Gestão de investimentos: Tipos de perfis de investidor

 Gestão de investimentos: Tipos de perfis de investidor
<span class="info-article">Artigo de autoria</span><br/>Paulo Ferreira

Artigo de autoria
Paulo Ferreira

Licenciado em Matemática Aplicada e com pós-graduação em Atuariado e Gestão de Riscos Financeiros. Vem falar-nos sobre Literacia Financeira, numa parceira estabelecida com o Jornal de Proença.

Estimado Leitor,

Mais uma quinzena ultrapassada e aí temos mais um artigo sobre Literacia Financeira, entrando desta vez numa temática diferente (Gestão de Investimentos).

Mas para percebermos bem a lógica dos artigos anteriores e o caminho “trilhado” neste percurso, vamos realizar uma simples reflexão sobre as publicações efetuadas até ao momento.

Em primeiro lugar, referimos atitudes e comportamentos a praticar ou evitar, para termos umas finanças saudáveis, e disponibilizámos “ferramentas” para identificar o nosso perfil de consumidor e possíveis “caminhos” para o nosso bem-estar financeiro. Por outro lado, abordámos o tema dos créditos bancários, reforçando quando a sua utilização é inevitável, aceitável (como recurso estratégico) ou perfeitamente evitável e desnecessário. Por fim, destacámos também o tópico da gestão do orçamento pessoal e familiar, com os cuidados a ter neste âmbito, que sendo devidamente praticados e respeitados, poderão conduzir à constituição de algumas poupanças, que depois deverão ser investidas com critério e rigor. É exatamente essa área das poupanças e investimentos que exploraremos, nas várias dimensões, ao longo das próximas publicações.

Nesse sentido, iniciaremos estas publicações dedicadas à área dos investimentos, com a “identificação dos protagonistas” (tipos de perfis de investidor) e do “terreno” onde habitualmente se movimentam (riscos financeiros que assumem ou estão dispostos a assumir no contexto das suas poupanças e investimentos). Estes tópicos serão repartidos em dois artigos.

Entendemos importante e útil este enquadramento inicial, para facilitar a abordagem dos temas seguintes, e permitir uma apropriada “visualização” do posicionamento de cada investidor / aforrador, face às opções disponíveis no Mercado, no que diz respeito aos produtos financeiros, suas características, particularidades e riscos financeiros que comportam.

Antes de entrar no detalhe dos tópicos desta comunicação (tipos de perfis de investidor), duas notas prévias que consideramos importantes:

– Ao longo da exposição faremos algumas referências genéricas a diferentes produtos financeiros (no essencial as que são do senso comum), o que facilitará a explicação dos conceitos a apresentar, reforçando a compreensão dos mesmos. Estas referências não impedirão a abordagem mais prática e detalhada desses produtos em artigos seguintes.

– O modelo de “perfis de investidor“ a seguir apresentado não é único nem científico, existem naturalmente modelos similares alternativos e com a mesma utilidade prática, mas isso não é o mais relevante. Importante é termos algumas referências que permitam acompanhar os principais tipos de “comportamento” das pessoas neste âmbito financeiro e os seus impactos concretos ou expectáveis na vida real.

Vamos então começar por apresentar os vários tipos de perfis de investidor.

PERFIS DE INVESTIDOR

Pelo seu diferente posicionamento face aos diversos tipos de investimentos disponíveis, podemos repartir os investidores pelas seguintes categorias (ou perfis):

Conservador – Moderado – Dinâmico



1. Perfil Conservador

Quais as principais características do investidor com este perfil?

. Pretende garantia de capital (não aceita minimamente colocar em risco o seu investimento) e procura alguma rentabilidade, mas admite que não poderá ser muito ambiciosa.

. Dá prioridade a elevada liquidez (caso necessite de recorrer, a qualquer momento, a estas aplicações) e tem uma visão de curto prazo (o futuro é muito distante e difícil de controlar).

. Necessita de ter um elevado acompanhamento e controle da situação e apresenta uma clara dificuldade em lidar com a incerteza.

. Possui a noção que, em termos reais, perde, por vezes, valor, já que a rentabilidade atingida, mesmo que minimamente atrativa, poderá não cobrir a inflação.

Outros tópicos relevantes a destacar no âmbito deste perfil de investidor?

. Grande parte da população portuguesa possui este perfil de investidor. Em múltiplos casos existem razões históricas, culturais, familiares, …, que transmitem de forma incisiva às pessoas valores de (necessidade) de segurança, garantia, proteção, liquidez, … As crises financeiras, sociais, militares, …, dos últimos anos, e a instabilidade e insegurança daí decorrentes, também têm prestado um “contributo” adicional para este sentimento abrangente.

. As suas preferências, em termos de produtos financeiros a subscrever, apontam essencialmente para depósitos bancários (à ordem e a prazo), certificados de aforro, …, e alguns produtos ou seguros de poupança, desde que possuam taxa e/ou capital garantido. O papel “protetor” do Estado nestes instrumentos também tranquiliza os investidores / aforradores com este perfil.

. Embora não seja obviamente exclusivo de escalões etários mais idosos, os mesmos têm alguma preponderância neste perfil. A proximidade com a data de reforma retira alguma margem (real e psicológica) para “aventuras financeiras”.

2. Perfil Moderado

O que distingue o investidor com este perfil?

