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Entrevista: “Não podemos confundir as pessoas da Igreja com a Igreja”

Nomeado a 8 de Setembro de 2008 bispo da Diocese de Portalegre-Castelo Branco pelo Papa Bento XVI, Antonino Dias tomou posse a 7 de Outubro e fez a sua entrada solene a 12 de Outubro de 2008. Na Diocese há 15 anos e a realizar mais uma visita pastoral ao Arciprestado da Sertã, Antonino Dias, que esteve pelas Paróquias de Proença-a-Nova, Peral e São Pedro, esteve à conversa com o Jornal de Proença. O balanço dos 15 anos como Bispo, a resignação ao cargo que chega com os 75 anos de idade e os casos de abusos sexuais dentro da Igreja. Antonino Dias, Bispo da Diocese de Portalegre-Castelo Branco está hoje na grande entrevista do Jornal de Proença.
Jornal de Proença (JP)- Faz este ano 15 anos que o Sr. Bispo chegou à nossa Diocese. Ainda se lembra da chegada?
Antonino Dias (AD) – Sim, lembro-me bem da chegada! Eu tomei posse no dia 7 de outubro e depois entrei no dia 12 que era Domingo. Veio muita gente de Braga e de Viana e foi um dia de festa.
JP – O que é que o surpreendeu mais quando chegou?
AD – O que me surpreendeu mais foi vir muita gente à minha chegada e depois foi o facto de também ter um acolhimento muito bom em Portalegre e depois no Domingo seguinte em Castelo Branco. Também estavam há muito tempo sem Bispo e ansiavam que chegasse. E pronto cheguei eu vindo de Braga, estive lá oito anos. Fui nomeado em 2000, fui ordenado Bispo em janeiro de 2001 e estive lá estes oito anos com uma atividade muito intensa. Braga tem a tradição de ter dois bispos auxiliares até que sai e aqui estou nesta Diocese já vai para 15 anos.
JP – Em 15 anos acredito que tenham sido muitas as vivências. Há alguma que o tenha marcado?
AD – De todo o tempo em que aqui estou eu gosto muito das visitas pastorais. Estas colocam-nos muito em contacto com o povo, no meio do povo e também no meio das situações em que os senhores padres trabalham. Colocam-nos também em contacto com todos os colaboradores, que são sempre muito importantes, e o Bispo tem sempre essa palavra de apreço para com eles. Os senhores padres, se não fossem os colaboradores que têm nas paróquias, podiam fazer pouco até porque também eles são poucos.
JP- Interessante falar das visitas pastorais porque, segundo sei, uma das suas preocupações assim que chegou à diocese foi conhecer logo a nossa realidade.
AD – Sim. Eu cheguei em outubro de 2008 e em 2009 comecei logo a fazer a visita. Depois da primeira volta não parei. Fiz tudo! Depois de ter percorrido toda a Diocese comecei a fazer só de 5 em 5 anos. Os arciprestados são 5, os documentos da Igreja, as indicações, apontam que pelo menos de 5 em 5 anos o Bispo visite todas as comunidades da Diocese e é isso que estou a cumprir.
JP – Tinha noção desta nossa realidade? Viana e Braga são Dioceses com dinâmicas muito diferentes.
AD – Sim, as dinâmicas são diferentes, mas a adaptação foi fácil. Eu também fui pároco e sei muito bem o que é isso da Pastoral Paroquial e da dinâmica paroquial que se pode ter e como se deve ir fazendo. Fui adaptando-me. Reconheci que de facto na Beira Baixa a frequência é um bocadinho maior, há uma outra dinâmica no Alto Alentejo, mas as pessoas também participam na medida do possível.
JP – Umas das coisas que sempre o ouvi dizer é que «são mais o número de funerais de sacerdotes que faz do que ordenações». Como é que se gere uma toda uma Diocese, que é vasta e dispersa, e com esta crise de vocações em que não há sacerdotes e os que há muitos já tem o peso da idade em cima!?
