FRANCESES À VISTA!

FRANCESES À VISTA!
António Manuel Silva

São do conhecimento geral, e ainda hoje perduram na memória colectiva, alguns episódios da passagem dos franceses pelo território que hoje constitui a nossa freguesia de Cardigos.

Em Novembro de 1807, Portugal era invadido, pela primeira vez, pelas tropas do então senhor da Europa, Napoleão Bonaparte. O rei português havia recusado dar cumprimento ao Bloqueio Continental e mantinha as relações comerciais com a Inglaterra. Franceses e espanhóis assinaram o Tratado de Fontainebleau pelo qual Portugal seria dividido em três partes: Entre Douro e Minho seria entregue ao rei da Etrúria; o Alentejo e o Algarve seria entregue ao espanhol Godoy e o futuro de Trás os Montes e das Beiras seria decidido mais tarde. Para dar cumprimento ao estipulado em Fontainebleau, O imperador francês enviou JUNOT, à cabeça de cerca de 50.000 soldados, franceses e espanhóis, com o objectivo de anexar Portugal.

No dia 19 de Novembro de 1807, as tropas invasoras entraram na fronteira por Segura e rapidamente chegaram a Castelo Branco. Pelo caminho iam cometendo todo o tipo de atrocidades, desde roubar, matar, violar, destruir, saquear. Recorda-se que parte do pagamento imperial aos soldados era feito pelo saque e que o exército napoleónico, para se deslocar com maior rapidez, não possuía logística de apoio pelo que se abastecia com os bens que ia encontrando pelo caminho. Após uma curta estadia em Castelo Branco, as tropas franco-espanholas dividiram-se em duas colunas com destino a Abrantes, seguindo itinerários diferentes. Uma divisão, a 1.a, seguiu por Sarzedas, Ponte do Alvito, Catraia Cimeira, Talhadas, Sobreira Formosa, Proença a Nova (Cortiçada), Cardigos, Vila de Rei, S. Domingos e Abrantes. A 2.ª e 3:ª divisões dirigiram-se à Portela da Milheiriça (Perdigão), Venda Nova, Mação, Penhascoso, em direcção a Abrantes onde se reuniram à 1.ª.As tropas invasoras não encontraram, inicialmente, qualquer resistência porque o Príncipe Regente, o futuro D. João VI, havia decretado que “a defesa seria mais nociva que proveitosa, servindo só para derramar sangue em prejuízo da humanidade.”Assim, os invasores passaram precisamente por estes cabeços e por estes territórios sem aqui encontrarem qualquer oposição militar. A únicas dificuldades encontradas tiveram a ver com as vias de comunicação, “autênticos caminhos de cabras”, com os desfiladeiros, com o mau tempo (o inverno desse ano foi frio e chuvoso), a pobreza dos habitantes, as marchas forçadas a que os militares eram obrigados pelos oficiais, dada a urgência de chegar a Lisboa a tempo de aprisionar a Rainha e o Regente, D. João VI…Para se ter uma ideia do que foi o trajecto dessa 1.ª Invasão por este território, vale a pena recordar o que escreveram nas suas memórias alguns Generais franceses que integraram o exército invasor.

THIÉBAULT, General Chefe do Estado Maior de JUNOT (1917):

“ A 1.a divisão entrou em Sobreira Formosa com todos os seus homens em grande sofrimento e muitos deles descalços. As ordens eram severas mas as dificuldades eram tantas que os soldados penetraram nas casas e num instante a vila foi saqueada. Depois de esvaziar uma casa passavam à seguinte e escondiam-se em buracos por todos os cantos dando muito trabalho aos oficiais. A chuva caía copiosamente e a obscuridade era tanta que ninguém via o caminho, que era muito estreito tortuoso e difícil. (…) Muitos soldados caíam do alto das rochas e de todos os lugares se ouviam gritos prolongados, lúgubres gemidos que se misturavam com o barulho da chuva. É impossível conceber algo mais sinistro que a noite na Sobreira. (…) A cabeça da coluna chega à Sobreira entre as onze e a meia-noite mas só com um sexto dos homens que a compunham e, depois, os soldados arrastavam-se espaçados de 40 a 50 metros e mal se tinham de pé. A terra totalmente embebida de água tornava impossível a estes desgraçados sentarem-se e, mortos de fadiga, passaram a noite de pé com lama até aos joelhos e nem sequer podiam acender fogueiras. Muitos expiraram neste acampamento. Se estas tropas não tivessem encontrado bolotas com que se alimentavam um pouco, nunca teriam chegado à Sobreira. E ainda foi sorte encontrar castanhas nalgumas casas, em quantidade para distribuir algumas a cada soldado, mas os soldados que as comiam cruas tiveram indigestões. Valeu o mel que aqui há em abundância mas este causava diarreia à qual muitos sucumbiam. Depois da Sobreira (em direcção a Proença e Cardigos) apareceram mais alguns recursos, um ou outro boi, mas as torrentes continuavam profundas e violentas arrastando homens e cavalos e engolindo outros e a chuva não parava. Já não havia cavalos para puxar a artilharia e recorria-se a bois mas as peças eram muito difíceis de manobrar e caíam frequentemente nos precipícios. E arrastando-se, assim, lá chegaram a Abrantes.”

