Há 375 anos Rainha e Padroeira de Portugal

Há 375 anos Rainha e Padroeira de Portugal
Dom Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco

Costuma dizer-se que quem meus filhos beija minha boca adoça. Nestas vésperas da Solenidade de São José, não vou falar dele. Acredito, porém, que também ele ficará de boca doce, muito feliz. Porque se aproxima uma data muito importante para nós, portugueses, vou falar de Maria, sua esposa, mas festejando com os dois o dom das suas vidas e a intervenção de ambos no projeto de Deus para a humanidade. São José é o Patrono universal da Igreja, o pai adorável, o homem justo e bom, estimulo para todos os pais em Dia do Pai. Maria, sua Esposa, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, também é Rainha e Padroeira de Portugal, uma nobre e distinta Senhora que até sobressai no jeito de se apresentar. Sem andar pelas passarelas da moda, sem se endividar em compras ou comprar fiado, tem um roupeiro invejável, ao ponto de nenhum outro se lhe puder igualar. Em cada invocação que o povo carinhosamente lhe dá, ela veste um vestido diferente, ao gosto da região, da cultura e da devoção dos seus filhos, mas sempre na moda, sempre ‘in’. Apesar de não ser exigente, apesar do povo a vestir até a fios de ouro, convenhamos que, na sua beleza, qualquer trapinho lhe fica bem. Essa beleza encantadora nasce-lhe do interior, das suas virtudes e santidade. Se o leitor for capaz de alistar as invocações da Senhora existentes em Portugal, ou apenas na sua própria região, apreciará também que, sendo sempre a mesma, veste sempre de forma diferente e bela: Senhora da Penha, da Misericórdia, da Alegria, da Cabeça, das Dores, da Vista, da Rocha, da Lapa, do Minho, da Franqueira, da Peneda, do Facho, do Viso, dos Remédios, da Fé, do Parto, do Ó, do Alívio, da Agonia, de Aires, dos Altos Céus, … vá, continue, por favor, e não se canse, consciente que é sempre a mesma Senhora e que a lista jamais estará completa…

Servindo-me, com a devida vénia, sobretudo da Wikipédia, aproveito para, nesta efeméride que estamos a celebrar, recordar que, por exemplo, a devoção dos portugueses a Nossa Senhora da Conceição vem de muito longe e está muito ligada aos acontecimentos da independência e da identidade nacional. Histórias da história dizem-nos que, aquando da conquista da cidade de Lisboa, em 1147, por D. Afonso Henriques, foi celebrada uma Missa Pontifical de ação de graças, em honra da Imaculada Conceição. São Nuno Álvares Pereira, após a vitória na batalha de Aljubarrota, em 1385, terá mandado construir a igreja de Nossa Senhora do Castelo, em Vila Viçosa, sendo consagrada a Nossa Senhora da Conceição, cuja imagem que lá se encontra ele teria encomendado em Inglaterra. A devoção popular foi crescendo e criando raízes ainda mais fortes em Portugal. Criaram-se irmandades de Nossa Senhora da Conceição, dedicaram-se-lhe igrejas e muitos altares, sendo a irmandade mais antiga a instituída em 1589 na paróquia dos Anjos, em Lisboa. Após a restauração da independência de Portugal, o rei D. João IV, em 25 de março de 1646, após parecer favorável das Cortes gerais, consagrou os «Seus Reinos e Senhorios» a Nossa Senhora da Conceição, diante da imagem existente no Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Proclamou Nossa Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal e coroou a sua Imagem com a coroa real, doravante seria a Rainha de Portugal. A partir de então, em sinal de reconhecimento de que Nossa Senhora é a verdadeira Rainha e Padroeira de Portugal, os reis subsequentes nunca mais colocaram a coroa real na sua cabeça, sendo que a coroa, em ocasiões solenes, era apenas posta sobre uma almofada, ao lado direito do rei. Tal ‘Provisão Régia’ foi confirmada pelo Papa Clemente X em 1671. Docentes da Universidade de Coimbra, desde 1646 juraram defender o dogma da Imaculada Conceição, juramento que foi estendido e aplicado a todos os futuros graduados da Universidade. Só após a proclamação do dogma da Imaculada em 1854, se julgou desnecessário continuar a prestar este juramento. Em 1654, D. João IV enviou a todas as Câmaras Municipais do Império Português uma cópia da inscrição comemorativa, em latim, do juramento solene prestado em 25 de Março de 1646 e ordenou que aquela inscrição fosse gravada em pedra e colocada nas portas e lugares públicos das cidades e vilas portuguesas. O Rei D. João V, em 1717, em circular enviada à Universidade de Coimbra e a todos os prelados e colegiais do Reino, recomendou-lhes a celebração anual da festa da Imaculada Conceição nas suas igrejas, recordando o juramento de D. João IV. Por sua vez, o rei D. João VI, em 1818, fundou a “Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa”. Após a proclamação dogmática em 1854 pelo Papa Pio IX, desenvolveu-se em Portugal um movimento que apoiava a construção de um monumento nacional que comemorasse tal facto. Esse primeiro monumento foi erigido no Sameiro, em Braga, em  1869. Posteriormente, no mesmo local, foi construído um santuário dedicado à Imaculada Conceição de Maria, cuja imagem foi coroada solenemente em 1904. Extinta a monarquia e instaurada a república, nunca este ato e este título de Nossa Senhora foi posto em causa.

Em 1946, no dia 25 de Março, comemorou-se o tricentenário da proclamação da Imaculada Conceição como Padroeira de Portugal, com a consagração de Portugal à Virgem Maria, Mãe de Deus. Na Visita Apostólica do Papa São João Paulo II a Portugal, ocorrida nos dias 12 a 15 de Maio de 1982, ele visitou o Santuário de Fátima, o Santuário de Nossa Senhora do Sameiro e o Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

O Instituto da Padroeira de Portugal para os Estudos da Mariologia organizou para este mês de março o congresso intitulado: “Mulher, Mãe e Rainha. Nos 375 anos da Coroação de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal”. Terá lugar de 24 a 26 de março, em Fátima. No dia 27 de março, Domingo, e já na véspera, o encerramento deste ano jubilar dos 375 anos da coroação de Nossa Senhora será em Vila Viçosa, no Santuário ou Solar da Padroeira. Presidirá Salvatore (Rino) Fisichella, arcebispo italiano presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Também serão expostas conjuntamente as três coroas de Nossa Senhora, a de Vila Viçosa, de Fátima e do Sameiro, bem como alguns mantos da Padroeira de Portugal.

Na sua divulgação, lê-se que o congresso, para além de reunir conceituados especialistas em várias áreas do saber, pretende ser um fórum de estudo abrangente, nas temáticas, nas visões e nas abordagens, esperando-se os diferentes contributos relativos ao objetivo em vista. Mas também está aberto à participação ativa de quantos quiseram associar a sua investigação através de comunicações autopropostas, dentro das áreas do Congresso. É inegável que o Povo português tem uma forte identidade mariana, que no Congresso melhor se quere conhecer, nos seus fundamentos e expressões.​ Além do Congresso, o referido Instituto assumiu “construir um dicionário sobre a Virgem Maria, um dicionário em português, a partir de fontes históricas, mas também das novas realidades contemporâneas”.

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