Não basta pensar e falar bem

 Não basta pensar e falar bem

Ser aos pedaços

Os investigadores de ciências humanas continuam a cunhar rótulos descritivos dos comportamentos problemáticos: disfuncionais, desviantes, aditivos, obsessivos, destrutivos, psicopatas.

Hoje seria de pôr nas listas: os corruptos, traficantes de pessoas e extremistas disto e daquilo.

Os rótulos acabam por estigmatizar as pessoas a quem se aplicam, e, pior ainda, rebaixam a sua dignidade que os próprios, por vezes, também já não se respeitam.

Torna-se inevitável o uso de alguns destes nomes, mas com cuidado.

E até no Evangelho aparecem alguns nada agradáveis.

Impressionam mais os que associam a hipocrisia, a indiferença e dureza gananciosa e exploradora dos fracos, pobres e doentes.

A hipocrisia descreve personalidades aos pedaços, sem harmonia nem inteireza de ser e fazer bem.

Será que os estudiosos tendem mais a descrever os frágeis que os que os exploram e desprezam? Faz pensar, ainda, se não rebaixam mais os primeiros e são indulgentes com os arrogantes e hipócritas.

É importante que haja pessoas que pensem bem, falem bem, leem bem e em voz sonante e compreensível. Tudo isso são aspetos do ser bom; diria, bocados do ser bom, mas não há como ser bom por inteiro e não apenas aos pedaços.

Mais importante é que os “pedaços” de bem não se misturem demasiado com pedaços de mal e muito mal.

As conversas relacionais pode ser um alerta quando recorrem ao esclarecimento amigável: “podes ter a certeza que gosto de ti e gosto do bem que fazes, mas não gosto do mal que praticas”.

Os pais podem ter que recorrer a este alerta com os filhos nas idades rebeldes com esclarecimento calmo: olha, filho(a), não gosto que faças o que me pode levar a gostar menos de ti. O risco é dizer isto sem empatia e em tom de chantagem. 

Estamos na novena de um santo português, S. João de Deus, que é modelo em atitudes de harmonia e inteireza de bem: foi bom e fez o bem a todos.

Este Santo não harmonizou apenas o seu ser, mas semeou harmonia e inteireza de ser e fazer o bem entre gente muito desfavorecida, pobre, doentes e estigmatizados, mulheres de má fama, gente de posses e violentos.

Compadecia-se, elevava a autoestima dos humilhados, associava os que tinham posses com os que não tinham.

Cunhou mesmo um conceito genial que tem durado séculos até hoje com a inovação de solicitar apoio a uns em favor dos outros.

Ia pelas ruas onde encontrava os sem abrigo, alguns falecidos nessa noite, e gritava para os que ainda estavam recolhidos nas suas casas e palacetes de Granada: «Irmãos: quem quer fazer bem a si mesmo?»

Como ia com o saco e as panelas para recolher da abundância dos jantares dos desafogados, estes entendiam que estavam a fazer bem duas vezes, aos pobres do hospital de João e a si mesmos.

Eram muitos os que alinhavam neste duplo fazer bem.

Um saudoso especialista doutorado em pobreza, de que muitos dos leitores terão ouvido as suas doutas teorias, o Prof. Bruto da Costa, meu amigo, lamentou a sua dificuldade de aceitar o método de S. João de Deus, que lhe sabia a egoísmo de fazer bem para salvar a alma.

Não conseguia harmonizar a esmola feita aos pobres com a motivação da recompensa espiritual e transcendente ao benfeitor.

Como se o pobre ao receber a oferta não devesse dizer: “Deus lhe pague”.

Era teoria de ir só até ao cemitério, onde as ciências se detêm, deixando o todo-pessoa, aos pedaços e excluindo alguns dos pedaços do ser humano.

Quando o Cristianismo é cilindrado pela lógica marxista-comunista, crescem, como ervas ruins, as falácias de alguma ética, as selvas de corrupção e violência nas famílias, nos negócios e nas relações dentro de cada país e entre países.

S. João de Deus, em 1550, teve toda a cidade de Granada no seu funeral a agradecer, sem que tenha sido convocada por qualquer caudilho político, porque ele era santo para lá do túmulo.

Por coincidência, até o Papa Francisco foi hoje receber cuidados de saúde ao hospital da ilha Tiberina, Fatebenefratelli (Irmãos, fazei o bem – a vós mesmos!).

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