AD – Essa é a dificuldade maior mas a Igreja se é humana é vivida e é animada pelo Espírito e o Espírito Santo atua, vai inspirando e ajudando a resolver estas situações. Quando eu cheguei, passado uns tempos, o Senhor D. Augusto César disse-me: «eu não sei como é que tu consegues resolver as situações porque eu já me via aflito». Vamos resolvendo e resolvendo da maneira que é possível. Desde que cá estou só ordenei três padres, o Padre Miguel, o Padre Nuno Silva e o Padre André, e já fui ao funeral de mais de 50. Isto representa muito nesta Diocese em que a população pode não ser muita, mas a dispersão é muito grande. E por isso para ajudar, para estar, para colaborar com as comunidades exige-se a presença dos padres.
JP – Os Leigos podem ter aqui um papel importante?
AD – Não só podem ter como já o têm. Eu tenho procurado sempre dizer que a Evangelização se faz com os Leigos ou então não se faz. Eles têm também de descobrir a sua forma de participar e colaborar com os padres e todos caminharem juntos. Se houve na Igreja um tempo em que os Leigos foram muito dispensados, porque havia sacerdotes, e atenção que essa dispensa nunca deveria acontecer, mas aconteceu, hoje não é tanto assim. Nem os senhores padres têm tempo para programar sozinhos o que quer que seja, nem a pastoral hoje pode ser programada por nós de forma a ser implementada. A Pastoral hoje tem de ser partilhada com todos, ver o que é preciso falar e programar, ver as estratégias, os conteúdos para que as pessoas também se corresponsabilizem. E o programa que se faz ter a sua participação e colaboração de todos.
JP – Os jovens têm também um papel fundamental, mas este ano com grande destaque. A menos de 100 dias das Jornadas Mundiais da Juventude, como é que está toda esta vivência e preparação?
AD – Tem havido um trabalho imenso do COD – Comité Organizador Diocesano bem como do Secretariado da Juventude que se associaram nessa dinâmica. Tem havido um trabalho intenso e uma persistência muito grande porque este trabalho tem duas dimensões: a primeira é como acolher os que vão viver aqui nos dias antes das Jornadas e depois o trabalho de fazer com que os nossos participem. Não seria bom se tivéssemos preocupados em receber os que chegam e os nossos não participassem. Todo este envolvimento, todo este trabalho não seria muito produtivo se não ficasse qualquer coisa para além das Jornadas.
JP – Esse é um grande desafio ao teme que depois das Jornadas todo este espírito que está no ar possa desvanecer?
AD – É possível que desvaneça um bocadinho, mas esta é a aposta. E é nisso que temos de estar atentos e procurar ver quais são os caminhos para darmos continuidade a toda esta iniciativa que é importante. É um momento de graça a nível nacional e mundial.
JP – Os 75 anos é a idade determinada pelo Código Canónico para que os bispos apresentem ao Papa o seu pedido de resignação. O Sr. Bispo vai fazer em Dezembro deste ano os 75 anos. Resigna? Não resigna? O que é que vai acontecer depois de Dezembro de 2023?
AD – Faço 75 anos em dezembro, é verdade! A minha obrigação é pedir a resignação ao Santo Padre e depois ele aceitará e virá outro! Essa é a situação normal das coisas.
JP – Mas segundo sei é um processo que pode demorar bastante tempo, temos algumas dioceses atualmente sem Bispo.
AD – Sim, há aí algumas Dioceses à espera de Bispo, e algumas há muito tempo. Eu sou da opinião que chegando à idade se devia substituir o Bispo porque não é bom nem para a Diocese nem é bom para o Bispo. Ficam ambos pendurados e por isso sou da opinião que deviam de ser substituídos o quanto antes. A Diocese fica à espera, mesmo que o Bispo possa estar válido, fica sempre a expectativa de quando vem outro.
JP – Espera então que seja um processo simples e rápido?
AD- Eu gostaria que fosse, mas pelo que estamos a ver não será assim tão rápido como gostaríamos. O processo de nomeação de bispo também tem as suas voltas onde são ouvidos leigos, sacerdotes, são ouvidas muitas pessoas.
JP – Mas está disponível para continuar até que o processo esteja encerrado?
AD – Eu não tenho outra hipótese. Não a desejo, mas não tenho outra hipótese.
JP – Nos últimos tempos há um assunto que tem sido bastante polémico. Falo do caso dos abusos sexuais na Igreja. No comunicado que fez diz que “foram identificados 5 alegados abusos sexuais na nossa diocese. Dois dos casos é identificado o nome do abusador, pessoas que já faleceram. Tinha conhecimento destes casos ou só teve conhecimento dos mesmos pelo Relatório da Comissão Independente?
