Cartas a Guiomar: A unção dos doentes e a ordem (11)

Cartas a Guiomar: A unção dos doentes e a ordem (11)

Querida Guiomar,

Continuo a lembrar-me de rezar pela tua madrinha, na esperança de que estas últimas horas sejam de conversão e de paz.

Entretanto, vamos pôr alguma ordem na exposição. Deus tem uma noção muito precisa das nossas necessidades (foi Ele que nos fez e lida connosco há muito tempo). Por isso, quando fundou a Igreja, dotou-a dos sete sacramentos a que já aludi, que servem para nos alimentar ao longo da nossa viagem terrena. Os sacramentos, que são sinais visíveis da graça que actua na nossa alma, são os seguintes:

  • * baptismo
  • * confirmação (ou crisma)
  • * eucaristia
  • * penitência (ou reconciliação, ou confissão)
  • * ordem
  • * matrimónio
  • * unção dos doentes

Todos os sacramentos foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, o baptismo terá sido instituído quando Jesus Se deixou baptizar por São João Baptista no rio Jordão; a confirmação com a promessa do Espírito Santo, que desceu sobre os apóstolos no dia de Pentecostes; a eucaristia e a ordem na Última Ceia; a confissão quando Jesus garantiu aos apóstolos que o que ligassem na terra seria ligado no céu e o que desligassem na terra seria desligado no céu; o matrimónio foi retomado da Antiga Aliança e reforçado com a presença de Cristo nas bodas de Caná; a unção dos doentes foi uma prática corrente na vida de Jesus.

Como já falámos de quatro sacramentos (baptismo, confirmação, eucaristia e penitência), restam-nos três. Vamos começar pelo último desta lista. A unção dos doentes (que, idealmente, deve ser precedida de confissão) tem como objectivo unir o doente à paixão de Cristo, pacificá-lo e reconfortá-lo; se isso for bom para a saúde da alma, pode contribuir para a recuperação da saúde do corpo. São ungidos com os santos óleos os católicos que, por doença ou por idade, comecem a encontrar-se em risco de vida; este sacramento pode ser recebido várias vezes, por exemplo se a pessoa tiver várias doenças graves, ou se o seu estado se agravar.

A unção dos doentes é um sacramento muito importante. O momento da morte é o momento crucial da vida de uma pessoa, porque é aquele em que é decidido o seu destino eterno. Podes ter tido uma vida cheia de êxitos e coisas maravilhosas, e ter sido muito feliz e muito apreciada, ou podes ter tido uma vida desgraçada, ter passado por um campo de concentração e viveres os últimos dias de vida abandonada por toda a gente, ou podes ainda ter tido uma vida muito abnegada e cheia de atenções aos outros – em qualquer dos casos, o que conta realmente é o momento da morte, porque é nessa altura que fica fixada para toda a eternidade a tua opção: ou és por Deus, ou és contra Deus. Nesse momento, não há meio termo, e depois desse momento já não há nada a fazer.

Ora, sendo esse momento tão importante, é aquele em que Deus e o demónio lutam mais aguerridamente pela nossa alma – e o demónio não dá tréguas! Pode ter perdido uma data de batalhas connosco, mas se ganhar aquela, ganhou a guerra. Mas então para que é que serve ser bonzinho toda a vida? Mais vale a pessoa fazer o que lhe apetece, e naquela altura concentrar-se intensamente, e optar pela hipótese mais correcta! Ah pois, mas aí é que está o busílis; é que nós ganhamos hábitos de bondade e maldade. Digamos que, quem passou a vida a escolher a Deus, tem 99% de hipóteses de, no último momento, se fixar nessa escolha; já quem passou a vida a escolher-se a si próprio tem bastante menos hipóteses de alterar essa escolha no momento da morte.

Deus não nos abandona, e faz tudo, mas absolutamente tudo, para conseguir levar-nos para o céu. Mas convém que a gente colabore um bocadinho, porque ninguém vai para o céu a não ser que queira mesmo. E, se não quisermos ir para o céu, por muito que a Ele Lhe custe, Deus faz-nos a vontade.

