Entrevista: “Todos os músicos da região passaram aqui”

Entrevista: “Todos os músicos da região passaram aqui”

Ele é Mário Cardoso, mais conhecido como Mário da Música. Ela é a esposa e dá pelo nome de Maria dos Prazeres Cardoso. Ele sempre teve o bichinho da música, ela mesmo com uma vida toda dedicada à música continua sem estar apaixonada pela área. Ambos vão fazer 40 anos de casados e já levam uma vida de 30 anos dedicada à música. Os responsáveis pelo projeto “ProençaMúsica” estão hoje na grande entrevista do Jornal de Proença.

Jornal de Proença (JP) – Qual é a vossa primeira lembrança a nível musical?

Mário Cardoso (MC) – Desde que eu nasci só pensei nisto. A minha mãe gostava de música o meu avô também tocava harmónica e eu depois explorei a harmónica e colecionava guitarras. E quando cheguei a adulto comecei a dizer que gostava de ir para o conservatório.

Maria dos Prazeres Cardoso (MPC) – Como ele gostava de música, no conservatório antigamente tinha que se fazer pré-requisitos, no tempo do Mário ele teve que passar por cinco pessoas para poder entrar porque havia a oferta de muitos alunos para lá. Ele disse que só ia entrar se tivesse a melhor nota, como teve uma boa nota foi obrigado a entrar.

JP – Depois disso e há 30 anos nascia então o “Proença Música”…

MPC – Sim! Iniciámos a atividade das lojas do “Proença Música” faz este mês, Outubro, exatamente 30 anos.

JP – Isto começou só com a abertura da loja ou iniciaram depois outros projetos?

MPC – Não! Tivemos muitos projetos envolventes. Demos aulas de música durante muitos anos. Chegámos a ter 200/300 alunos por ano. O Mário também sempre deu aulas de guitarra. O acordeão teve início com a nossa escola de música, e concertina a mesma coisa. Nós tínhamos, e ainda temos felizmente, clientes pelo mundo que nos compram instrumentos. Também a venda de CD’s e cassetes, eu tinha clientes que me ligavam a fazer as encomendas. Depois como Mário toca em vários lados sempre teve muitos conhecimentos e felizmente dá-se bem com as pessoas sempre tivemos clientes espalhados um pouco por todo o lado.

Mário Cardoso

JP – O projeto foi correndo tão bem que depois também tiveram necessidade de abrir outros pontos de venda!?

MPC – Sim! Abrimos em Proença há 30 anos e na Sertã, na Rua do Vale, possivelmente há 25 anos e depois na nova loja (em cima do Pingo Doce) estamos desde 2000. Os nossos clientes foram sempre pelo boca a boca. Fizemos alguma publicidade, mas foi sempre o cliente boca a boca que foi transmitindo. Como o Mário sempre teve na área da música também foi criando clientes.

JP – O Mário, a pouco em off, referia que muitos dos músicos da região passaram pelas suas mãos o que para si deve ser um orgulho?

MC – Muitos começaram aqui. Por exemplo o Marco Figueiredo tocava comigo e os instrumentos que ele tinha na altura era eu que os fornecia. A malta que tocava nos PopXula era tudo clientes meus. Malta que se iniciou, organistas, duos, guitarristas. Apoiei alguns grupos em Mação em Oleiros e eu é que fornecia os materiais todos. Depois a escola de Música já deu origem a outros indivíduos que aprenderam connosco e já davam aulas por conta deles. Deixe-me só dizer que na altura os discos era uma coisa louca. Nós no Natal tínhamos dias de vender 300 CD’s. Era uma coisa louca. Agora já não se vendem CD’s.

JP – Isso é outra questão interessante. Vinil, cassete, CD’s hoje em dia são coisas que já pouco se falam. Como é que se adaptaram a estas mudanças ao longo do tempo?

MPC – Temos que ir atrás deles. Tivemos sempre a dar aulas até a pouco tempo, neste momento já não. Mas vamos vendemos felizmente.