AD – Só depois do relatório! Só depois do relatório e nem conheci os padres até porque como dizia o mesmo comunicado um faleceu na década de 60 e o outro na década de 80. Mas sim havia dois nomes indicados e havia referências a um ou outro abuso, mas não se sabia quem era o abusador.
JP – No mesmo comunicado afirma ter tido conhecimento recentemente “de um alegado abuso por parte de um leigo”. Afirma também “tolerância zero” a este tipo de comportamentos. Como é que está todo este processo e que medidas foram implementadas?
AD – O processo está no Ministério Público. O suspeito não era uma pessoa que tivesse qualquer tipo de cargos era uma pessoa voluntária, a quem se abriu as portas nas melhores das intenções, mas depois de chegar a suspeita o caso foi logo para o Ministério Público.
JP – Como é que olha para todas estas situações?
AD – Nunca pensei existisse, ingenuidade minha! Agora, custa aceitar e surpreende até porque a Igreja não é isto!
JP – Mas foi a própria Igreja que pediu este relatório. Acha que a Igreja não estava preparada para tudo isto?
AD – Qualquer caso é mau! Mas da minha parte não esperava que houvesse tudo isto! Depois a investigação que se fez também foi desde 50 para cá e os nomes dos padres que apresentaram muitos já faleceram.
JP – E a igreja não devia ter respondido toda da mesma forma? Porque nem todos os Bispos tiveram a mesma atitude na forma como agiram perante toda esta situação.
AD – Eu penso que há também uma má interpretação das coisas. Cada Bispo é que tinha que dizer aos seus diocesanos, eu pelo menos senti-me nessa responsabilidade de dizer se havia vítimas e se havia abusadores.
JP – Certo! Mas aqui na nossa Diocese não tinha nenhum padre suspeito no ativo. Há padres suspeitos que estão no ativo. Há Bispos que os afastaram e outros que não os afastaram.
AD – Isso também foi esclarecido. Eu acho que as Dioceses agiram, e já tinham agido. Grande parte desses casos que agora surgiram já tinham tido um processo e alguns deles já estavam até condenados pela Santa Sé. Houve de facto muito barulho, mas no fundo os Bispos já tinham tomado as suas atitudes conforme aquilo que lhes era devido.
JP – Como é que a Igreja se reergue depois disto?
AD – A Igreja somos todos nós! A Igreja não são os Bispos nem os padres! A Igreja são os batizados, é o povo de Deus. Temos todos que reagir. Não podemos confundir as pessoas da Igreja com a Igreja.
JP – Mas compreende que muitas pessoas se tenham, ou venham a afastar e perdido a confiança? A Igreja, em particular os Sacerdotes são aqueles que devem dar o exemplo.
AD – Sim, isso pode acontecer e acontece. Mas as pessoas que amam a Igreja e têm fé sabem revelar isso embora fiquem tristes e pesarosas. E o exemplo somos todos nós que o devemos dar, embora os sacerdotes tenham essa maior responsabilidade.
JP – Que balanço faz destes 15 anos na nossa diocese?
AD – Um balanço positivo! Nunca ficamos totalmente contentes com o que foi feito mas fizemos aquilo que podemos inclusive desenvolvemos um sínodo diocesano. Vou na quarta visita pastoral aos arciprestados e fomos procurando programar as coisas não numa linha de manutenção mas que possa provocar as pessoas para uma caminhada mais forte no aprofundamento da fé.
JP – Tenho uma última pergunta. Confesso que é uma pergunta que trago comigo há muito tempo. Olhando para tudo o que fomos falando, olhando para o dia-a-dia da nossa sociedade e olhando para a própria Igreja: recorrendo ao Sermão de Santo António aos Peixes “é o sal que não salga ou é a terra que não se deixa salgar?”
AD – É capaz de ser as duas coisas! Às vezes nós também não saberemos vender bem o produto, ou seja, não fazer passar bem a mensagem. É também preciso uma certa arte e habilidade em fazê-lo. Mas também pode acontecer que do outro lado o terreno também não esteja bem preparado para acolher a semente. Ambas as coisas estão ligadas. Mas nós não podemos desistir pelo facto do terreno não estar preparado. Agora temos é que fazer aquilo que está ao nosso alcance que é prepararmo-nos cada vez melhor para fazer passar a mensagem.
