Entrevista: Mário – O Palhaço que também é artesão

Entrevista: Mário – O Palhaço que também é artesão

Jornal de Proença (JP): O Mário, o Faísca e o Robalo são três pessoas numa só. Hoje em dia em Proença se falar no Faísca grande parte já conhece. Mas e o Francisco? Quem é o Francisco?

Francisco Mário (FM): Eu sou o Francisco Mário, sou de Lisboa, nascido em Campolide. Os meus primeiros passos imaginários foram dentro do grupo cénico da Carris. Entretanto fui escuteiro, passei toda a minha vida de escutismo até dirigente. Ali pelo meio, entre as atividades e o basquetebol da Associação de Campolide, entrei para o grupo de teatro, que era um grupo de teatro de intervenção antes do 25 de abril. Após o 25 de Abril, eu continuei sempre em Campolide, mas o bicho do teatro andava sempre comigo, e é então aí que entro para o grupo de teatro da Ádóque, no qual nasce a peça “Os operários de Natal”. A partir desta altura começa então a nascer o Faísca. Francisco é sempre o meu nome de batismo. O Mário vem da parte do meu falecido pai, que também era Mário, e depois então vem o Faísca.

JP: Nasce então o Faísca, mas segundo sei há uma explicação para o nome “Faísca” certo?

FM: Sim há uma explicação para esse nome. Antes do 25 de Abril, no grupo de teatro de Campolide tínhamos a chamada censura, o lápis azul. Eu era muito jovem, tinha 15/16 anos, e fazia a parte técnica de luzes. E as luzes é que comandavam os autores quando não podiam dizer as ditas frases. Perante isto, que era uma situação muito tensa, a nossa estreia era sempre um espetáculo para a censura, um dia perdi-me completamente no texto e fiquei tão nervoso que criei um curto-circuito. E nessa altura o encenador levantou-se e gritou Faísca. Na altura ninguém foi preso, mas eu fiquei o Faísca, e é então que nasce o Faísca.

JP: Essa questão do espetáculo sempre foi uma coisa que o acompanhou desde pequeno?

FM: Sim desde pequeno e que fui alimentando e fui aprendendo sem escola. Por exemplo eu era garoto e a PSP fez um filme que era “Os 9 rapazes e um cão” e eu era um dos 9 rapazes. E aí foi aquele encanto, eu tinha uns 5/6 anos, e aquilo ficou-me. Foi ao entrar nesse filme que me levou a entrar no grupo cénico da Carris.

JP: Mas no meio de tudo isto estudou engenharia. Era um plano B, para o caso de o espetáculo não resultar, ou o espetáculo era só uma ocupação de templos livres e a engenharia o plano A?

FM: Eu quis saber mais em termos de eletricidade de profissão de segurança. Cheguei a ir para o técnico e cheguei mesmo a trabalhar como engenheiro técnico, com várias formações e tudo e o que isso envolve. Mas há um dia que tenho um acidente e digo a mim mesmo “alguém está a chamar-me eu tenho que ir é para o espetáculo e fazer rir crianças e gente da terceira idade”. E foi nessa altura que voltei para o espetáculo. Na minha paragem eu queria mesmo especializar-me na parte técnica. Alias no meu próprio espéculo, ainda hoje, eu adapto, por causa dos custos para não ser financeiramente tão pesado, eu faço a própria personagem, eu sou o palhaço, eu sou o técnico.

JP: Falou que esse acidente o fez querer fazer rir os mais novos e com mais idade. Nós temos muito a ideia que o palhaço é quem faz rir mas atrás do palhaço há um homem. Como é que se faz rir os outros nos dias em que não nos apetece rir?

FM: É um grande exercício que eu tenho que fazer psicologicamente. Por exemplo eu quando vou ao IPO, e tenho uma criança que sorri apesar de tudo o que está a passar, e ao sair chego cá fora e todos reclamam por um lugar para entrar no autocarro eu fico danado. Normalmente fico assim uns dois dias em baixo em casa. Ouço a minha música clássica, apanho as minhas energias e falo com a minha mãe natureza. A própria música dos palhaços, que já foi feita há 42 anos, diz que dentro de um palhaço há um homem e um homem que chora também. Aliás eu quando faço a minha maquilhagem eu marco sempre a altura do choro. Temos que moldar a personagem à mensagem que queremos dar. Eu antes do espetáculo tenho que estar sempre uma hora em concentração. Ou estou bem disposto e tenho que colocar a minha disposição para 50% ou estou maldisposto e tenho que tirar 50% desse maldisposto. O meu espetáculo, o mesmo espetáculo, é sempre diferente.

JP: São quase 40 anos de Faísca. Alguma vez imaginou, porque o ano de 2020 trás aqui uma grande mudança devido à pandemia de Covid-19, que teria de se reinventar e surgir com novos projetos como o de artesão?

FM: Não! Eu vim para o interior, a minha companheira é daqui só podia trabalhar em casa. Eu passou uma semana, 15 dias e começo a questionar muitas coisas. É então que comecei a olhar para os braços das árvores e começo a fazer algumas peças. Comecei primeiro a fazer a cruz das nossas vidas, o crucifixo. Fui começando a comprar algumas ferramentas, as pessoas começaram a pedir umas coisas e as coisas foram involuindo. Do palhaço já vou no artesão e já estou há 3 anos como artesão tendo feito já algumas feiras.

JP: É também uma forma de chegar às pessoas?

FM: Sim! O artesão nasce aqui!

JP: Mas não quis associar o nome “Faísca” a essa área, nascendo assim o “Robalo”….

FM: Sim! Robalo porquê? Eu sou Robalo, o meu avô Robalo e o meu falecido pai o Robalo. Então não quis meter Mário Faísca porque já estava ligado ao palhaço, comediante e ator. E decido meter o Mário Robalo em homenagem ao avô e ao pai.

JP: Perspetivas para o futuro?

FM: Para o futuro olho com muita calma, muita serenidade porque quando eu projeto as coisas ou vem uma pandemia ou vem outra coisa qualquer. É um dia de cada vez, estou nessa fase da vida. A mãe natureza é que sabe como é que isto funciona. Eu só tenho de estar com a cabeça limpa e com força e energias para tudo o que a natureza nos der nós avançarmos.

JP: Se das três tivesse que escolher apenas uma qual escolhia: o engenheiro, o palhaço ou o artesão?

FM: O palhaço!

JP: Porquê?

FM: Porque já tem os estudos do engenheiro e por sua vez a sensibilidade para o artesão.

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