Entrevista: “Manter isto em pé já é uma vitória muito grande”

Entrevista: “Manter isto em pé já é uma vitória muito grande”

Há 45 anos presentes na Rua de Santa Cruz, a loja pronto-a-vestir “Ruclar” é provavelmente das mais antigas lojas do concelho de Proença-a-Nova. O espaço que inicialmente era um café, depois passou para um modelo misto café vs pronto-a-vestir e atualmente só pronto-a-vestir mantém até hoje as portas abertas. Maria Pereira e Alfredo Farinha, responsáveis pelo espaço, fazem ao Jornal de Proença o balanço destes 45 anos de existência.

São 45 anos deste vosso pronto-a-vestir! Como é que tudo isto começou?

Isto tudo tem um começo de facto! Isto começou com muitos problemas para nós, porque inicialmente aqui existia um café e tivemos que fazer obras para transformar o café em pronto-a-vestir e essa transformação também não foi fácil e custou muito dinheiro, coisa que na altura não havia. Depois de vencer essa batalha comecei a trabalhar com a minha mulher, a minha filha mais velha, que na altura já ajudava também, empregados não tínhamos e foi assim que continuámos e que fomos vencendo numa primeira etapa.

Mas segundo sei não fechou logo o café. Fez aqui um misto de café e pronto-a-vestir, talvez uma coisa rara para a altura.

Sim! Foi o primeiro café cá em Proença e eu na altura resolvi fechar. Mas depois decidi dividir o espaço, comecei com o café num lado e o pronto-a-vestir no outro. Uma situação que na altura até me ajudou bastante, porque uma coisa ajudou a outra. Mais tarde, como não estava habituado à vida de café, embora na altura estar a dar resultado, mas aturar certas pessoas é difícil, ao fim de meia dúzia de anos acabámos com o café e dedicamos nos só ao pronto-a-vestir. Os primeiros 20 anos não posso dizer que foram maus. Com muitas dificuldades, mas houve sempre trabalho. Comprava-se, vendia- -se e havia movimento. A partir de dada altura a coisa começou a ser diferente com a concorrência e outros que foram aparecendo.

Que diferenças é que nota desses tempos iniciais para os dias de hoje? O que é que foi mudando para haver essa diferença dos primeiros 20 anos para agora?

Mudou porque a vida mudou no geral para todos. E com as grandes superfícies que apareceram, com os mercados ambulantes com tanta concorrência que foi aparecendo o negócio começou a dividir-se por todos. A partir daí o negócio começou a baixar e continua a baixar cada vez pior. Neste momento, e derivado também à situação que temos, e o COVID já foi muito mau para nós, porque além do tempo que tivemos fechados e não fizemos negócio, as pessoas desapareceram. Alguns voltam, mas outros não voltaram mais. E depois há outro pormenor que hoje é muito habitual: as pessoas gostam muito de ir comprar fora. Às vezes vão comprar mais caro, tem mais por onde escolher, e isso desvia também muito as pessoas. Isto tem a tendência de piorar e a prova está que aqui num espaço de 100 metros existiram mais de 10 casas e estamos aqui apenas dois, o resto já desapareceu tudo.

E ao fim de 45 anos o que é que ainda o mantém aqui de portas abertas?

Olha em primeiro é ter saúde e depois é ter a ajuda da mulher porque sozinho eu também não conseguia. Ela foi sempre uma grande ajuda em tudo e isso tem uma valência muito grande. E depois também já não é tanto pelo que se faz, mas mais pelo gosto desta profissão e uma forma de ter uma ocupação para o dia-a-dia. Alguns reformaram-se e deixaram de trabalhar, vão ou para o café ou passear, e eu entendo que isso não é vida. Eu gosto de ir ao café, mas não para “fazer sala”. Portanto tento manter a loja enquanto poder e até quando não tiver que meter dinheiro do meu bolso, que é o que está já a acontecer para manter isto. Se aparecesse alguém que me comprasse isto, se calhar até entregava.

A sua vida foi sempre ligada a este ramo?

Sim, desde sempre. Eu trabalho atrás de um balcão de comércio desde os 15 anos, já lá vão 70 anos.

Tem pena que este seu trabalho não tenha uma continuação ou achas que com todas estas mudanças que já falou este tipo de lojas tem os dias contados?

Acho que não. Coisas pequenas as típicas boutiques, com 5 anos com ajuda do estado é natural que venham a aparecer algumas. Agora casas deste tipo para manter tenho a impressão que já não vai haver mais. 45 anos já é muito tempo.

Se tivesse que definir esses 45 anos numa palavra, que palavra escolhia?

Foram 45 anos bons. Foram 45 anos a fazer aquilo que gostava. Sinto-me realizado e continuar a manter isto em pé já é uma vitória muito grande.

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