Cartas a Guiomar: Os mandamentos (14)

Cartas a Guiomar: Os mandamentos (14)

Querida Guiomar,

Estavas ontem a dizer-me que tinhas pensado ir confessar-te, mas não sabias bem o que tinhas ou não de dizer. De maneira que achei por bem passarmos a matérias práticas: sendo Deus o que é, sendo nós o que somos, como deve viver um católico?

Para responder a esta pergunta, Deus deu-nos os mandamentos. Os dez Mandamentos da Lei de Deus foram comunicados por Deus a Moisés no Monte Sinai, gravados em duas tábuas: numa delas estavam gravados os mandamentos respeitantes a Deus (os três primeiros), na outra os mandamentos respeitantes aos homens (os outros sete). Os dez mandamentos são as normas básicas do comportamento humano; mas não são normas arbitrárias, são as normas adequadas à nossa natureza. Deus é o fabricante, e os mandamentos são o manual de instruções. É por isto que as sociedades humanas assentam basicamente nos dez mandamentos. Se cumprirmos os mandamentos, funcionamos bem; se não os cumprirmos, sentimo-nos miseráveis (sempre, e pelo menos a médio prazo, mesmo que no curto prazo nos sintamos muito bem) e fazemos a infelicidade de todos os que nos rodeiam.

Todos os mandamentos se aplicam a toda a gente; não há mandamentos para homens e mandamentos para mulheres; mandamentos para ricos e mandamentos para pobres; mandamentos para brancos e mandamentos para negros; mandamentos para engravatados e mandamentos para artistas; mandamentos para os medievais e mandamentos para o século XXI; mandamentos que nos agradam e mandamentos que pomos entre parêntesis. Nenhum dos mandamentos está ultrapassado e todos são para cumprir. Todos. E são só dez.

            Os dez mandamentos – que Jesus resumiu maravilhosamente em dois: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos – são os seguintes:

  •             1º Adorar a Deus e amá-Lo sobre todas as coisas
  •             2º Não invocar o santo nome de Deus em vão
  •             3º Santificar os domingos e festas de guarda
  •             4º Honrar pai e mãe
  •             5º Não matar
  •             6º Viver a castidade nas palavras e nas obras
  •             7º Não roubar
  •             8º Não levantar falsos testemunhos nem faltar à verdade
  •             9º Viver a castidade nos pensamentos e nos desejos
  •             10º Não cobiçar as coisas alheias

Não parecem uma coisa assim muito simpática, pois não? Não isto, não aquilo, não, não… Mas é que, como dizia Chesterton, os mandamentos não são concisos porque o cristianismo é estreito, os mandamentos são concisos porque a Lei de Deus é intensamente liberal; de facto, os mandamentos enunciam (quase todos) aquilo que é proibido e as coisas proibidas são muito menos do que as permitidas. Como dava uma trabalheira enunciar tudo o que se pode fazer (e nunca mais acabava), Nosso Senhor limitou-Se a enunciar as (poucas) coisas que estamos proibidos de fazer se queremos ser realmente humanos.

Porque é que os mandamentos que dizem respeito a Deus são os que aparecem em primeiro lugar? Bem, porque a relação com Deus é, de longe, o aspecto mais importante da vida de qualquer ser humano. Nós fomos feitos para Deus e, como dizia Santo Agostinho (que sabia bem do que falava), andamos às turras enquanto não descansamos n’Ele. Comecemos então por estes.

O primeiro mandamento é… um susto! Adorar a Deus ainda vá que não vá – sabendo Quem Ele é, não podemos menos do que adorá-Lo. Mas amá-Lo? E sobre todas as coisas? Sobre todas as coisas? Para começar, como é que se pode amar alguém mandado? O amor não tem de ser livre? Não tem de ser porque eu quero?

