Disto e daquilo: Doutores e engenheiros

Disto e daquilo: Doutores e engenheiros
Cecília Rezende – Escritora

Diz-se que Portugal é um país de doutores e engenheiros. Se entendermos por isso que existe em Portugal um grande número de licenciados em cursos superiores não é verdade, porque ainda estamos abaixo da média europeia, embora esse número tenha vindo a aumentar. Num falar popular, designa gente rica ou pelo menos a ganharem bem: isso é só para doutores e engenheiros. Comparada com outras línguas, nomeadamente o francês e o inglês, a língua portuguesa tem uma grande variedade de formas de tratamento, sobretudo no que diz respeito às mulheres: senhora, senhora dona, dona, tia. Este último, tia, era uma forma usada sobretudo nas aldeias. Compreende-se: toda agente se conhecia, havia entre todos um grau de afetividade, portanto tio e tia era como se os mais velhos fossem da família e os mais pequenos uma espécie de sobrinhos. O uso de senhora já indicava alguma consideração social e dona, então, era só reservado a uma elite. Não era tratada por dona quem quisesse. As convulsões sociais, como as revoluções, mudanças de regime político, trouxeram sempre mudanças na forma de tratamento. A Revolução Francesa estabeleceu uma única forma de tratamento: cidadão e cidadã. Acabou-se com majestade, marquês, marquesa e outros títulos de nobreza para os nobres e dame (dama) e sieur( senhor) para os plebeus. Quando o rei Luís XVI foi condenado à morte, foi condenado como cidadão Luís Capeto e não como Rei Luís XVI. Mas este tratamento de cidadãos e cidadãs, durou apenas os dez anos da Revolução. Quando Napoleão instituiu o Império, criou uma nova aristocracia atribuindo títulos de nobreza aos seus generais. Para o povo a igualdade continuou, mas agora nivelando por cima. Já não apenas sieur e dame, mas monsieur e madame, títulos antigos dos irmãos do Rei. O mesmo aconteceu com a Revolução Russa, em que a infinidade de títulos de nobreza foi abolida e todos tratados por camarada, equivalente a senhor/ senhora. E por cá? Por cá também tivemos dois momentos históricos que influenciaram a forma de tratamento. O primeiro foi o triunfo da monarquia liberal. A rainha D. Maria II atribuiu de forma abundante os títulos de barão e de visconde a figuras que se distinguiram na Guerra Civil. Foi tal a profusão destes títulos que o povo ridicularizou-os com um dito bem engraçado: foge cão que te fazem barão; ao que o cão responde: para onde? se me fazem visconde. E as mulheres não ficaram esquecidas: toda a senhora que usasse chapéu tinha direito a ser tratada por dona. Segue-se a República em outubro de 1910. De imediato são abolidos todos os títulos de nobreza, mas em compensação são criados e atribuídos os títulos académicos. São os valores e ideais da República. Valoriza-se o mérito e não o nascimento. O mérito deve estar ao alcance de todos. Por isso, logo em 1911, são criadas as Universidades de Porto e Lisboa, pondo termo à exclusividade do ensino superior ministrado apenas na Universidade de Coimbra. E, por decreto da República, todos os graduados pelas universidades devem ser tratados por doutor. Na língua escrita, faz-se uma distinção: os licenciados usam antes do nome apenas Dr. enquanto os que possuem doutoramento escrevem Doutor por extenso. Pode-nos parecer hoje um pouco bizarro, mas, na verdade corresponde aos ideais republicanos: valorizar o conhecimento, colocá-lo ao alcance de todos e dignificar aqueles que o ministram. O tratamento de Professor passou a ser dado aos professores catedráticos e aos da instrução primária, que deixaram de ser o mestre-escola para serem o senhor professor. E toda a mulher que tivesse um curso teria direito a ser tratada por dona. Hoje tudo está baralhado e pouca gente sabe ou se lembra que as formas de tratamento são da alçada do governo. Até mesmo a maneira como se escreve o endereço num envelope em carta enviada pelo correio. Ainda me lembro de ver essas indicações nas antigas Páginas amarelas. Claro que hoje ninguém perde tempo a escrever Ex.mo Senhor/a; vai apenas o nome e pronto. A propósito do tratamento de doutor dado todos os graduados pelas Universidades: os títulos de Arquiteto e Engenheiro que, sendo igualmente licenciados por universidades, não são tratados por doutor. No entanto os seus títulos são académicos, embora coincidido com as respetivas profissões. Há uma explicação: esses cursos eram ministrados pela Escola Politécnica, criada, em 1837, por Sá da Bandeira, Ministro da Guerra de D. Maria II. A Universidade de Coimbra, como tinha a exclusividade do ensino superior, não consentiu que fosse criada qualquer outra universidade.  Tivemos de esperar pela República. É curioso também o que se passa com o tratamento por doutor, em comparação com outras línguas, nomeadamente com o francês e o inglês, em que doutor é sinónimo de médico. Em português, só na língua popular, é que isso acontece: vou ao doutor. E compreende-se. Muitas pessoas, uma maioria, o único doutor que consultam é o médico. Nos Estados Unidos, é usual acrescentar M.D, doutor em medicina para se distinguirem doutros graduados. É muito curioso o que se passou. Na língua francesa, o tratamento de Madame era dado apenas às senhoras casadas e Mademoiselle às senhoras solteiras mesmo que tivessem oitenta anos. E era um pouco confuso quando nos dirigíamos a uma senhora saber como tratá-la, não se ia adivinhar se era casada ou solteira. Então, se nos dirigíssemos a uma senhora de provecta idade tratando-a por Madame, imediatamente ela nos corrigia. Até que, não sei exatamente quando aconteceu, talvez mais ou menos há vinte anos, saiu um decreto do respetivo Ministério instituindo que, a partir dos 25 anos, toda a senhora casada ou solteira devia ser tratada por madame. As formas de tratamento são força de lei.

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