Coitado do meu filho mais velho

Coitado do meu filho mais velho
Rita Gonçalves, Gestora do lar e Mãe em full-time

Ser filho mais velho de uma filha única, mãe a tempo inteiro, formada para ser professora, é dose. Não sei como é que ele aguenta. Costumo dizer que certamente fará dele um bom homem, porque só um futuro bom homem pode encontrar forma de sobreviver a uma mãe assim.

Ter seis irmãos também poderia dificultar as coisas e, às vezes, dificulta, mas também facilita, porque enquanto estou focada nos outros seis, o rapaz tem um tempo para respirar. Dificulta porque ter muitos irmãos é sempre ter termo de comparação, é sempre ter alguém que pode fazer algo que lhe foi totalmente proibido, é sempre ter alguém que chateia, que comenta, mesmo não sendo nada da sua conta, é ser sempre considerado culpado, mesmo quando até se tentou remediar a situação.

Ser filho mais velho de uma mãe a tempo inteiro é ter sempre alguém atento ao nosso caminhar. Dá jeito nas vitórias porque vem logo festa, mas, nas derrotas, dá discurso trágico de horas. Será que ninguém entende que esta mãe ainda não teve nenhum filho a passar por aí? Ainda não vi nenhum filho meu a sobreviver ao secundário com boas notas. Ainda não vi nenhum filho meu a ficar um dia inteiro por sua conta e risco e voltar para casa ileso.

Ser filho mais velho de uma filha única é ter sempre alguma coisa para arrumar, é ter que organizar a gaveta das meias, é ter que pôr a tampa no dentífrico, puxar o autoclismo, arrumar o computador quando não se está a usar, limpar a mesa depois de comer, não deixar pilhas de camisolas penduradas na cadeira do quarto, não enfiar os sapatos para debaixo da cama. Não é fácil.

Ser filho mais velho de uma mãe formada para ser professora é ter sempre alguém que corrige tudo e que tem sempre um método de estudo melhor para nós, que diz “eu bem te avisei”, “eu vi logo que ia dar nisto”. Uma mãe que tem sempre uma sugestão de leitura melhor, que tem sempre uma ideia melhor para aquele trabalho que temos de apresentar. Não há pachorra.

Ser filho mais velho de uma mãe a tempo inteiro é ter sempre alguém que sabe, ou pensa saber, exatamente o que estamos a pensar naquele momento, que quer conversar sobre a escola, o dia, a turma. É aquela mãe que parece estar atenta a tudo, apesar de estar sempre a apagar fogo nalgum sítio.

Calculo que ser meu filho mais velho é uma tremenda aventura e que, às vezes, deve dar vontade de fazer um grande rewind, na procura de uma possibilidade de ser o segundo ou o terceiro, embora o último seja o mais mimadinho de todos. Aquele que tem sempre audiência, que se levanta da mesa quando quer e bem lhe apetece, aquele a quem todos têm de ceder, não vá sua excelência fazer um berreiro daqueles.

Do que vejo daqui, ser meu filho mais velho só tem uma vantagem. Tem sempre mais roupa nova do que os outros, mais sapatilhas novas. Já não é mau!

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