JP – O dar aulas também foi uma forma de equilibrar a balança?

MPC – Equilibra sim. O nosso objetivo principal é sempre educar os fihos da melhor forma. Essa era a nossa batalha principal.

JP – Falou aí nos filhos e pelo que sei houve um que seguiu as pisadas dos pais…

MPC – Fez conservatório 8 anos, em Castelo Branco, onde no oitavo grau de formação musical foi o melhor aluno. Entrou na ESART no primeiro ano com a melhor nota, mas como ele sonhava Universidade conseguiu entrar na Universidade de Aveiro. Fez a licenciatura em Aveiro e neste momento já tem mestrado feito em Londres.

MC – Deu aulas também no conservatório em Gouveia e em Londres.

MPC – E tocou com o meu marido durante 10 anos.

JP – Falou aí noutro ponto deste vosso projeto. Além da loja e das aulas o Mário também toca e canta. Isso nasceu também há 30 anos?

MC – Não nasceu antes até. Eu comecei a tocar quando comecei a dar aulas em 1988. Nessa altura pediam-me para ir tocar a qualquer lado. Depois em 91, em que abri a loja, é que eu também comecei em duo com o Marco Figueiredo, durante 10 anos. Eu já tocava antes, mas mais oficialmente foi em 88 quando comecei a dar aulas em Mação.

MPC – Teve também 10 anos com os filhos onde era “Mário e companhia” na mesma e onde a nossa filha também cantava.

Mário Cardoso com o filho João Cardoso e o músico Marco Figueiredo em 1991
Foto: Facebook Mário Cardoso

JP- 30 anos é quase uma vida! Devem ter imensas situações caricatas! Há alguma que possam partilhar connosco?

MPC – Temos muitas, em especial com boas relações que criámos de amizade. Pessoas nossas amigas que ainda hoje não se esquecem e que nos vêm ver nem que seja para dizer um olá. Mas temos muitas vezes grupos grandes onde aparece um problema de última hora e vêm ter connosco e nos pedem algo. O Miguel Ângelo, por exemplo, quando tocou em Proença teve um problema no teclado e veio pedir um emprestado. O irmão do Luís Represas ou o Nuno da Câmara Pereira são outro exemplo.

MC – Mas é capaz de haver outras caricatas como pessoas que não sabem tocar nada e querem começar a tocar no mesmo dia. Há um pouco de tudo.

JP- 2020 e a pandemia da COVID-19 trouxe uma nova realidade. O que é que mudou nas vossas vidas e como é que esta pandemia afetou todo este vosso projeto nas suas mais diferentes variantes?

MC – Não foi nada fácil! Nas lojas caímos 90% e em Proença tivemos mesmo que fechar a loja. E a tocar, quando começou a pandemia tinha uns 30 e poucos serviços e foram todos à vida e continuo sem os dar. Felizmente agora começam a aparecer várias coisas.

JP – A nível de apoios tiveram direito a alguma coisa?

MPC – Na primeira vez tivemos da Câmara Municipal de Proença-a-Nova, do Estado não. Só tenho a agradecer a quem me informou para me candidatar ao apoio da Câmara. Mas mesmo assim durante a pandemia ainda havia uma ou outra pessoa que queria uma concertina para se entreter, essa situação aconteceu agora na 2ª vaga. Mas já se nota alguma mudança ainda não é como era antigamente. Vai devagarinho e começamos a ver alguma luz no fundo no túnel.

JP – São 30 anos de muitas histórias muitas vivencias. Quais são os planos para os próximos 30?

MPC – Saúde que é o principal. A vida não é fácil, quem diz que é fácil mente. Só pedimos saúde e paz porque se Deus quiser vai sempre dando, não é mais é menos, mas vai sempre dando.

MC – Se me reformar e tiver saúde é continuar com este negócio e continuar a tocar. Só vejo isto nada mais.

Mário Cardoso canta “Os Putos” de Carlos do Carmo

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