Coroa de barro

Coroa de barro

Imagem: istoe

J. B. Teixeira – Jornalista

Saíra de bicicleta e só me dei conta de que esquecera da tal máscara sanitária ao chegar numa loja para comprar um mata-moscas. Sigo inconformado com a exigência de máscara depois da massiva vacinação. Muitos, aliás, já receberam três doses … mas o baile segue, com a mesma orquestra, desafinada e com repertório aborrecido. Pedi a um atendente, à porta do estabelecimento, que pegasse o mata-moscas e lhe alcancei o dinheiro.

Segunda parada: um supermercado. Improvisei: coloquei as alças da sacola do mata-moscas nas orelhas, tapando eficientemente boca e nariz, e entrei. Tomo um corredor, contorno uma gôndola e logo percebo um beleguim no meu encalço. O senhor não pode permanecer. Por favor se retire! Contrapus que minha fantasia – era sexta de carnaval,- superava as máscaras convencionais. A determinação do poder público é máscara! Será que uma senhora trajando burca seria impedida? A verdade é que me senti humilhado. Por nada, talvez, mas me senti.  Para minha surpresa um cidadão que assistira a cena me disse que buscaria em seu carro uma máscara. Diante de gentileza tão espontânea, não pude recusar e instantes depois entrava no mercado. Procurei o cidadão que me barrara para dizer que só entendia sua grosseria porque era um pau mandado da burrice governamental. Exigir máscara depois de tanta vacina me faz suspeitar que isto faz parte do cardápio da NBM, a Nova Burrice Mundial.

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Os russos deram o grito de carnaval invadindo a Ucrânia. O gélido Putin, ex-chefão da KGB, estrategista, planejou cada passo de seu desfile diante do palanque europeu, do qual faz parte o convidado norte-americano. Lamento pensar que nunca teremos paz no mundo e que a guerra ou sua ameaça onipresente acompanhará a humanidade até o fim dos tempos.

Por outro lado, enquanto condenamos, por óbvio, a agressão militar de um país como a Ucrânia, admitimos a exploração da miséria pelos mais preparados, como se dá com os capitais voláteis, cujo ir e vir é aceito e até sacralizado. Investidores, assim chamados, podem colocar de joelhos a vítima endividada, que até suplica a presença do algoz agiota. O mundo deixou de ser o que foi quando passou a admitir o capital volátil como fenômeno natural, como ave de arribação.

A mim causam repulsa os seminários organizados pelos mandachuvas, cujos convidados são políticos de carteirinha e autoridades instadas a dar explicações, expondo políticas para apetites vampirescos. Por que razão os mandachuvas, daqui e do mundo, se consideram ungidos? Por que raios se consideram autorizados a desprezar o Zé Mané num contexto que se proclama democrático? O que os seduz a tamanha arrogância?

Por falar em ungido, Frederico Guilherme IV, rei da Prússia, não aceitou a coroa do parlamento em 1849 porque a julgava de barro. Ora, se seu poder era divino, a concessão pelo parlamento seria imprópria para um ungido. Seu filho, príncipe herdeiro de uma dinastia cujo canto do cisne já se fazia ouvir pelos ouvidos mais perspicazes, registraria em seu diário, numa noite de Ano Novo: “Na hora presente, tem-se a impressão de que não somos amados nem desprezados: somos apenas temidos. Consideram-nos capazes de qualquer baixeza, e a desconfiança a nosso respeito cresce de dia para dia. (…) De que nos serve todo o poder, toda a fama e todo o brilho marciais, se nos encontramos por toda parte cercados de ódio e de desconfiança?”.

Acompanhei a evolução do conflito na Ucrânia e escutei diversos comentaristas. Um deles surpreendeu em manifestação radiofônica. Enquanto se avaliava a extensão do evento e suas desrazões, o jornalista pontuou que os russos são homofóbicos … Devo ter perdido esta aula porque não consegui estabelecer relação entre invasão e homofobia. De resto, o glacial Putin, assim como Xi Jinping, é incapaz de concessões sentimentais, que por certo julga piegas.

A fraqueza do Ocidente não repousa na menor capacidade de destruir que a da Rússia ou da China. Nem na fragilidade de seus mercados, mas na sua decadência moral. Os psicopatas que governam o mundo perseguem coroas de barro e seus desvarios parecem pedir uma glaciação que depure o gênero humano. Se a burrice não é nova, o drama é que agora é global.

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