Entrevista: “O futuro das serrações é uma incógnita”

Entrevista: “O futuro das serrações é uma incógnita”

Com 9 postos de trabalho, a Serração Luís Martins Catarino & Filhos, é a única do concelho de Proença-a-Nova que tem sobrevivido a todas as dificuldades sentidas no setor. O futuro é incerto, mas Teresina Catarino e Liliana Catarino, que fizeram uma visita guiada às instalações da serração, ao Jornal de Proença, não escondem o orgulho do trabalho desenvolvido até aos dias de hoje.

Jornal de Proença (JP): Vamos então começar pelo início de tudo. Como é que nasceu esta vossa empresa?

Teresina Catarino (TC): Este projeto foi o meu sogro (Luís Martins Catarino) que começou. Começou com uma serra a abrir umas tábuas, tudo manual com uma caldeira a vapor, e os filhos trabalharam sempre em conjunto com pai. Depois da morte do meu sogro ficaram os filhos a trabalhar e o meu marido comprou a parte dos irmãos ficando só nós a partir de 1981. O meu marido sempre quis deixar o nome do pai na empresa (Luís Martins Catarino & Filhos) e assim se tem mantido até aos dias de hoje. No total esta empresa deve ter os seus 60/70 anos.

JP: De lá para cá aposto que houve muitos momentos altos e baixos e, segundo sei, são a única serração do concelho, todas as outras já fecharam. O que é que vos tem mantido até aos dias de hoje?

Liliana Catarino (LC): Talvez a organização! E o facto de ser uma empresa familiar também acho que ajuda muito. Uma empresa pequena como esta e que em alturas de crise nunca houve grandes despesas, tivemos sempre o cuidado a nível de empréstimos bancários, a gestão financeira, e acho que isso é que nos fez, nas alturas piores, ir aguentando o barco, como se diz, e ir ultrapassando todas as barreiras.

JP: Tem sido um negócio rentável? Pergunto isto porque ultimamente se tem falado muitos nestas questões de floresta e da madeira.

LC: É assim vai dando, mas nota-se muito a falta da madeira, a chamada rolaria. Hoje em dia não há aquela rolaria grossa. Enquanto nós antes podíamos escolher e selecionar a grossa da mais fina hoje em dia não nos podemos dar a esse luxo. Nesse campo nota-se muito a dificuldade porque a madeira quando mais grossa mais rendimento dá, e hoje em dia isso não acontece.

JP: Acredito então que a questão dos incêndios deve ser para vocês uma grande preocupação…

LC: Sim, muito. A madeira é pouca, alguns fornecedores também já deixaram de trabalhar porque não compensava. Daqui a uns anos não sei se tenho madeira para trabalhar. Isto é tudo uma incógnita. O futuro das serrações são uma incógnita. E as pessoas quando plantam de novo, plantam eucaliptos que têm um rendimento mais rápido e o pinho não.

JP: Vocês só trabalham com madeira de pinho?

LC: Sim. Se bem que ultimamente devido a esta falta do pinho já temos trabalhado com algum eucalipto, mas não é a mesma coisa. E nem todos clientes aceitam porque o eucalipto, principalmente no verão, seca e parte mais. Não é tão bom como o pinho.

JP: No geral como é que é o dia-a-dia numa serração?

LC: Nós aqui não temos pessoal no pinhal a cortar, ou seja, vem-nos trazer a rolaria. Pesamos e pagamos à tonelada. Depois a madeira passa pela descascadeira, para tirar a casca, passa pela serra a cortar. Nós aqui a nossa madeira é toda desfeita para tabuas para os nossos clientes fazerem paletes. Toda esta madeira depois vai para exportação.

JP: Essa é outra pergunta que queria fazer. Para onde é que exportam essa madeira?

TC: Vai toda para Espanha, 100% para Espanha. A madeira serrada vai toda para Espanha.

JP: Nada fica então no nosso país?

LC: Não! Poderia ficar, mas não compensa. Os subprodutos é que ficam cá em Portugal. A serradura, a estilha e a casca isso fica cá.
TC: Estes são produtos, que antigamente não tinham saída nenhuma e hoje são uma das coisas tão ou mais procuradas que a madeira. A serradura e a estilha para as pellets está numa fase que é muito procurada.

JP: É um facto que se não houver madeira não há esses subprodutos. Mas esse interesse é para vocês também uma ajuda para manter o negócio?

LC: Sim. Dá para aproveitar tudo. Se um pau vem torto ou sobra um bocado vai tudo para estilha e sempre dá para aproveitar e ganhar mais algum rendimento.

JP: E essa madeira que chega aqui à vossa serração é proveniente de onde?

LC: Depende, temos fornecedores aqui do concelho de Proença, mas também vem de outros concelhos como Castelo Branco que ao passar por aqui deixam cá a madeira. Mas isto é também muito por fases. Há fases que há muita madeira e outras não, porque os fornecedores andam mais no eucalipto e aí tenho que ser eu a ligar e a dizer que preciso de rolaria.

JP: Essa falta de madeira que fala deriva dos incêndios ou há outro factor?

LC: Dos incêndios. A nossa zona era riquíssima em floresta, em pinho e pinho bom, e agora com os incêndios ardeu muito pinhal e como disse a pouco as pessoas não voltam a meter pinho porque demora 20 e poucos anos a dar corte enquanto que o eucalipto em 5 anos ou nem tanto dá rendimento.

JP: Tem tido algum tipo de apoio para com este setor?

LC: Não! As serrações no geral, a partir de 2008, tivemos que comprar uma estufa para fazer o choque térmico à madeira por causa do nemátodo. Recebemos um ano um apoio simbólico do Estado, porque tivemos que fazer o investimento da estufa. No nosso caso inicialmente era a gasóleo e atualmente é a gás e nós temos essa despesa que é para um combate a uma coisa que é na natureza. Porquê que temos de ser nós a suportar esse combate? Poderia haver aqui uma ajuda por parte do estado e não temos qualquer ajuda. Nunca tivemos nem do Estado nem do Município. Estamos aqui um bocado esquecidos.

JP: E mesmo assim nunca deitaram a toalha ao chão?

TC: Não! E lá está, tudo isto também nos dá um certo prazer o facto de até hoje termos conseguido superar as nossas dificuldades. Mas às vezes ficamos desiludidos porque vemos certas empresas a ter certas ajudas e nós aqui, que estamos cá há tantas anos e numa área tão fundamental para a região, não temos nenhuma ajuda.

JP: Atualmente os tempos não estão fáceis e não se prevê grandes melhorias. E com todas as dificuldades já identificadas quais são as perspetivas para o futuro?

LC: Olhe, perspetivas, isto é, um pouco um dia de cada vez. É como lhe disse a pouco: a crise da madeira e o não haver rolaria é a maior preocupação das serrações porque não sei até quando vai haver madeira suficiente para trabalhar. Mas vamo-nos mantendo e queremos continuar a manter a fábrica.

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