Tem, claro, o amor tem de ser livre; se não for livre, não é amor, é escravatura. Mas Deus tem toda a razão em nos mandar amá-Lo, por três motivos principais: primeiro, porque Ele próprio nos amou com um amor infinito, e não ganhou, nem ganha, nada com isso, antes pelo contrário; segundo, porque se não O amássemos, nós seríamos tão reles e infelizes, que não havia nada que nos pusesse um sorriso nos lábios; e finalmente, porque se Ele não nos mandasse amá-Lo, seriam muito poucas as pessoas que o fariam por sua própria iniciativa.

É verdade que o amor que Deus nos pede é total, intenso, apaixonado e exclusivo, porque Deus é ciumento, quer-nos todos só para para Si, não está disposto a partilhar-nos com ninguém. E, neste sentido, cumprir o primeiro mandamento não é realmente a coisa mais fácil do mundo. Mas, por outro lado, aquilo que Deus nos pede com este mandamento é, no fundo, que O reconheçamos como Deus. Reconhecê-Lo como Deus dentro da nossa alma e agir em conformidade com esse reconhecimento é adorar e amar a Deus.

Aliás, as coisas que o primeiro mandamento nos proíbe de fazer decorrem naturalmente da natureza de Deus. Se não, vejamos: o primeiro mandamento proíbe-nos de prestar culto aos ídolos (como o poder, a fama, o dinheiro, o prazer, o demónio, o telemóvel), de sermos supersticiosos (de darmos importância à astrologia, à feitiçaria, ao espiritismo, etc.), de cometermos sacrilégios (profanando ou desrespeitando as coisas sagradas), de sermos ateus ou mesmo agnósticos. Ora, se Deus existe (e existe) e é Quem é (e é), como é que passa pela cabeça de alguém pô-Lo sequer ao mesmo nível que o poder, a fama, etc.? Se Deus existe (e existe) e é Quem é (e é), como é que passa pela cabeça de alguém que os astros ou os espíritos tenham na nossa vida um poder comparável ao Seu, ou que Ele esteja disposto a submeter-nos às potências cósmicas? Se Deus existe (e existe) e é Quem é (e é), como é que passa pela cabeça de alguém tratar mal as coisas que Lhe dizem respeito?

Claro que, como acontece com todos os mandamentos, este é apenas o lado minimal da coisa; o primeiro mandamento tem coisas muito mais interessantes que se lhe diga, e lá iremos mais adiante. Mas, se cumprires estas coisas básicas, já estás a cumprir o primeiro mandamento da Lei de Deus.

O segundo mandamento proíbe-nos de invocar o nome de Deus em vão, porque o nome de Deus é santo. E o nome de Deus é santo porque Deus é santo. Os nomes invocam as coisas que designam, e o nome de Deus não é excepção. Por isso, estamos proibidos de proferir blasfémias (ofender a Deus por palavras, insultá-Lo), como estamos igualmente proibidos de jurar falso. Jurar é invocar o nome de Deus; quando juramos falso (quer dizendo que fizemos algo que não fizemos, quer jurando fazer algo que não temos intenção de fazer), estamos a invocar a Deus como testemunha de uma mentira – e Deus não gosta (compreensivelmente) que misturem o Seu nome em assados humanos de honestidade duvidosa ou de desonestidade declarada.

O terceiro mandamento manda-nos guardar para Deus os domingos (e as festas… de guarda). O domingo é o dia em que Jesus ressuscitou, e é portanto o dia do Senhor. É o dia que reservamos especialmente ao culto divino, e em que reconhecemos o domínio de Deus sobre toda a criação abstendo-nos de trabalhar intensamente (a não ser em casos socialmente imprescindíveis, como os médicos, os bombeiros, etc.), para nos podermos lembrar de que é a Deus, e não ao trabalho, nem ao lucro, nem à glória humana que devemos prestar adoração (cá está outra vez o primeiro mandamento). O domingo é um bom dia para dedicarmos à oração, à família e a obras de caridade (como visitar doentes, pessoas sozinhas, etc.).

Deixamos os outros mandamentos para a próxima, pode ser?

Então até amanhã, de Deus quiser!

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