Cartas a Guiomar: O matrimónio (12)

Cartas a Guiomar: O matrimónio (12)

Querida Guiomar,

Gostei imenso de conhecer o João, e garanto-te que vocês podem vir a fazer um belo par (mas tens razão, não era má ideia começares a andar de saltos altos!).

E ora bem, falta-nos justamente falar do matrimónio, que é o sacramento que une um homem e uma mulher para sempre. Desde que o mundo é mundo que os homens e as mulheres se unem entre si para cuidarem um do outro, dos respectivos bens e da consequente prole. A família é a célula de base da sociedade, é o núcleo de amor e desenvolvimento de que os seres humanos precisam para crescerem com normalidade; até Jesus teve uma família e deu-Se muito bem com isso. Ora, Nosso Senhor teve a feliz ideia de elevar esta disposição natural à condição de sacramento, concedendo graças especiais às pessoas que estabelecem entre si este contrato – contrato que é, convenhamos e na melhor das hipóteses, cor-de-rosa apenas no primeiro ano, passando depois por todas as cores do arco-íris e respectivas combinações (incluindo outra vez o cor-de-rosa).

O matrimónio católico é um contrato livre e vitalício entre um homem e uma mulher para tal habilitados (têm de ser adultos e não podem estar casados). Portanto, na Igreja não há casamentos forçados (os noivos têm de querer casar-se), nem casamentos provisórios (o casamento dura enquanto os esposos forem vivos), nem casamentos entre mais do que duas pessoas (é de um homem com uma mulher), nem há casamentos entre membros de espécies diferentes (entre uma princesa e um sapo), nem há casamentos entre pessoas do mesmo sexo – e acho que cobri todas as possibilidades. Não há nem haverá, porque não pode haver. O casamento, tal como é celebrado na Igreja Católica, foi instituído por Deus, e está de acordo com a natureza humana: só os seres humanos podem dar o seu consentimento à entrega total de si mesmos, e uma entrega total não pode ser, nem temporária, nem a mais do que uma pessoa, porque senão não é total; por outro lado, o casamento tem como objectivo a constituição de uma família pelos meios que a natureza pôs ao nosso dispor, coisa que exige a participação de um homem e de uma mulher.

Não sendo, nem de longe, o seu aspecto mais relevante, o sexo é uma componente importante do matrimónio. Mas é do matrimónio; as relações sexuais são para ter lugar entre duas pessoas casadas, porque uma pessoa só deve ter relações sexuais com outra quando está casada com ela e portanto preparada para uma das duas coisas para que o sexo existe: procriar. Os católicos não podem ter relações sexuais fora do casamento, nem antes, nem depois (nem durante com outras pessoas). O casamento modifica para sempre a vida de uma pessoa; e não estou a referir-me apenas (mas também) ao facto de passarmos a ter de escolher em conjunto as cortinas da sala e os locais de férias. De facto, a partir do momento em que assumimos aquele compromisso, passamos a ser outra pessoa: antes, éramos uma pessoa-sem-compromisso, depois passamos a ser uma pessoa-com-compromisso. E já não podemos voltar atrás! Mudámos para sempre – e ainda bem, porque mudámos por amor. Ora, quando uma pessoa se entrega a outra, também sexualmente, depois de ter com ela assumido um compromisso para sempre – depois de ambas terem modificado para sempre as respectivas vidas –, sabe que se entrega à confiança. Sabe que há-de sofrer alguma coisa, com certeza que sim (e fazer sofrer), mas que esse sofrimento é infligido (e recebido) sem querer.

