Coleções Asiáticas do Museu da Farmácia

Coleções Asiáticas do Museu da Farmácia

Foi no século XV que os portugueses chegaram pela primeira vez ao continente asiático. A dobragem do conhecido “Cabo das Tormentas” no ano de 1488, pelo navegador Bartolomeu Dias, assumiu-se como um dos primeiros passos na construção daquelas que seriam as rotas marítimas e comerciais a estabelecer a Oriente.

Em primeira instância, a chegada de Vasco da Gama a Calecute, dez anos depois, assinalou a concretização de um projeto há muitos anos ambicionado pela Coroa Portuguesa. Seguiu-se Malaca, por Diogo Lopes de Sequeira, que atravessara o golfo de Bengala, aproximando-se do sudeste asiático, e ainda Fernão de Magalhães, que viria a fazer a primeira viagem de circum-navegação, ao serviço de Espanha, e a qual este ano celebra os 500 anos da sua concretização. Também o Reino de Sião, hoje conhecido por Tailândia, Timor, entre outras ilhas, foram percorridas até à chegada de Jorge Álvares, em 1513, ao Rio das Pérolas, na China. Este navegador, que havia partido de Malaca, foi o primeiro europeu a atracar num porto chinês. Pouco tempo depois, não tardaria a ser enviado numa nova missão, uma das personalidades portuguesas mais relevantes da história da saúde e da farmácia: Tomé Pires.

Este boticário, filho do também boticário do Rei D. João II, enviado por Rei D. Manuel I à corte chinesa, durante a Dinastia Ming, destacou-se como primeiro embaixador português na China. Tomé Pires, durante a sua estadia a Oriente, foi autor de uma das obras mais relevantes do século XVI, onde descreve as mais variadas plantas e drogas medicinais que identificou no continente asiático. Nesta obra, intitulada “Suma Oriental”, além dos aspetos medicinais, Tomé Pires descreve, ainda, todos os portos de comércio onde recolheu informações de caráter mercantil, nomeadamente os produtos comercializados em cada reino, assim como as respetivas origens e os mercadores.

Com esta obra, Tomé Pires teve o propósito de esclarecer o Rei de Portugal acerca daquilo que havia testemunhado, tratando-se da mais antiga descrição portuguesa do Oriente, desde o Mar Vermelho até ao Japão, onde os portugueses haviam de chegar em 1543.

No Museu da Farmácia, em Lisboa e no Porto, conseguimos identificar uma variedade de objetos representativos daqueles que foram os diferentes encontros dos portugueses com o Oriente, desde o século XVI. Desde o Sudeste Asiático ao Extremo Oriente, a história da saúde e da farmácia materializa-se em diferentes discursos.

Começando no primeiro contacto dos portugueses com o Oriente, conseguimos encontrar no Museu da Farmácia, testemunhos daquilo que foi o intercâmbio cultural e artístico que se deu a partir do século XVI. A Pedra de Goa (12222) apresenta-se como um símbolo de miscigenação artística, enquanto magnífico exemplar de arte indo-portuguesa. Exemplares como este eram fabricados pelos padres jesuítas em Goa, sendo versões sintéticas de bezoares que, quando consumidos, acreditava-se possuírem propriedades medicinais.

A Medicina Tibetana está representada por objetos associados à prática médica da acupuntura, como é o exemplo de uma Carta Médica (7892) do século XVI, com a imagem de uma figura masculina, de frente e verso, onde estão identificados os vários pontos da acupuntura. Também com uma forte ligação à acupuntura existe, no Museu da Farmácia Porto, uma escultura com a representação de uma Figura de Acupuntor (15140), originário da China, destinada ao ensino desta prática. A medicina tradicional tibetana tem a sua origem nas revelações do Buda e na sua manifestação como “Bhaishajyaguru”, também conhecido como Buda da Cura (ou medicina).

No núcleo do Japão, também este alusivo à história da saúde, encontramos, no Museu da Farmácia Porto, duas Placas de identificação (11637/11638) que serviam para identificar os espaços dedicados à prática farmacêutica dentro das comunidades. De entre a coleção exposta no Museu da Farmácia Lisboa destaca-se um Inro (8810) do século XIX: uma pequena caixa compartimentada, composta por gavetas sobrepostas, que servia de acessório ao traje tradicional japonês, no qual habitualmente não existiam bolsos. Embora originalmente utilizados para transportar os selos pessoais, os inros eram também amplamente utilizados para o transporte de medicamentos. Este objeto era suspenso à cintura, através de um Netsuke (8788), também este representado no Museu da Farmácia Lisboa, onde é possível conhecer um exemplar com a representação de Daruma (uma alusão ao Bodhidharma, fundador do Budismo Zen). Com a face contorcida pela dor, roupas esvoaçantes e argolas nas orelhas furadas, esta figura encontra-se sentada e agarrada à sua perna esquerda onde previamente aplicara um remédio.

Por fim, podemos também conhecer nestas coleções a história da Medicina Tradicional Chinesa. Com práticas milenares ainda hoje reconhecidas, as suas origens remontam a tempos anteriores ao conhecido “Imperador Amarelo”, Huang Di. No entanto, foi este que, juntamente com Qi Bo, seu médico imperial, desenvolveu a obra Huang Di Nei Jing, também conhecida como “O Clássico do Imperador Amarelo”, compondo aquilo que são algumas das bases da Medicina Tradicional Chinesa. É no Museu da Farmácia Lisboa que conseguimos identificar uma farmácia onde esta mesma Medicina Tradicional Chinesa era praticada. Oriunda de Macau, a Farmácia Tai Neng Tong (5358) é constituída por armários em madeira lacada, com arcos e painéis em madeira exótica e antigas obras em talha dourada representando corsas, pássaros, folhas e flores. Ao fazer a leitura dos carateres esculpidos nesta farmácia, conseguimos traduzir informações como “farmácia especializada em pílulas, pós, unguentos e colírios” e “armazena e importa medicamentos”. Embora date do século XIX, esta farmácia funcionou em Macau, na Rua 5 de Outubro, até 1998, momento em que foi adquirida e posteriormente incorporada nas coleções do Museu da Farmácia.

Num acervo que pretende materializar mais de 5000 anos de história da saúde e da farmácia, torna-se necessário destacar as coleções que são não só representativas da história, dos costumes e práticas culturais de cada um dos países, mas também do encontro dos portugueses com o Oriente desde o século XV.

*Gonçalo Magano, Museu da Farmácia

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