in Nova História Militar de Portugal, Vol. 5, Themudo Barata e Severiano Teixeira, Círculo de Leitores, p.94

O mesmo THIÉBAULT noutra passagem das suas memórias escreve:

“… independentemente da fraqueza da população desta parte da Beira Baixa o carácter dos seus habitantes merece uma atenção séria. Os amigos nada podiam esperar delas e os inimigos deviam esperar tudo. A sua miséria era mais um incentivo e se eles se reunissem para defender os seus desfiladeiros teriam parado um exército inteiro e anulado todos os esforços… Desgraçado do exército que, bem organizado e numa estação favorável, entrar em Portugal por ali sem vir bem munido de rações e sem tomar precauções variadas. Arrisca-se a incalculáveis desastres e quase de certeza a uma total destruição.”

No mesmo sentido escreve Pinheiro Chagas:

“ A exacerbação, o desalento, o desespero, a fadiga dos soldados quando chegaram à Sobreira Formosa, são impossíveis de descrever. Aqui, já não eram necessários nem um destacamento do exército, nem um troço de guerrilhas; bastava que os camponeses, armados de varapaus, caíssem sobre as divisões de Junot, para as destruírem completamente.”

Voltando a THIÉBAULT, ele escreveria ainda sobre este território:

“era tão fácil impedir a invasão que bastavam 2.000 soldados colocados na serra das Talhadas (antes de chegar à Sobreira Formosa) para aniquilar todo o exército francês”.

Não estava ninguém! A ordem era receber bem os invasores…E eles passaram. Sobreira Formosa, Cardigos, Vila de Rei, Abrantes… Melhor, foram passando. (Junot já estava em Lisboa, a 30 de Novembro, e ainda havia tropas francesas em Castelo Branco…) Saquearam, roubaram, violaram, destruíram casas, campos e igrejas… O povo fugia das povoações e só regressava depois das tropas passarem. Alguns ainda se organizavam e se vingavam massacrando alguns franceses que, doentes, feridos ou famintos se iam atrasando. Ficaram inúmeras histórias, mais ou menos verdadeiras, na memória colectiva das nossas comunidades. Memórias como a do “Francês da Fróia”, a do “Milagre do Santo Lenho”, a da “Campa do Francês”, a “Gruta da Raposa” no alto da serra de Santo António (Freixoeirinho) …Para se ter uma ideia de como seriam as nossas vilas e aldeias por esse tempo, socorro-me de um relatório que descreve a viagem da coluna do General Gardanne em 1810 entre Punhete (Constância) e Ciudad Rodrigo:

“Cardigos, Cortiçada e Sobreira Formosa não são mais que más aldeias com o título de vilas. São actualmente desabitadas e meio destruídas. Todo o território está cheio de matos e não se observam culturas se não à volta de pequenos lugarejos que se encontram em redor da estrada.”

“Em Cardigos e na Cortiçada não se encontram recursos nestes dois burgos que se encontram destruídos e devastados.”

A determinada altura o relatório refere que as tropas morriam de fome e foram obrigadas a desviar-se do seu caminho porque a Sobreira Formosa não oferecia qualquer recurso. Na primeira invasão, os invasores passaram pela nossa região no dia 22 de Novembro, a 23, pelas três horas da tarde, chegaram a Abrantes e a 30 a vanguarda entrou em Lisboa, pela porta de Arroios, pelas nove horas da manhã, comandada por JUNOT.

Um historiador descreve

“o aspecto horrível que esse bando de esfarrapados, de esquálidos, de estropiados e coxos apresenta, mais comovendo que irritando, mais desafiando a piedade que excitando o ódio. (…) Um cortejo de mendigos disfarçados de soldados…”

Tal foi o esforço da viagem pelos caminhos de cabras nas terras da nossa BEIRA! POR AQUI!(No alto da Serra do Santo, Freixoeirinho, na Buraca da Raposa, está uma inscrição que remete para uma espécie de refúgio da população face à 1.ª invasão. A data lá escrita (1800) não corresponde à passagem dos franceses que está datada sem qualquer sombra de dúvida em 1807. Certamente algum popular, na melhor das intenções, a escreveu mas torna-se necessária a correcção.)

FAZ HOJE 214 ANOS! QUE AFLIÇÃO DEVERIA TER SIDO!

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