Ora, o sexo tem dois objectivos essenciais: unir os esposos e dar origem a novas vidas. O ponto é que dar origem a novas vidas é uma coisa absolutamente inacreditável! Repara: a grande ambição dos maiores artistas, escritores, pintores, cineastas, é criar alguma coisa pela qual sejam recordados para sempre. E sê-lo-ão, uns mais tempo, outros menos, mas quando o mundo acabar, essas coisas acabarão também; ou seja, o para sempre das obras de arte é muito reduzido (1000 anos, 50000 anos…?). Ora, nós, os seres humanos, temos a capacidade de originar, a partir de nós, as únicas obras que serão realmente eternas, que continuarão a existir depois de o mundo acabar, que nunca, mas nunca mais deixarão de existir: outros seres humanos! Seres cuja vida será para sempre, seres que podem conhecer e amar a Deus! A coisa é tão grandiosa, que é de espantar que Deus tenha confiado semelhante competência a seres tão pouco de confiança como nós; mas a verdade é que confiou (Deus não tem emenda).

Acontece que, sendo uma participação na capacidade criadora de Deus – nós damos o corpo, Deus dá a alma –, a reprodução humana tem de estar especialmente preservada, porque é um dos actos mais sérios que um ser humano pode realizar. Ora bem, esse acto tem uma maneira de ser própria, um objectivo natural intrínseco, objectivo esse que lhe foi conferido pela natureza e não depende da nossa vontade, objectivo que é preciso respeitar, que é preciso tratar com pinças. E esse respeito consiste em não interpor nenhum dispositivo artificial entre o acto sexual e o seu possível resultado natural. Nem todas as relações sexuais dão origem novos bebés, evidentemente; mas todas elas têm de estar abertas a isso, porque esse possível resultado foi inscrito por Deus na natureza das relações sexuais. Assim sendo, os católicos estão proibidos de usar meios artificiais de contracepção. A coisa é de tal maneira importante, que o papa Paulo VI escreveu nada menos que uma encíclica a esclarecer esta doutrina (chama-se Humane Vitae). Aquilo que os casais católicos podem fazer, quando têm uma causa grave para espaçar os nascimentos (como por exemplo razões de saúde ou grandes constrangimentos económicos), é abster-se de ter relações sexuais nos períodos do mês em que a mulher é fértil. E não é uma coisa assim tão complicada, acredita! Há milhões de católicos que vivem assim em todo o mundo, e as estatísticas mostram que são os casais com maiores níveis de felicidade. É que nós estamos feitos de tal maneira, que não somos felizes quando temos uma vida simples e cómoda, mas quando temos uma vida complicada e lhe aplicamos o simplificador do amor e do serviço aos outros.

Mas o mais interessante, o mais extraordinário do casamento, é que ele é uma imagem da relação de Cristo com a Sua Igreja. Jesus mantém com a Igreja – ou seja, com todos nós – uma relação esponsal, que é a relação de um esposo amantíssimo que dá a vida pela esposa. Pois esse é o modelo do casamento cristão: a entrega completa até à última gota de sangue, a fidelidade inabalável, um amor perdidamente apaixonado que se sustenta com as delicadezas do dia a dia, as mãos que suam de ansiedade quando ela chega dez minutos atrasada, o coração que se alonga em saudades quando passa dois dias sem o ver. O amor de Deus é apaixonado, e o nosso, mesmo quando é intenso, mais não é que uma pálida sombra desse.

Espero ter-te dado que pensar, a ti e ao João!

P.S. – Só mais duas notas sobre o assunto:

O casamento não é uma coisa fácil (por isso é que há um sacramento para o sustentar). Às vezes, acontece que duas pessoas casadas não conseguem mesmo viver juntas, por razões diversas, e nesse caso podem separar-se, podem mesmo divorciar-se civilmente. Isso não implica que o casamento tenha terminado, porque as leis civis não se sobrepõem à Lei de Deus; enquanto um dos cônjuges for vivo, o casamento permanece, e portanto nenhum deles pode casar-se com outra pessoa, porque continua a ser casado com a primeira.

Por outro lado, pode haver casos em que a Igreja declara nulo um casamento católico porque, embora o mesmo tenha a aparência de um autêntico matrimónio, chega-se à conclusão de que se tratou de uma ficção, dado ter faltado à celebração algum dos elementos essenciais à validade do contrato nupcial (como por exemplo o consentimento).

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