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Cartas a Guiomar: Devoções (20)

Querida Guiomar,
A Igreja Católica é uma grande família, e uma família cheia de pergaminhos; e, como todas as famílias, também nós temos tradições, algumas das quais são seculares. Estas tradições são as devoções. De entre as devoções, uma das mais populares, mais divulgadas e mais apreciadas pelo Alto é o terço. O terço é a uma parte do rosário (palavra que também significa roseiral) e consiste numa sucessão de cinquenta Ave-marias, intercaladas, de dez em dez, por um Pai-nosso e um Glória. O rosário é uma devoção que vem pelo menos desde a Idade Média e que, segundo a tradição, foi formalizada em 1214, quando Nossa Senhora entregou um terço (físico) a São Domingos (o fundador da ordem dos dominicanos); um século mais tarde, foi acrescentada à recitação das orações vocais a meditação de alguns dos principais mistérios da nossa fé.
Assim, o rosário era originalmente constituído por quinze mistérios, que se rezavam alternadamente nos diversos dias da semana:
os mistérios gozosos, relativos ao nascimento e à infância de Jesus (que se rezam à 2ª feira e ao sábado)
- 1º a anunciação do anjo a Maria
- 2º a visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel
- 3º o nascimento de Jesus
- 4º a apresentação de Jesus no Tempo
- 5º a perda e o encontro de Jesus no Templo
os mistérios dolorosos, relativos à paixão e morte de Jesus (que se rezam à 3ª feira e à 6ª feira)
- 1º a agonia no Horto das Oliveiras
- 2º a flagelação de Jesus
- 3º a coroação de espinhos
- 4º o caminho para o calvário
- 5º a morte de Jesus na cruz
os mistérios gloriosos, relativos à glorificação de Jesus e de Nossa Senhora (que se rezam à 4ª feira e ao domingo)
- 1º a ressurreição do Senhor
- 2º a ascensão de Jesus ao céu
- 3º a descida do Espírito Santo
- 4º a assunção da Virgem
- 5º a coroação da Virgem.
Em 2002, o Papa João Paulo II acrescentou a estes mistérios mais cinco, os mistérios luminosos, relativos à vida pública de Jesus (que se rezam à 5ª feira):
- 1º o baptismo no Jordão
- 2º as bodas de Caná
- 3º o anúncio do Reino de Deus
- 4º a transfiguração de Jesus no Tabor
- 5º a instituição da eucaristia.
O terço é uma oração de apaixonados – uma incrível maçadoria para quem é indiferente, uma canção gloriosa e sorridente para quem ama. É uma oração em que estamos a dizer sempre a mesma coisa, mas não repetimos duas vezes o mesmo; e depois distraímo-nos e voltamos a concentrar-nos; e depois reparamos num pormenor da Ave-maria em que nunca tínhamos pensado, ou num aspecto das bodas de Caná que nunca nos tinha ocorrido; e acabamos com a certeza de ter dado uma alegria à nossa Mãe do Céu, porque não há outra oração que Ela nos tenha pedido com tanta insistência (deve agradar-lhe mesmo).
Além disso, é uma oração muito prática, porque pode rezar-se quase em qualquer circunstância: pela rua fora, a fazer um refogado, a regar o jardim – a fazer qualquer coisa que não nos ocupe a mente nem nos distraia demasiado. Finalmente, é melhor rezar passando as contas de um terço, porque nos ajuda a concentrar e nos permite obter mais graças; mas, quando não é possível, até calha mesmo bem porque temos dez dedos nas mãozinhas, e são mesmo dez as contas que temos de passar – parece de propósito!
Outra devoção mariana muito difundida é a do escapulário do Carmo. O escapulário é originalmente uma veste monástica. Em 1251, Nossa Senhora apareceu a São Simão Stock, um monge carmelita inglês, a quem entregou um escapulário de lã castanha, prometendo-lhe que aqueles que o usassem seriam alvo da especial protecção da Mãe do Céu, e em particular que aqueles que com ele morressem não conheceriam o fogo do inferno; com o passar do tempo, a Igreja autorizou a extensão desta devoção aos leigos. O escapulário é imposto por um sacerdote, e confere àqueles que o usam a obrigação de serem especialmente devotos de Nossa Senhora e de cumprirem todas as suas obrigações de cristãos.
Outras duas tradições muito arreigadas na Igreja têm a ver com dois momentos que muito nos impressionam na vida de Cristo: o nascimento e a morte. São dois momentos em que vemos Jesus (o Filho de Deus!) totalmente despojado, com uma vulnerabilidade que comove, entregue aos cuidados daqueles que O amam e sujeito à violência daqueles que O odeiam, em que O vemos como um de nós, tão sem forças e sem recursos como nós próprios nos sentimos num ou noutro momento da nossa vida. Talvez seja por isso que estas duas devoções, o presépio e a via sacra, estão tão presentes na vida dos cristãos.
