Marcelino da Mata, o último guerreiro do império

 Marcelino da Mata, o último guerreiro do império

Morreu Marcelino da Mata, Major do exército português (graduado em Tenente Coronel), mais do que um Homem. Marcelino da Mata é, por si só, uma página da história de Portugal. Ídolo para uns, criminoso para outros, de etnia Papel, nasceu na Guiné em 1940, acaba incorporado por engano em 1960. Ainda a guerra colonial não tinha começado, após cumprir o serviço militar obrigatório, oferece-se como voluntário para uma segunda comissão. Acaba por se alistar nos Comandos logo na sua fundação. É nesta tropa e na Guerra Colonial que acaba por forjar a sua carreira militar, de soldado, sobe a pulso até Major. Fica para a história como o militar do exército mais condecorado de sempre, agraciado com cinco cruzes de guerra e Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito”.

     Operacional interveniente em mais de 2000 operações de combate, confunde-se o mito com a realidade, a história com as histórias. Destacam-se as participações nas operações “mar verde”, “tridente” ou “ametista real”, todas dignas de uma das melhores salas de cinema do mundo, não fosse o nosso ministério da cultura uma mera tasca onde se servem uns tintos ao final de tarde com uns “fregueses” que se contentam com uns meros “até amanhã camaradas”.

     O 25 de Abril de 74 apanha-o em Portugal a recuperar de um tiro acidental de um camarada de armas. É proibido de regressar à Guiné. Em 1975, os “donos da verdade” saídos do 11 de Março não lhe perdoam a sua lealdade a Portugal, prendem-no e torturam-no barbaramente pela mão do MRPP no extinto RALIS onde o comunismo radical e a anarquia colocaram Portugal à beira de uma guerra civil. Foge para Espanha de onde regressa após o 25 de Novembro e contribui activamente para que a democracia seja uma realidade.

     Muito mais que uma vida de aventura, é uma vida de História. A sua vida fecha um ciclo de audazes guerreiros de um império multicultural e pluricontinental muito maior que este rectângulo há beira mar plantado: Abdulai Queta Jamanca,( Tenente do nosso exército fuzilado pelo PAIGC depois da independência da Guiné) e Chung Su Sing, Coronel de Infantaria (ainda vivo) são disso exemplo. É também história de vida de milhares de homens que de todo o Portugal de então foram chamados a combater numa guerra que não era sua entre 1961 e 1974, mas ainda assim não deixaram de cumprir o que a Pátria lhes pedia. Todos eles são abandonados à sua sorte pelo novo poder político. Os governos democráticos olham para todos eles como um “fardo” que é preciso esquecer, nas ex-colónias muitos dos ex-combatentes são fuzilados. Em Portugal foram precisos mais de 30 anos para que um presidente da república tenha permitido um desfile de veteranos de guerra no 10 de Junho.

Já o Padre António Vieira dizia que “Se servistes à Pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

     Marcelino da Mata, faz parte da página da nossa História que muito político em Portugal ainda hoje tem vergonha de lembrar. Esquecer, ou “branquear” a nossa História, por muito má que eventualmente possa ser, não faz de nós melhores cidadãos, faz de nós cidadãos mais ignorantes.

     Consta-se que Marcelino da Mata morreu em paz. Perdoou a comunistas e anti-racistas. Estes é que nunca perdoaram ao menino que nascido preto, pobre e sem estudos se fez Homem vertical de pensamento e patriota de alma. É em parte por isso, que reformado em 1980 como capitão já graduado em tenente coronel, tem que esperar até 2020 pela promoção a Major. É em parte também pelo seu percurso de vida que o Regimento de Comandos a quem tanto devemos a nossa liberdade, é ainda hoje tão desprezado por muitos.    

O Homem parte, a lenda fica.  

João Paulo Marrocano

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