Disto e daquilo: A Guerra

Disto e daquilo: A Guerra

Imagem: istoe

Cecília Rezende – Escritora

«É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro». 

Nada mais oportuno, no momento atual, do que este texto do Padre Antóno Vieira extraído do sermão pregado em 1640, na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Baía. Trata-se do sermão intitulado Pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. A cidade estava a ponto de cair sob o jugo holandês, e o Padre António Vieira, com todo o seu talento, toda a força da sua eloquência, quer reanimar os brios dos Brasileiros. Mas vamos esquecer o sermão em si mesmo e olhemos para o texto como uma definição perfeita do que é a guerra. Apliquemo-la à guerra que nós acompanhamos em direto, através da televisão e vemos que as metáforas empregadas pelo Padre António Vieira não poderiam ser mais realistas:

A guerra é o monstro que se sustenta das fazendas, do sangue e das vidas. A guerra é a tempestade que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, reinos e monarquias inteiras.

É isto que sempre aconteceu, ao longo da História da Humanidade. Mas estudar as guerras nos livros de história, causas, consequências era coisas do passado. Mas vê-la, assistir à destruição massiva que nos mostra o Padre António Vieira, nunca tinha acontecido. Mas se assistimos ao que a humanidade faz de pior, também estamos a assistir ao que a mesma humanidade tem de melhor: um movimento de solidariedade como nunca se viu. Um movimento da mesma grandeza da barbárie que o provocou. É assim o Homem: capaz do maior horror e capaz da maior abnegação.

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