Há quem fuja do que precisa e procura

Há quem fuja do que precisa e procura
Dom Antonino Dias

O mundo vive sempre em situação de crise. No entanto, todos apostam em lhe receitar as terapias que julgam necessárias e urgentes. Nem sempre, porém, se acerta na muche. Há diagnósticos difíceis, há imprudências que fazem piorar as crises, há erros fatais, há medos e preconceitos em relação a certas terapias. Conheço uma que, se os ingredientes estiverem corretos e a posologia for certa, é altamente benéfica e compatível com todas as outras receitas possíveis. Não as substitui, é verdade, mas é capaz de as elevar à mais alta potência sem qualquer contraindicação. Acredita-se que até pode provocar milagres, ela transforma, renova. Não se trata de uma mezinha caseira com sal e alecrim, nem de uma xaropada com sabor a fel. É aprazível e sobejamente comprovada, mesmo que esquecida por uns, considerada inútil por outros, caçoada por quem se ri de quem a utiliza. Paciência! Crê-se que tenha origem nos altos laboratórios do Paráclito ao longo do segundo milénio, de forma vagarosa, como se vê. Por mais que cantemos que ‘Há pressa no Ar’, os humanos são muito lentos, difíceis e truculentos, sobretudo quando pensam que tudo podem e sabem, que se bastam a si próprios, que podem fugir de quem os criou e ama. Meras ilusões!…

O terceiro milénio também abraçou esta causa como valor de grande utilidade e significado. Trata-se do Rosário, o Rosário da Virgem Maria. O mês de outubro é o Mês do Rosário, da Senhora do Rosário. Não se trata de o usar para se cumprir uma obrigação, seria um gesto muito pobre. Trata-se de um ato de amor, de louvor e contemplação a conduzir à conversão. O bom cristão pode não ser o cumpridor, o bom cristão é o convertido, cumprir e não se converter dá borrasca, engana os outros e a si próprio, pode escandalizar. Embora de fisionomia mariana, o Rosário é uma oração iminentemente cristológica, concentra a mensagem evangélica, é uma espécie de GPS a orientar o ritmo da vida quotidiana. Os Papas sempre destacaram o caráter evangélico do Rosário e a sua orientação cristológica. É um “comentário-prece do último capítulo da Constituição Lumen Gentium do Vaticano II, capítulo que trata da admirável presença da Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja”. Ele torna presente os principais episódios da vida de Jesus, e, ao mesmo tempo, faz incluir nas suas dezenas “todos os factos que formam a vida do indivíduo, da família, da nação, da Igreja, da humanidade. Acontecimentos pessoais e do próximo, e de modo particular daqueles que nos são mais familiares e que mais estimamos”.

No atual contexto histórico e teológico, escreveu São João Paulo II, constata-se que esta oração está “a ser erradamente debilitada no seu valor e, por conseguinte, escassamente proposta às novas gerações”. Há quem erradamente pense que a centralidade da Liturgia deve fazer cair a importância do Rosário. Sabemos, porém, que “não só não se opõe à Liturgia, mas serve-lhe de apoio, visto que introduz nela e dá-lhe continuidade, permitindo vivê-la com plena participação interior e recolhendo os seus frutos na vida quotidiana”. Também, como pode parecer, não é um obstáculo ao ecumenismo, é uma ajuda. É uma oração contemplativa, uma oração do coração, uma oração feita em ritmo sereno e tranquilo, facilitando a meditação nos mistérios da vida do Senhor. Porque sempre nos faz “mergulhar na contemplação do mistério daquele que ‘é a nossa paz’, é muito recomendado como oração pela paz. E nestes tempos em que as famílias são ameaçadas por forças desagregadoras a nível ideológico e prático, “o relançamento do Rosário nas famílias cristãs, no âmbito de uma pastoral mais ampla da família, propõe-se como ajuda eficaz para conter os efeitos devastadores dessa crise da nossa época”. A Mãe de Jesus tem feito sentir a sua presença e a sua voz para exortar o Povo de Deus a rezá-lo todos os dias.

Multidões de fiéis de todas as idades e condições sociais continuam a encontrar no Rosário um autêntico caminho de santificação. Famílias o rezam e ensinam a rezar. Muitos jovens o fazem, individualmente ou em grupo. E para que não se pense que é apenas para pessoas adultas e idosas, lembro que foi às crianças que a Senhora primeiro pediu que o rezassem todos os dias. A Igreja continua a apelar para que se valorize esta oração tão popular e tão rica. Há testemunhos de gratidão pelo exemplo familiar nesta pedagogia do amor. Alguns até testemunham que o aprenderam a rezar no automóvel quando iam em viagem com os seus pais, coisa que continuam a fazer hoje por essas estradas fora. Se há quem o pendure no espelho das viaturas para português ver, muitos há que, de facto, não deixam acabar o dia sem o terem rezado. Redescobrir e valorizar o Rosário é importante para todos, constitui um dever de quem educa e evangeliza.

‘Louvada seja na terra
A Virgem Santa Maria:
 
Quer nas horas de tristeza,
Quer nas horas de alegria;
Quer sobre as ondas do mar
Lá com a morte à porfia;
Quer nos escuros caminhos
Pelas noites de invernia;
Quer no lume da lareira,
Que no sol quando alumia;
Quer no amor de toda a hora,
Quer no pão de cada dia...
 
Louvada seja na terra
A Virgem Santa Maria!’

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