O presépio foi inventado por São Francisco de Assis, que em 1223 encenou o nascimento de Jesus com pessoas (com o objectivo de desviar a mente dos fiéis, do consumismo que se praticava na quadra natalícia, para a verdadeira razão de ser do Natal – vê lá tu como as coisas são!), dando origem à tradição de representar a cena ao vivo. Com o passar do tempo, as pessoas foram sendo substituídas por imagens, de maneira que todos os lares cristãos pudessem ter uma representação da cena. O presépio é uma das tradições mais deliciosas da nossa fé, uma tradição que deu origem a verdadeiras e grandiosas obras de devoção e de arte, e que não podemos deixar perder. Acho que não vou gastar muito tempo e feitio a cantar as loas do presépio, porque ele fala por si: grandes ou pequenos, numerosos ou reduzidos, com mais musgo ou menos neve, tem de haver um presépio em todas as casas cristãs. Pode faltar a árvore de Natal (embora o Papa João Paulo II não dispensasse a sua na Praça de São Pedro), podem faltar os sininhos, as gambiarras e até podem faltar as rabanadas, mas o que não pode faltar é o Menino Jesus deitado nas palhinhas, com Nossa Senhora e São José a adorá-Lo (e nós com eles).
A devoção da via sacra, que consiste na recordação dos principais passos de Jesus a caminho do Gólgota e já no calvário, remonta aos primeiros tempos da Igreja; de facto, os primeiros cristãos tinham o hábito de percorrer de novo, numa atitude de gratidão e penitência, o caminho por onde Jesus tinha passado a fim de consumar a nossa redenção. Com o passar do tempo, e porque nem todos os cristãos tinham a oportunidade de se deslocar a Jerusalém, começaram a erigir-se percursos destes por toda a Europa, com o patrocínio (também neste caso) dos franciscanos, que até meados do século XIX eram os únicos que tinham autorização para erigir as estações da via sacra. Os percursos mais antigos remontam ao século XV, e no final do século XVII a prática estava difundida por todo o mundo cristão. Actualmente, quase todas as igrejas contam com uma via sacra, numas mais elaborada, noutras menos.
Os católicos têm, desde há muito, o costume de recordar a paixão de Jesus na quaresma, mas também durante o ano, à sexta-feira, assinalando o dia em que o Redentor morreu; no século XVIII, num esforço de uniformização de várias versões, o papa Clemente XII fixou o número das estações da via sacra nas actuais catorze, que são, grosso modo, as seguintes:
- 1ª Jesus é condenado à morte
- 2ª Jesus toma a Sua cruz
- 3ª Jesus cai pela primeira vez
- 4ª Jesus encontra Sua Mãe santíssima
- 5ª Simão de Cirene ajuda Jesus a levar a Cruz
- 6ª Verónica enxuga a face de Jesus
- 7ª Jesus cai pela segunda vez
- 8ª Jesus consola as filhas de Israel
- 9ª Jesus cai pela terceira vez
- 10ª Jesus é despojado das Suas vestes
- 11ª Jesus é crucificado
- 12ª Jesus morre na cruz
- 13ª Jesus é descido da cruz e entregue a Sua Mãe santíssima
- 14ª Jesus é depositado no sepulcro
Há bastantes mais tradições e devoções nesta família, mas ficam para outro livro.
Terminamos com uma palavrinha sobre o ano litúrgico. Tal como há um ano civil e um ano académico, também há um ano litúrgico (então a Igreja, que é muito mais antiga do que os Estados e as escolas, não havia de ter um ano para si?). O ano litúrgico começa no primeiro domingo do Advento, termina no domingo de Cristo-Rei e é composto por três grandes tempos: o Tempo Comum, o Tempo do Natal e o Tempo da Páscoa. O Tempo Comum é aquele em que não se passa nada de especial, por assim dizer: é o tempo que fica entre os outros dois, e em que se comemoram santos, efemérides e outras festas; a cor do Tempo Comum é o verde.
Os outros dois tempos litúrgicos são os chamados tempos fortes, porque neles se comemoram (se revivem!) os grandes acontecimentos da história salvação e porque constituem períodos especiais de conversão. Estes dois tempos são tão importantes, que são precedidos de dois períodos relativamente prolongados de preparação. No Tempo do Natal comemoram-se as festas relativas ao nascimento de Cristo; o Tempo do Natal é preparado durante as quatro semanas que o antecedem e que constituem o Advento. A cor do Advento é o roxo e a cor do Natal é o branco. No Tempo da Páscoa comemoram-se as festas relativas à ressurreição de Cristo, à Sua Ascensão ao céu e à vinda do Espírito Santo; o Tempo da Páscoa é preparado durante os quarenta dias que o antecedem e que constituem a Quaresma. A cor da Quaresma é o roxo e a cor da Páscoa é o branco.
E assim termina esta brevíssima exposição da nossa fé. Foram só umas pinceladas, como terás percebido; para todas as perguntas, dúvidas e interrogações com que ficaste ainda, recomendo-te o Catecismo da Igreja Católica e o Compêndio da Doutrina Católica; o segundo é um resumo do primeiro, de maneira que se calhar podes começar por esse para depois te abalançares ao outro, que é bastante mais completo e explicado. Mas ainda podes começar por outra coisa, o YouCat, um catecismo concebido especialmente para os jovens e intensamente recomendado pelo Papa Bento XVI. (E, se precisares de alguma indicação mais específica, não hesites em me contactar.) Desejo-te boas leituras, nesta aventura maravilhosa que começou no dia do teu baptismo e terminará (desejavelmente) na eterna felicidade do céu – ou seja, que não terminará nunca. Lá nos encontraremos, espero eu!
*Maria José Figueiredo
