Galileu Galilei: uma verdade escondida

Galileu Galilei: uma verdade escondida
Maria Susana Mexia, Professora

O caso Galileu paira como símbolo da rejeição, por parte da Igreja, do progresso científico, ou então como obscurantismo dogmático em oposição à ciência. Este mito fez com que muitos cientistas aceitassem a ideia errada de que havia incompatibilidade entre a ciência e a fé cristã. Para sermos justos e coerentes temos que procurar compreender este caso com os parâmetros do século XVII, partindo das premissas e dos modelos usados naquele tempo, e não a partir dos que hoje são considerados válidos.

Com a invenção do telescópio, Galileu fez muitas descobertas, como as manchas do Sol, as crateras da Lua, a Via Láctea ser constituída por um grande número de estrelas, Júpiter possuir quatro Luas, Vénus ter fases como a Lua, o que lhe revelava que não era a Terra, mas o Sol ser o centro do Sistema Solar, confirmando assim a tese de Copérnico.

Porém, pelos conhecimentos da época não dispunha de elementos claros para demonstrar e provar o seu ponto de vista heliocêntrico. Sem argumentos sólidos, a tese de Galileu apresentava-se como errada face aos conhecimentos do século XVII e abalava, sem ter razões convincentes, o grande edifício da Ciência e da Fé, no qual o geocentrismo estava acreditado com base científica e filosófica desde Ptolomeu, há vinte séculos.

Galileu não foi condenado por defender o sistema heliocêntrico, mas pelo modo como o defendeu, rejeitando a sugestão de apresentar o sistema de Copérnico como uma hipótese, até ter provas irrefutáveis para o confirmar, o que é, simplesmente, uma exigência do método experimental, ao qual ele próprio deu início. Nesta circunstância, Galileu foi proibido pela Igreja católica, de defender a sua nova “teoria” ausente de provas científicas, nomeadamente no meio universitário onde leccionava matemática, ordem que não cumpriu, desobedecendo intencionalmente, fruto do seu altivo temperamento.

Na verdade, o processo de Galileu nem se tratou de um conflito entre ciência e religião, mas sim de uma ausência de provas científicas credíveis na época, o que não podia ser ultrapassado sem rigor técnico.

Galileu não foi condenado por heresia, não foi torturado, foi acusado unicamente por desobedecer a uma ordem da Igreja, o que está comprovado que aconteceu. Depois do julgamento ficou a viver em prisão domiciliária na Vila Médici, mudando posteriormente para o palácio do arcebispo, monsenhor Ascanio Piccolomini, em Siena, onde foi tratado de forma principesca e mais tarde foi-lhe permitido ir para uma casa que possuía, perto de Florença. Ali viveu na companhia de uma sua filha, religiosa, continuando os seus trabalhos de investigação, que foram publicados em 1638, vindo a falecer de morte natural a 8 de janeiro de 1642.

Relacionar o processo Galileu com a Idade Média, é também um dos erros habituais, pois terminando a Idade Média em meados do século XV, com a queda de Constantinopla às mãos dos turcos otomanos em 1453, Galileu só nasceria em 1564, um século depois…

Facto é, que no período de transição da Idade Média para a Idade Moderna, foram muitas as incertezas e as ambiguidades, gerou-se um ambiente de grande reação contra a fé e os valores estabelecidos, e foi nesta época que viveu Galileu Galilei (1564-1642). O desenvolvimento da ciência e o aparecimento de alguns pensadores como Michel de Montaigne (1533-1592), lançavam a dúvida e incitavam a uma atitude anti religiosa.

Em 1741, após a prova óptica da revolução da Terra em torno do Sol, Bento XIV (1740-1758) procurou que o Santo Ofício desse o Imprimatur à primeira edição das obras completas de Galileu.

Em 1757, as obras científicas favoráveis à teoria heliocêntrica foram retiradas do “Index” de livros proibidos. Em 1822, Pio VII (1800-1823) determinou que o “Imprimatur” podia ser dado também aos estudos que apresentavam a teoria coperniciana como tese.

Porém, só em 1851, é que Foucault conseguiu provar o movimento de rotação da Terra, com um pêndulo pendurado no tecto do Panteão de Paris. Facto que demonstra como era difícil a teoria de Galileu poder ter ser sido aceite no seu tempo.

Acresce ainda uma curiosidade, no século XIX, em 1898, nasceu na Alemanha, Bertolt Brecht, que vivendo durante a primeira guerra mundial, desenvolveu uma forte atitude de oposição à moral estabelecida e à sociedade burguesa. Com a ascensão ao poder do nacional-socialismo em 1933, Brecht partiu para o exílio, primeiro Dinamarca, depois nos Estados Unidos da América, onde fez alguns filmes em Hollywood. Entretanto, na Alemanha foi-lhe retirada a cidadania e os seus livros lançados à fogueira, no zelo persecutório que percorria as autoridades do país. Em 1948, Brecht regressou a Berlim, já República Democrática Alemã.

Brecht foi um dos grandes reformadores do teatro no século XX, desenvolvendo uma forma de drama com características de intervenção social, ideologicamente marcada por um posicionamento político assumidamente de esquerda. Neste contexto situa-se uma das suas obras de referência, Leben des Galilei – A Vida de Galileu.

Em 1949, com o apoio do governo da Alemanha Oriental, Bertolt Brecht fundou uma companhia de teatro a “Berliner Ensemble”, que apresentava principalmente as suas peças.

A divulgação da obra de Bertolt Brecht foi muito grande e naturalmente influenciou algumas gerações que na altura estavam ávidas de perspectivas diferentes. Porém, é importante conhecer os muitos meandros políticos, nomeadamente no caso Galileu, os quais conduziram à distorção dos factos da História da Ciência.

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