Disto e daquilo

Disto e daquilo

Dia de Reis

Cecília Rezende – Escritora

Uma das mais gratas recordações da minha infância é o dia de Reis. O cortejo de Reis era para mim um deslumbramento. Toda a gente participava, e era sempre muita gente, entre homens, mulheres, como sempre, mais mulheres do que homens, e crianças, todos vestidos conforme a sua fantasia ditava. Ou de damas antigas ou de personagens populares, ou históricas, as Rainhas Santas nunca faltavam, carregando as suas ofertas que depois eram leiloadas, no adro da igreja. Eu lembro-me de ter ido uma vez vestida de vendedeira, com um galo à cabeça dentro de uma cesta tapada com uma rede para que o galo não fugisse, mas que se visse bem que era um galo. O melhor de tudo eram os três reis a cavalo, imponentes, à frente do cortejo. Os produtos que se levavam eram presentes que o povo dava à igreja, tal como os Reis Magos deram os seus presentes ao Menino: ouro, incenso e mirra. Muita coisa li sobre o simbolismo dessas três ofertas. A que mais me agrada é a que a minha avó me explicava: ouro, porque o Menino era rei, incenso porque era Deus e mirra porque era homem e, portanto, sujeito à morte. Com efeito, os corpos dos mortos, antes de serem sepultados, eram limpos com óleos e mirra. Mas quem eram estes Reis Magos? Só Mateus é que fala neles e conta a história que todos conhecem, com a visita a Herodes, e todas as consequências trágicas que daí advieram. Os outros evangelistas pouco dizem da infância de Jesus e portanto não narram este episódio. Mas quem são esses Reis Magos? Historiadores e teólogos estudam-nos, mas não há certezas. Apenas hipóteses, por parte de cientistas, e interpretações doutrinárias por parte dos teólogos. Para a religião católica, o dia 6 de janeiro é a Epifania do Senhor. Epifania é palavra grega que significa aparição, manifestação. Deus ter-se-ia manifestado aos outros povos que não eram judeus. Por ocasião do Seu nascimento, Jesus manifestou-se a um círculo restrito de judeus: os pastores, e Maria e José, Seus pais. Os Reis Magos vindo do Oriente longínquo significam que a mensagem trazida por aquele Menino era para toda a humanidade. Assim o diz Bento XVI no seu livro A Infância de Jesus. Tal como hoje, mais de dois mil anos passados, essa mensagem continua cada vez mais atual. E, sempre que dizemos uma data, ela é dita em referência ao nascimento de Jesus, que curiosamente se situa 6 ou 7 anos antes de Cristo, como é aceite por teólogos e historiadores. E a estrela? Não há presépio que a não tenha, mais toda a iconografia dedicada ao Natal, sem esquecer as decorações natalícias.

Que estrela era essa que os astrólogos do rei Herodes não viram e foi vista na longínqua Pérsia, donde se supõe que vieram os Reis Magos? Ora a astrologia é não só a observação dos astros, mas a interpretação e o significado da sua posição e a influência que podem ter na vida da humanidade. Difere da astronomia, que é o estudo científico dos astros. Entre as várias hipóteses, duas foram as mais aceites: seria o cometa de Halley que é visto na Terra de 75 em 75 anos. A última vez que foi visto foi em 1986.

Giotto, no fresco pintado na Cappella degli Scrovegni, do nome do rico banqueiro que a mandou construir, cerca de 1303, em Pádua, no quadro retratando a adoração dos Reis Magos, pinta o cometa de Halley, identificando-o com a Estrela de Natal. Na atualidade, Frederico Lourenço, nos comentários que faz à descrição da adoração dos Magos, no volume I da sua tradução dos Evangelhos, a partir do grego, ao referir a adoração dos Reis Magnos feita por São Mateus, inclina-se para esta hipótese: a estrela seria o cometa. A outra hipótese é que a estrela não era um astro, mas a grande conjunção de Júpiter e Saturno no signo zodiacal de Peixes, nos anos 7-6 a.C. Esta é a opinião seguida por Bento XVI, que cita autores bíblicos, teólogos da antiguidade, tábuas cronológicas chinesas, Kepler e outros astrónomos. As duas hipóteses parecem ser factos confirmados.

Seja qual for a natureza da estrela, na perspetiva da fé, é uma estrela de esperança, de mudança, anunciadora de um mandamento novo: amai-vos uns aos outros.

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