Cartas a Guiomar: ANTE-SCRIPTUM – O achismo

Cartas a Guiomar: ANTE-SCRIPTUM – O achismo

Querida Guiomar,

Esta tarde, enquanto vinha no trânsito, estive a pensar na nossa conversa. Sabes, é que nós, os católicos, não somos achistas. Dentro da Igreja, o achismo (em matérias de fé e de moral, evidentemente) não faz qualquer sentido. Aqui dentro, ninguém acha coisa nenhuma: nem o Papa, nem os cardeais (apesar da mitra!), nem os bispos, nem os padres, nem tu, nem eu.

Antes de entrarmos na Igreja (em sentido figurado), podemos ter as opiniões que quisermos. Tu podes achar o que muito bem te parecer sobre os U2, o Futebol Clube do Porto, a independência americana, os Häagen Dazs, o primeiro-ministro, os professores de matemática, os buracos negros e o teu irmão mais novo. Mas, a partir do momento em que entras na Igreja (em sentido figurado), já não podes ter opiniões, nem tu nem ninguém.

E digo isto em dois sentidos: no sentido em que, dentro da Igreja, ninguém tem autoridade para impor opiniões sobre matérias opináveis; e no sentido (simétrico) em que, dentro da Igreja, ninguém tem autoridade para ter opiniões sobre matérias de fé e moral. (O que não tira que não haja teólogos com opiniões diferentes uns dos outros; o que os teólogos fazem – e só estou a referir-me aos que valem realmente a pena, a saber, os que são fiéis ao Magistério – é esclarecer os conteúdos da fé, acentuando mais este aspecto ou aquele, o que faz com que possam ter sensibilidades diferentes. Mas as opiniões dos teólogos não fazem parte da fé.)

De facto, a única coisa que une todos os católicos é a fé; as matérias de fé unem entre si os mais de mil milhões de católicos de todo mundo, mas também os muito mais de mil milhões de católicos que fizeram parte da Igreja desde que ela foi fundada (já lá iremos).

Porque é que ninguém acha nada dentro da Igreja? Pois bem, porque não é preciso. As pessoas acham coisas quando não têm a certeza delas, estás a ver? Ora, nós temos a certeza. E quem é que quer ter algodão quando pode ter seda?

Nós somos a única religião que preserva a totalidade da revelação divina. Nota que não é porque tenhamos feito alguma coisa por isso! Pelo contrário! Temos passado os últimos vinte séculos a tentar dar cabo da verdade. Na sequência da Revolução Francesa, Napoleão declarou ao cardeal de Paris que ia destruir a Igreja Católica; o cardeal olhou para ele, desejou-lhe calmamente boa sorte, e recordou-lhe que há dezoito séculos que os católicos andavam a tentar destruir a Igreja e ainda não tinham conseguido. Nos dois séculos que se seguiram a este episódio, as marteladas continuaram, vindas de dentro e de fora. E, na semana passada, ainda não tinham acabado.

Mas, se nós somos a única religião que preserva a totalidade da revelação divina, é porque a Igreja foi fundada por Cristo e é de Cristo. Lembras-te daquela passagem do evangelho que diz: «Naquele tempo, Jesus reuniu os doze apóstolos à Sua volta e perguntou-lhes: “O que é que acham? Na nova lei, mantemos os dez mandamentos, ou juntamos algum?” “Juntar algum, Senhor? Deus te livre, estes chegam bem!”, comentou Mateus, que fora cobrador de impostos. “Cá para mim, devíamos era suprimir o décimo; ficávamos com o sétimo e já não estávamos mal.” “Talvez não fosse má ideia”, respondeu Jesus. “Pensem nisso, e votamos para a semana.” “Senhor, e nós achamos que se devia modificar ligeiramente o oitavo”, alvitrou Tiago, falando também por seu irmão João, que eram chamados os Filhos do Trovão. “Dar-lhe uma volta mais suave.” E todos ficaram a meditar no que ali fora dito. E na semana seguinte, quando voltaram a reunir-se, foram a votos sobre os mandamentos.» Não te lembras, pois não? Nem eu. Não há nenhuma passagem dos evangelhos em que Jesus pergunte a opinião aos apóstolos – que, nota, foram os primeiros bispos, e um deles até foi o primeiro papa – sobre as coisas que estava a ensinar-lhes. O máximo que Jesus faz é perguntar-lhes quem é que eles acham que Ele é. E, logo que Pedro acerta, a conversa fica por ali, com o assunto resolvido; se nenhum deles acertasse, Jesus havia de os esclarecer.

Nem tudo aquilo que é actualmente matéria de fé foi literalmente declarado por Jesus ou está na Sagrada Escritura (mas quase tudo). O resto provém da Tradição ou pode ser directamente deduzido do que está na Sagrada Escritura. É que nós não somos uma religião do Livro (como os muçulmanos); somos uma religião do Verbo, da Palavra: da Sagrada Escritura e da Tradição Apostólica. O que acontece é que, a determinada altura, as verdades de fé começam a ser declaradas como certas pela Igreja, não porque até então não fossem verdade, mas porque até então ninguém tinha visto necessidade de proceder a uma declaração formal da mesma.

Por exemplo, o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora só foi solenemente definido em 1854, embora o seu conteúdo seja tido como certo desde os primeiros tempos do cristianismo; o que aconteceu em 1854 foi que o Papa Pio IX, evocando uma série de elementos doutrinais e tradicionais, decidiu que estava na altura de proclamar solenemente que a Virgem Maria foi efectivamente concebida sem pecado original.

Nada disto te parecerá muito estranho se pensares que o mesmo acontece com as leis naturais. Se não, repara: desde sempre que os corpos se atraíram uns aos outros na proporção directa das massas e na proporção inversa do quadrado da distância que os separa; mas só em 1686 é que Isaac Newton formulou a correspondente lei da gravitação universal. A realidade era de sempre, a formulação da lei é que era nova. Pois o mesmo se passa com algumas verdades da nossa fé.

Nota ainda que os dogmas, os conteúdos da fé, não são correntes que nos prendem, são as bermas da estrada, são janelas que se abrem para aquilo que a razão humana, só por si, não alcança. O principal objectivo dos católicos, melhor dizendo, o único grande objectivo dos católicos é chegar ao céu (dos não católicos também, mas nós sabemos e eles nem sempre sabem). Por razões relacionadas com o Lamentável Incidente da Maçã, de vez em quando convencemo-nos de que temos outros objectivos, como por exemplo ser famosos, ganhar rios de dinheiro e até «pensar pela nossa cabeça», como se fazer birra contra o Magistério fosse algum sinal de grande originalidade (imagina que o teu dentista se punha com originalidades e, em vez de te tratar uma cárie, a enchia de açúcar – era bonito, não era?). Mas tudo isso são, é claro, simples ilusões, porque tanto a fama, como as riquezas e as nossas originalidades terminam um dia, enquanto o céu é para sempre. Ora bem, o que a Igreja faz é dizer-nos qual é o caminho para chegar ao céu. O único caminho seguro para chegar ao céu. A Igreja Católica pode dizer (e diz) com segurança a quem lhe bate à porta: nós estamos em condições de lhe garantir a salvação. Convenhamos que não é pouca coisa!

A partir da próxima carta, começamos então a perceber como!

*Maria José Figueiredo

Para si... Sugerimos também...

Deixe o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subscreva a nossa newsletter