Homenagem a uma Mulher Coragem

Homenagem a uma Mulher Coragem

Por ocasião centenário do seu nascimento…

A 14 de dezembro de 1921, nasceu, na pacata aldeia do Vale da Carreira, freguesia e concelho de Proença-a-Nova, uma criança do sexo feminino, civilmente registada e catolicamente batizada com o nome de Maria da Conceição. Na data do centenário do seu nascimento, por vicissitudes de ordem vária, onde a pandemia COVID-19 foi protagonista, não foi possível celebrar, para nós, tão grande acontecimento. Nenhum de nós queria olvidar a efeméride, pelo que, logo que estiveram reunidas todas as condições, os seus filhos, netos e bisnetos reuniram-se, na sua aldeia natal, no pretérito dia 24 de setembro, para justa homenagem, a uma mulher admirável.

Foi um encontro de festa para celebrar o amor, a alegria, a união da família…valores que ela tanto prezava. Sempre que nos reuníamos, em família, dizia:  “estou muito contente por estar com a minha gente”. E continua a estar, porque para nós não morreu, mas permanece nos nossos corações.

Este dia foi, assim, um dia de emoções muito fortes, carregadas de grande saudade e de ação de graças pela vida que nos transmitiu e pelo exemplo que nos deixou.

Salientamos, como pontos mais fortes desta vivência, a romagem ao cemitério, a celebração da Eucaristia e o almoço convívio, onde contámos, também, com a presença de todos os nossos vizinhos.

A pessoa e mãe foi evocada, com elevada emoção, por alguns dos seus filhos, pelo que este texto reproduz muitas das frases proferidas e nas quais todos nos revemos, pelo que omitimos, propositadamente, as aspas.

A bondade tem muitos nomes. O exemplo tem rosto de mãe, avó, bisavó, vizinha e amiga. A Conceição foi sempre um sorriso que iluminava os momentos mais soturnos. Mesmo quando Deus escolhia guardar os seus filhos, como seus Anjos da Guarda, o sentido de entrega, de fé e de confiança eram sempre mais fortes do que a desilusão.

Mãe, toda a vida, cuidou de todos, rapazes e raparigas, como filhos únicos nos sentimentos, na personalidade e no feitio. Avó, mais tarde, multiplicou o amor por mil e nunca deixou um abraço por dar. Era, em jeito de cantilena, pleno de ternura, que recebia os netos que a visitavam em tempos de saudade. Perante as adversidades, o humor era a sua arma mais forte, logo a seguir à dádiva. Não guardava, para si, nenhuma anedota com graça e não recusava o convívio de um jogo de cartas. Sempre gostou de partilhar e a mesa de jogo era o seu recreio. Mas, o seu mundo era bem maior…

Naquelas aldeias do Pinhal, todos conheciam e gostavam da Conceição. A sua casa nunca foi local de passagem, foi sempre local de paragem, onde não faltava um petisco e duas de treta para alegrar a visita, para a sua viagem de regresso. Quando acolhia e ajudava, a Conceição era feliz e essa felicidade era desfiada em pedacinhos que ficavam bordados nos corações que com ela se encontravam.

A Mãe foi sempre boa a ser mãe, mas foi também uma esposa extremosa. Amou o marido, à “antiga”:  solidária, amorosa, apaixonada até ao último segundo. Deixou, em toda a família, a marca da generosidade e da prioridade aos afetos. Tudo, nela, era dom de Deus, feito beijo e gargalhada.

Falarmos desta mulher é continuarmos a seguir o seu exemplo de coragem, de resiliência, de determinação, de altruísmo… A vida fê-la amadurecer bem cedo, mas nunca perdeu a alegria de viver, o valor do trabalho, a gratidão a Deus por tudo o que recebeu, a solidariedade e o respeito pelos outros…

Levou uma vida simples, na forma de a experienciar e ver o mundo, de mostrar os afetos, de encarar as adversidades…quem não se lembra?!… ”Hora a hora Deus melhora,” “ eu já passei por isso e tudo passa”… Tinha sabedoria na alma e grandeza na humanidade.

Sempre disponível: foi, muitas vezes, a primeira a socorrer quem precisava, a dar um conselho a quem lho pedia, a guardar um segredo que lhe confidenciavam, a ajudar uma criança a vir ao mundo, a amortalhar quem partia para a eternidade… Tal, como Maria, guardava muitas coisas no seu coração para que à sua volta houvesse paz, alegria e reconciliação.

Viveu uma vida longa, cheia de experiências, umas ricas e abundantes, outras de sofrimento e dor. Abraçou tudo, começando pela perda da sua mãe, quando tinhas apenas 5 anos, pela infância e adolescência de trabalho e carências, pela criação dos filhos em tempos difíceis, pela doença do marido… mas, o Amor foi o seu bem maior, esteve sempre lá.  Foi o seu caminho.

O Amor, sempre o amor a comandar a sua “barca”:

– O amor por um homem bom, que a honrou, respeitou e amou incondicionalmente;

– O amor pelos seus filhos, netos e bisnetos que amou e ama, por igual, até ao infinito;

– O amor que colocou no trabalho, em prol do bem da sua família (quem não se lembra das manhãs frias de Inverno, em que nos preparávamos para ir para a escola e ela não estava porque tinha saído de casa bem cedo, para a venda da sardinha?…);

– O amor pela honestidade, pela verdade, pela tolerância, pelo perdão…

Por tudo isto celebramos o seu centenário de nascimento, em ambiente de festa, lembrados de uma frase que repetia, frequentemente, em ambiente de convívio: “Gosto muito desta brincadeira, aqui no Vale da Carreira”.

Queremos agradecer, de uma forma muito especial, ao nosso pároco, padre Luís Manuel, o qual, logo que por nós foi contactado, assumiu, prontamente, o compromisso de que um sacerdote da paróquia estaria connosco, presidindo à Eucaristia. Tal aconteceu, na pessoa do padre Eduardo, ao qual agradecemos, por nos ter acompanhado neste dia, para nós, tão marcante. Não queremos deixar, igualmente, de referir a nossa tia Lurdes Alves, nos seus 98 anos, plenos de lucidez, cunhada da homenageada, que muito nos honrou com a sua presença. Aos nossos vizinhos do Vale da Carreira, um bem hajam por terem aceite o convite para se associarem a esta festa.

Os filhos sentem que o exemplo da sua mãe, Conceição, foi o melhor instrumento da sua educação. As marcas ficaram e vão continuar a perpetuar-se nos netos, bisnetos …. porque os seus valores são os valores dos filhos.

Estamos todos muito agradecidos, por sermos filhos, netos e bisnetos de uma Mulher que veio a este mundo para o tornar melhor. Só morrerá quando o último de nós a esquecer, sabendo que o amor não morre, mas perdura para sempre.

Temos muitas saudades dos pais e avós, mas temos, sobretudo, um orgulho enorme na família que nos tornámos, a partir da sua semente.

Porque sabemos que está no Céu que, como mulher de fé, acreditou que existe, pedimos que interceda, por nós, junto do Pai do Céu, para que nos proteja e olhe por cada um, em todos os momentos da nossa vida.

Obrigados por seres nossa mãe, avó e bisavó.

Hoje e sempre continuaremos a celebrar-te.

Um abraço eterno.

                                                            *Os filhos, netos e bisnetos da “Ti Conceição”

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