Nacional 2: quando uma estrada se transforma em património

Chaves: Km 0

Há estradas que servem apenas para chegar a algum lado.
Outras acabam por adquirir um significado que ultrapassa largamente a sua função original.
A Estrada Nacional 2 pertence hoje a este segundo grupo. Ligando Chaves a Faro ao longo de cerca de 739 quilómetros, atravessa Portugal de norte a sul, abrangendo 11 distritos e 35 municípios portugueses.
Durante grande parte da sua história foi, acima de tudo, uma infraestrutura destinada a ligar localidades, pessoas e atividades económicas num país onde as distâncias eram muito diferentes das que conhecemos atualmente.
Hoje, porém, percorre-se a Nacional 2 muitas vezes sem qualquer necessidade de chegar rapidamente ao destino.
Talvez seja precisamente isso que explique parte do seu sucesso.
Num tempo marcado por autoestradas, itinerários rápidos e aplicações que calculam a forma mais eficiente de chegar de um ponto a outro, milhares de pessoas escolhem voluntariamente uma estrada nacional mais lenta.
Fazem-no de carro, de mota, de bicicleta ou até a pé, procurando não apenas um destino, mas o
próprio percurso.
Ao longo da estrada surgiram marcos, passaportes, carimbos e fotografias que ajudam a construir uma experiência comum entre quem a percorre.
A Nacional 2 tornou-se, de certa forma, um ritual de viagem. Mas esta transformação levanta uma questão interessante: quando é que uma estrada deixa de ser apenas uma estrada?
O património não é constituído apenas por castelos, igrejas, monumentos ou objetos antigos
guardados em museus.
Também pode resultar da forma como uma sociedade atribui significado a determinados lugares, paisagens ou práticas. É nesse sentido que podemos olhar para a Nacional 2.
O valor que hoje lhe reconhecemos não está apenas no asfalto ou nos marcos quilométricos, mas também nas histórias associadas ao percurso, nas localidades atravessadas, nas paisagens, nos cafés de estrada, nas antigas bombas de combustível, nas pontes, nos restaurantes e nas memórias de quem durante décadas utilizou aquela via por necessidade.
A estrada tornou-se, assim, uma forma de contar o território. E conta sobretudo um Portugal que durante muito tempo ficou afastado dos principais fluxos turísticos do país.
Grande parte da imagem turística portuguesa construiu-se em torno do litoral,
das grandes cidades e dos destinos balneares.
A Nacional 2 propõe um mapa diferente, conduzindo o viajante por Trás-os-Montes, pelas Beiras, pelo centro do país, pelo Alentejo e finalmente pelo Algarve.
Nesse percurso surgem pequenas vilas e aldeias que dificilmente apareceriam num roteiro turístico convencional e esse talvez seja um dos aspetos mais interessantes da estrada.
Existe, naturalmente, o risco de transformar tudo isto numa simples coleção de carimbos, fotografias e quilómetros percorridos.
É possível atravessar uma localidade, fotografar um marco e partir imediatamente.
Nesse caso, conhecemos verdadeiramente o território ou apenas comprovamos que passámos por ele?
O verdadeiro valor da Nacional 2 poderá estar precisamente na capacidade de despertar curiosidade pelas comunidades existentes ao longo do caminho.
Viajar devagar permite reparar em pequenas coisas, como uma praça de uma pequena vila, uma antiga oficina, uma conversa num café, uma paisagem que muda gradualmente ou um prato que só encontramos naquela região.
São experiências aparentemente pequenas, mas são elas que transformam uma deslocação numa viagem.
Há também algo de curioso no facto de uma estrada construída para aproximar fisicamente o país estar hoje a aproximá-lo de outra forma.
Quem percorre a Nacional 2 contacta com realidades muito diferentes dentro de um território relativamente pequeno, atravessando paisagens, sotaques, gastronomias, memórias e formas distintas de viver.
Talvez seja por isso que a Nacional 2 conquistou um lugar tão particular no imaginário português.
Não é apenas uma ligação entre Chaves e Faro, mas uma linha que permite descobrir sucessivamente diferentes partes do país. Num tempo em que construímos estradas para chegar cada vez mais depressa, a Nacional 2 tornou-se popular precisamente porque nos convida a fazer o contrário.
Abrandar, parar e a olhar com mais atenção para aquilo que normalmente fica pelo caminho.

