Cartas a Guiomar: Os anjos, e o resto do pecado original (6)

 Cartas a Guiomar: Os anjos, e o resto do pecado original (6)

Querida Guiomar,

Voltando então à vaca fria, o que é então o pecado original?

O pecado original é a perda daquele estado original em que se encontrava o ser humano; ou seja, é a perda da graça santificante, da situação paradisíaca de amizade com Deus, mas também a perda daqueles super-dons que Deus tinha tido a gentileza de lhe conceder, e que tanto jeito davam. Assim, expulsos do paraíso, Adão e Eva vão ter de aprender tudo muito mais lentamente e com muito mais dificuldade; vão ter de se esganar para controlarem as paixões; e vão sofrer e morrer – a descrição da nossa vida, portanto. Sim, porque este pecado original de Adão e Eva foi comunicado a todos os homens, uma vez que todos os homens estavam representados naquele primeiro casal. Todos nós nascemos com pecado original e em todos ele tem de ser apagado com uma graça especial. Mas já lá vamos.

Porque o que é verdadeiramente incrível é, uma vez mais, a espantosa paciência de Deus! No próprio momento em que expulsou Adão e Eva do Paraíso, Deus começou a ter saudades deles. E logo ali, na presença do anjo que mandou pôr à porta com uma espada de fogo a guardar a entrada no Jardim do Éden, logo ali Deus lhes prometeu que havia de arranjar maneira de voltar a deixá-los entrar. Deus não tem emenda!

Mas, antes de avançarmos com o resto da história, vamos só responder a uma pergunta: quem é este demónio que custou a expulsão do Paraíso aos nossos primeiros pais? O demónio era o mais perfeito dos anjos de Deus, um ser de uma beleza ofuscante, de uma inteligência agudíssima, de uma inteireza incomparável. Mas, assim como os homens foram sujeitos a um teste para demonstrarem o amor que tinham a Deus, também os anjos foram sujeitos a uma prova. E o mais perfeito dos anjos de Deus caiu na mesma tentação em que caíram Adão e Eva: quis substituir-se à divindade. Era tão perfeito, que se deslumbrou com a sua perfeição e, em vez de amar o seu Criador, amou-se mais a si mesmo que a Deus.

Lúcifer revoltou-se contra Deus e, como era de um apuro incomparável, arrastou uma série de anjos atrás de si. Houve um terrível combate no céu, que o arcanjo Miguel e os restantes anjos fiéis a Deus venceram (naturalmente!), e no termo do qual os demónios foram expulsos da presença de Deus. Ora, para aqueles seres que foram feitos para amar e adorar a Deus, estar longe Dele é um inferno – e é assim que o demónio se encontra: no inferno (que não é um lugar, mas um estado). Mas, como não quer estar lá sozinho, porque quem é infeliz tem inveja da felicidade dos outros, quer arrastar-nos para o pé dele. Já conseguiu alguma coisa com Adão e Eva.

Dito isto, não será demais repetir-te que o demónio existe! Charles Baudelaire, um poeta francês do século XIX que conheceu bem a acção do maligno nas almas, dizia que a maior astúcia do demónio consiste em persuadir-nos de que não existe. Porque, enquanto estivermos convencidos de que o demónio não existe, nada faremos para nos proteger dele, e o bicho actua à sua vontade. Mas ele existe, e teve o desplante de tentar o próprio Jesus! Certamente que, connosco, não fará mais cerimónias. Porém, se é preciso estarmos avisados quanto ao demónio, não temos de ter medo dele, porque Satanás está submetido a Deus e nunca nos tentará para além das nossas forças e da nossa resistência; ou seja, é mais forte e mais astucioso do que nós, mas não do que a graça de Deus. A nós compete-nos não estar com paninhos quentes e não lhe dar ouvidos.

Voltando agora ao nosso tema, há uma grande diferença entre os anjos e nós. Como são seres muito mais perfeitos do que nós, os anjos só tiveram uma hipótese; é que eles vêem toda a realidade, todas as consequências, num só acto mental, e não têm hesitações. Por isso, escolheram, e os que foram fiéis são felizes, os que se rebelaram infernizam-se. Já nós somos muito mais lentos, deixamo-nos levar, somos francamente palermas, de maneira que Nosso Senhor tem muito mais paciência connosco. Portanto, depois do pecado original, prometeu-nos uma segunda oportunidade: um redentor, alguém que resgatasse aquele pecado e nos abrisse de novo a possibilidade de sermos Seus amigos.

A humanidade passou tempos infindos à espera desse redentor, prometido ao povo judaico, que foi o povo com o qual Deus fez aliança. Mas ninguém imaginava que ele seria o próprio Deus! De facto – e a história da criação e da redenção é um nunca mais acabar de surpresas, cada uma mais espantosa que a anterior –, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnou para ser esse redentor.

Ora bem, em que é que havia de consistir essa redenção? Bem, dá a impressão de que a coisa podia ser facilitada, não era? O ofendido era Deus, o redentor era Deus (tinha de ser Deus, porque ninguém senão Deus teria a capacidade de compensar uma ofensa feita a Deus), Deus dava um aperto de mão a Si próprio e ficava tudo como dantes. Podia realmente ter sido assim! Mas nós tínhamos de aprender, de uma vez por todas (não aprendemos…), o que era o amor de Deus por nós. De maneira que Deus Pai enviou o Seu próprio Filho, não só para saber como era a vida cá em baixo, mas para… ser morto por nós (no duplo sentido em que fomos nós que O matámos e em que Ele morreu para nos salvar)!

É uma longa história, que começou com a mais comovedora das festas, o Natal, e terminará com a mais gloriosa de todas, a Páscoa; mas pelo meio, como veremos amanhã, se Deus quiser, haverá um comprido episódio de dor e amor.

*Maria José Figueiredo

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