Disto e Daquilo

Disto e Daquilo

A PERDA

Cecília Rezende – Escritora

Uma das parábolas de Jesus das mais conhecidas é a da mulher que perdeu um dracma, uma moeda que era o salário de um dia de trabalho de um trabalhador braçal. Varre a casa, acende a candeia para a procurar em todos os cantos e, quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas para se alegrarem com ela.

A parábola tem um significado doutrinário, claro. Mas parte de um facto real por que todos passamos. Perder qualquer coisa, mesmo que não seja de grande valor dá sempre frustração. Aquilo que perdemos era nosso, pertencia-nos, fazia um pouco parte de nós. Qualquer perda é sempre motivo de tristeza, em maior ou menor grau. Imaginemos então a perda de alguém que amamos: pai, mãe, irmãos, amigos. A morte faz parte da vida. Compreendemo-la, aceitamo-la racionalmente, mas emocionalmente nunca aceitamos. A perda de um ente amado envolve sentimentos de vazio, de saudade intensa, de solidão incondicional e, em muitos casos, cai-se numa grande apatia. Não apetece fazer nada. Como seres humanos, temos consciência da finitude da nossa existência, mas não estamos  prontos para ela. Com o tempo, vamos integrando essa perda nas nossas vidas, adaptamo-nos a novas realidades, procurando encontrar o caminho para dominar serenamente a tristeza e a saudade. Saber lidar com um fim de ciclo é muito complexo. E a morte de uma pessoa que amamos é um fim de ciclo. É um nunca mais. Pensamos continuamente: nunca mais a vemos. Eu, por mim, mais do que nunca mais a ver, penso: nunca mais converso com ela. Há um nome para esta fase: é o luto, um período de introspeção e de recolhimento para assimilar o sentimento de saudade e aceitar a nova realidade. Até há poucos anos o luto era traduzido pelo uso de roupa preta, durante um tempo determinado. Chamava-se a esta fase o luto pesado. Ao fim de um certo tempo, passava-se de preto para cinzento. Era o luto aliviado. De acordo com psicólogos e psiquiatras atuais essa forma de exteriorizar o luto através da forma de vestir corresponde efetivamente às fases psicológicas por que se passa com a perda de alguém amado. Por fim, a última etapa do luto é a aceitação. Quando chegamos a esse estado, lidamos com os nossos sentimentos de forma serena. A saudade estará sempre presente, mas já se é capaz de conviver com essa perda.

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