. Tem também preferência por produtos com capital garantido, mas admite, contudo, combinações (mix) com alguns investimentos de maior risco financeiro.

. Arrisca, nalgumas situações, numa ótica de médio prazo de forma a potenciar a sua rentabilidade e fazer face a naturais e temporárias oscilações de rendimento.

. Tenta, pelo menos, não perder valor real, ou seja, que a taxa de rentabilidade líquida da sua carteira de investimentos seja, no mínimo, igual ou superior à inflação.

Outros aspetos importantes que podemos realçar no domínio deste perfil de investidor?

. Está disponível para combinar títulos de risco reduzido (depósitos bancários, certificados aforro, …) com outros de maior risco financeiro (obrigações, ações, ETF, …) .

. A estrutura da carteira de investimentos (“peso” de cada componente no investimento global) deste tipo de investidor pode depender de vários fatores:

  1. escalão etário do investidor (o futuro, reforma, …, estar mais ou menos distante);
  1. perfil psicológico ser mais ou menos moderado, ou seja, estar mais próximo do perfil “Conservador” ou mais próximo do perfil “Dinâmico”;
  1. valor global dos investimentos e necessidade de constituir FE (Fundo de Emergência), com segurança e liquidez, para suportar X meses (em geral 6 ou 12) de rendimento, em caso de situações inesperadas ou inconvenientes (desemprego, doença, despesas extra, …). Se este FE, a que todos os cidadãos deveriam dar prioridade (caso possuam obviamente condições para tal), preencher grande parte do património financeiro total, a margem remanescente para alguns investimentos ponderados de maior risco e médio prazo fica claramente mais limitada. Seria uma situação a analisar caso a caso.

3. Perfil Dinâmico

O que caracteriza o investidor com este perfil?

. Procura rentabilidade superior à média do Mercado e tem disponibilidade para aplicações financeiras de médio / longo prazo.

. Está preparado para assumir riscos de perdas no capital investido e pretende (tem expetativa) rentabilidade real positiva a médio/longo prazo (muito acima da inflação).

. Não se “assusta” com oscilações temporárias do Mercado Financeiro, entende-as como normais num percurso de médio / longo prazo.

. Não acompanha de forma “apertada” o seu investimento, mas faz monitorizações periódicas para perceber evolução, tendências e aplicar eventuais ajustamentos.

Outros tópicos a destacar?

. Embora não seja exclusivo de escalões etários mais jovens, os mesmos terão certamente uma maior preponderância neste perfil. O futuro é ainda “muito distante” e a reforma estatal uma “miragem”.

. São pessoas, geralmente com maior literacia financeira, que:

  1. conhecem e acompanham o mercado financeiro (nacional e internacional) e fazem análises prévias dos títulos a adquirir (empresas associadas, características, estratégia, performance, histórico de rentabilidade, …). Isto apesar de saberem que rentabilidades passadas não são garantia de rentabilidades futuras e que o risco existe;
  1. diversificam a sua carteira com títulos de diferentes categorias e riscos, tendencialmente de “comportamentos” inversos (pelo menos uma parte), para mitigar oscilações de Mercado em momentos mais agitados e geralmente, para além de um simples Fundo de Emergência (FE), aplicam o remanescente em títulos de maior risco financeiro e numa ótica de médio / longo prazo (Obrigações, Ações, ETF, Aplicações Financeiras sem taxa e sem capital garantido, …);
  1. sabem, em termos de histórico (analisando vários anos e décadas), que em termos médios, a rentabilidade obtida a médio / longo prazo geralmente compensa o risco assumido.

Para terminar, gostaríamos de referir que estes temas parecem, por vezes, algo abstratos e/ou teóricos, mas são de facto muito relevantes para termos:

  1. claro o nosso posicionamento natural em termos de investimentos e sentirmos “conforto” com as decisões tomadas neste âmbito;
  1. consciência dos riscos assumidos quando da subscrição de produtos financeiros e as nossas expetativas alinhadas com este tipo de comportamentos.

E para concretizarmos melhor estas ideias, percebendo melhor a realidade e aplicação prática destes conceitos, apresentamos apenas dois exemplos algo “radicais” sobre este tipo de comportamentos:

. Um investidor com 60 anos, com perfil muito conservador, tem a sua carteira de investimentos de valor significativo concentrada em ações. Como reagiria? Viveria “atormentado” com a possibilidade de perder o seu dinheiro e permanentemente assustado com as naturais oscilações que esse património iria apresentando.

. Um jovem de 30 anos com perfil dinâmico conseguiu juntar um património financeiro na ordem dos 50.000€. Como reagiria se tivesse esse montante aplicado em certificados de aforro, cuja rentabilidade anual líquida não chega ao valor da inflação? Viveria “frustrado” sentindo que estava a perder oportunidades de construir um futuro mais risonho, para mais sabendo que a pensão de reforma estatal de que virá a usufruir será muito inferior aos padrões atuais.

Cremos que a reflexão sobre estas situações nos ajudará a visualizar de forma real a pertinência destes tópicos.


Hoje ficaremos por aqui, a publicação já vai algo extensa, mas esperamos que tenha sido útil e do vosso agrado. No próximo artigo encerraremos estes tópicos, abordando a temática dos Riscos Financeiros associados aos diversos produtos disponíveis no Mercado, designadamente, riscos de crédito, capital, mercado, cambial, inflação e liquidez.

Boa análise e até breve

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