamos, há que rasgar novas estradas, pois, quem não arrisca, arrisca muito mais… Extasiar-se com as capacidades pode provocar o sentimento de autossuficiência, de poder, de domínio, de superioridade, de acomodação egoísta, de exceção sem igual. E em que é que alguém é mais do que os outros? O que é que alguém possui que não tenha recebido? E se o recebeu, porque se orgulha como se assim não fosse? (cf. 1Cor 4,7) .

Há uma sabedoria que, mais do que as teorias e os saberes, sabe indicar os caminhos da vida. Não aquela sabedoria – aliás, sempre boa e importante! -, que se obtém pela experiência, pelo estudo e conhecimento, mas aquela outra muito mais necessária que brota como dom gratuito quando entramos em nós mesmos e falamos com Aquele que está no segredo: “Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa”(Mt 6,6).

Hoje fala-se muito em discernimento, e bem, é preciso discernir, saber discernir. Ao longo dos tempos, tem havido muita investigação, muitos estudos e publicações sobre o discernimento e a sua importância. Acredito que também terá havido muita dor de cabeça, muitos erros e acertos, na sua aplicação concreta quer sobre o própria pessoa quer sobre os outros. O Papa Francisco não se cansa de falar na necessidade do discernimento. O Sínodo da Família de 2014-2015 falou imensamente da necessidade do discernimento, dedicando até, no seu Documento Conclusivo, um capitulo sobre “acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”. O Sínodo de 2018 teve como tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

Mas, o que é discernir e quais são os verdadeiros critérios para que realmente seja discernimento? Esse é que é o busílis! Mas indo à origem latina, o verbo ‘discernere’ é composto por ‘cernere’ precedido de ‘dis’. ‘Cenere’ significa ver claro, separar, distinguir, avaliar, ajuizar, escolher o que convém, se se deve ou não fazer isto ou aquilo, agora, mais logo ou nunca. O ‘dis’ acrescenta que esse ver claro acontece ‘entre’ várias coisas ou possibilidades. No âmbito da fé, o discernimento espiritual acaba por ser uma virtude, um caminho, uma ação da graça. Não é uma atitude que brota da vontade meramente humana, é um dom do Dom do Espírito Santo. Por ele, a pessoa, nas várias circunstâncias da vida, ainda que difíceis, é levada a ter prioridades, a escolher, a decidir, a optar por aquilo que, em consciência, acha ser o melhor, mesmo que se tenha de renunciar e deixar para trás tantas outras coisas boas e caminhos diferentes. É assim que se procura afinar e agir em conformidade com a vontade de Deus que nem sempre sintoniza com a nossa. O que nos parece mais evidente, mais fácil e cómodo nem sempre é o que nos convém. É por isso que neste processo de discernimento são imprescindíveis a responsabilidade pessoal, a oração e a escuta da Palavra de Deus que se faz ouvir no silêncio, na comunidade, nos outros, nos acontecimentos da vida e da história. Deus não é um desmancha prazeres, nunca se impõe nem deseja telecomandar seja quem for, não faz de nós um títere ou uma marionete. Ele deseja o bem de todos e de cada um, em liberdade responsável. Por isso, apenas sugere, propõe, toca no ombro, desafia, responsabiliza na condução da vida pelas estradas do mundo e oferece-se como amigo e companheiro de viagem, aprendendo d’Ele que é manso e humilde de coração (cf. Mt 11, 29-30).

Como, em tempos, nos recordava o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, São João Clímaco, dentro da tradição cristã, dá-nos uma boa definição do discernimento. Dizia ele: “O discernimento, nos principiantes, é um sobreconhecimento autêntico de si próprio; naqueles que estão a metade do caminho, é um sentido espiritual que distingue infalivelmente o bem autêntico do natural e do seu contrário; nas pessoas espiritualmente amadurecias, é uma ciência infundida por divina iluminação, que é capaz de iluminar com o próprio lume aquilo que nos outros permanece coberto pelas trevas. Talvez, mais em geral, define-se e é discernimento a compreensão segura da vontade de Deus em cada tempo, lugar e circunstância, que está presente só em quem é puro no coração, no corpo e na palavra (…). O discernimento  é uma consciência imaculada e uma sensibilidade pura (…)”.

No seu livro “A Arte de recomeçar” (Editorial A.O, 2021, págs. 30-31), Fabio Rosini entende por discernimento “aquela dinâmica que guia interiormente a pessoa que vive diante de Deus, tal como Jesus está diante do Pai. É a orientação profunda do ser. Não é uma escolha isolada, mas subsiste em todas as escolhas. Revela-se nas escolhas, mas não consiste nas escolhas em si mesmas (…) não é uma habilidade. É uma identidade redimida posta em ação, é a relação dos filhos com o Pai que se torna sensibilidade, olhar apurado, olhar afinado”.

O bom discernimento nunca nos deixa acabar de iniciar, não permite que se deixe esmorecer o entusiasmo da primeira hora!

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