Homenagem a Portugal e a Camões
Disto e Daquilo
No dia 10 de junho, presta-se homenagem a Portugal, a Camões, o grande poeta nacional e às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
Foi uma ideia genial associar Camões aos portugueses que, tal como ele, têm a sua vida pelo mundo em pedaços repartida, como podemos ler neste belíssimo poema.
Camões sente-se saudoso da sua pátria, numa terra inóspita, vivendo tristes dias, forçados, maus e solitários, recordando saudosamente a mulher amada. Quantos fora da sua terra não sentem o mesmo?!
Junto de um seco, fero e estéril monte, inútil e despido, calvo, informe, da natureza em tudo aborrecido; onde nem ave voa, ou fera dorme, nem rio claro corre, ou ferve fonte, nem verde ramo faz doce ruído; cujo nome, do vulgo introduzido é felix, por antífrase, infelice; o qual a Natureza situou junto à parte onde um braço de mar alto reparte Abássia, da arábica aspereza, onde fundada já foi Berenice, ficando a parte donde o sol que nele ferve se lhe esconde; Aqui, no mar, que quer apressurado entrar pela garganta deste braço, me trouxe um tempo e teve minha fera ventura. Aqui, nesta remota, áspera e dura parte do mundo, quis que a vida breve também de si deixasse um breve espaço, porque ficasse a vida pelo mundo em pedaços repartida. ………………………………………………. Aqui me achei gastando uns tristes dias, tristes, forçados, maus e solitários, trabalhosos, de dor e d'ira cheios, não tendo tão somente por contrários a vida, o sol ardente e águas frias, os ares grossos, férvidos e feios, mas os meus pensamentos, que são meios para enganar a própria natureza, também vi contra mim trazendo-me à memória algüa já passada e breve glória, que eu já no mundo vi, quando vivi, por me dobrar dos males a aspereza, por me mostrar que havia no mundo muitas horas de alegria. Aqui estiv'eu co estes pensamentos gastando o tempo e a vida; os quais tão alto me subiam nas asas, que caía (e vede se seria leve o salto!) de sonhados e vãos contentamentos em desesperação de ver um dia. Aqui o imaginar se convertia num súbito chorar, e nuns suspiros que rompiam os ares. Aqui, a alma cativa, chagada toda, estava em carne viva, de dores rodeada e de pesares, desamparada e descoberta aos tiros da soberba Fortuna; soberba, inexorável e importuna. …………………………………. Não tinha parte donde se deitasse, nem esperança algüa onde a cabeça um pouco reclinasse, por descanso. Todo lhe he dor e causa que padeça, mas que pereça não, porque passasse o que quis o Destino nunca manso. Oh! que este irado mar, gritando, amanso! Se de tantos trabalhos só tirasse saber inda por certo que algu'hora lembrava a uns claros olhos que já vi; e se esta triste voz, rompendo fora, as orelhas angélicas tocasse daquela em cujo riso já vivi; a qual, tornada um pouco sobre si, revolvendo na mente pressurosa os tempos já passados de meus doces errores, de meus suaves males e furores, por ela padecidos e buscados, tornada (inda que tarde) piadosa, um pouco lhe pesasse e consigo por dura se julgasse; Isto só que soubesse, me seria descanso para a vida que me fica; co isto afagaria o sofrimento. Ah! Senhora, Senhora, que tão rica estais, que cá tão longe, de alegria, me sustentais cum doce fingimento! Em vos afigurando o pensamento, foge todo o trabalho e toda a pena. Só com vossas lembranças me acho seguro e forte contra o rosto feroz da fera Morte, e logo se me ajuntam esperanças com que a fronte, tornada mais serena, torna os tormentos graves em saudades brandas e suaves. Aqui co elas fico, perguntando aos ventos amorosos, que respiram da parte donde estais, por vós, Senhora; às aves que ali voam, se vos viram, que fazíeis, que estáveis praticando, onde, como, com quem, que dia e que hora. Ali a vida cansada, que melhora, toma novos espritos, com que vença a Fortuna e Trabalho, só por tornar a ver-vos, só por ir a servir-vos e querer-vos. Assi vivo; e se alguém te perguntasse, Canção, como não mouro, podes-lhe responder que porque mouro. Luís Vaz de Camões, Canção IX