Por isso, convém muito falar da vida eterna às pessoas que estão a morrer, para que elas tenham a oportunidade de a querer. Às vezes, achamos que é uma crueldade falar da morte a quem está a morrer; crueldade é não lhes falar, e deixá-las morrer sozinhas, quando podem morrer com Deus e ser recebidas por Ele logo a seguir. Não se trata, evidentemente, de ser bruto; mas é preciso propor, sugerir, abrir as portas. Que ninguém morra sem os sacramentos por desleixo nosso (incluindo a tua madrinha).

Passemos agora ao sacramento da ordem, que é mais uma componente extraordinária da nossa fé, porque é através deste sacramento que os padres se transformam no próprio Cristo (leste bem)! É depois de ser ordenado que um homem normal diz acerca de um pedaço de pão poisado em cima de um altar: Isto é o Meu corpo, e esse pedaço de pão transforma-se realmente no corpo de Cristo; é depois de ser ordenado que um homem normal diz do lado de dentro de um confessionário: Eu te absolvo dos teus pecados, e o pecador é realmente absolvido. A ordem transforma homens normais em homens com poderes divinos; no momento em que dizem estas coisas, estes homens ordenados são Cristo, tendo por isso o poder de realizar estes milagres.

Jesus confiou aos Seus apóstolos a missão de O tornarem presente no mundo, missão que os apóstolos cumpriram pregando a Sua palavra, governando a Igreja e administrando os sacramentos – e também conferindo essa missão a outros. Com efeito, rapidamente se percebeu que aqueles primeiros doze (que voltaram a ser doze porque Judas Iscariotes foi substituído por Matias) não chegavam para as encomendas, e que era preciso que eles se multiplicassem. Ora, estes primeiros doze tinham o poder de fazer aquilo que Jesus lhes tinha feito a eles: ordená-los; portanto, eles próprios ordenaram outros sacerdotes e bispos, e estes outros, de tal modo que os sacerdotes que hoje existem na Igreja são o resultado de ordenações sucessivas e ininterruptas, que remontam aos primeiros doze apóstolos. Impressionante, não é?

Mas nota: foram estes apóstolos que foram ordenados por Cristo e mais ninguém. Nosso Senhor tinha em especial apreciação as mulheres; não só quis ter uma Mãe, que é a criatura mais excelsa de quantas jamais existiram, como andou durante toda a Sua vida pública acompanhado de um grupo de mulheres, a quem consentia que O servissem com os seus bens, como ainda foi às mulheres que primeiro Se mostrou depois de ressuscitar. Esta atitude relativamente às mulheres era muito pouco comum no Seu tempo, de maneira que Ele podia muito bem, se quisesse, ter ido mais longe e ter convidado umas quantas para estarem presentes com Ele e os apóstolos na Última Ceia. Mas não quis. Quis que fossem só os doze. Porque queria que os sacerdotes fossem só homens. Essa foi a vontade explícita de Jesus, e ninguém na Igreja, nem o Papa, nem os bispos, nem o próximo papa, nem o outro a seguir, tem poder para a alterar. Nunca haverá sacerdotisas na Igreja Católica. Certa vez, uma colega de Elizabeth Anscombe, que era uma importante filósofa de Oxford (e católica), argumentou que não havia passagem nenhuma do Evangelho em que Jesus tivesse recusado a ordenação às mulheres; Anscombe olhou muito séria para a colega e respondeu-lhe o seguinte: Pedro, Tiago, André, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Simão, Tadeu, Tomé, Tiago, Judas – ou seja, enunciou os nomes dos doze apóstolos. E, de facto, não há argumento mais eloquente do que este.

Portanto, os padres são homens e são celibatários; esta última condição não é absolutamente necessária (para os padres, mas é absolutamente necessária para os bispos), mas é, convenhamos, muitíssimo útil; um padre que tenha de se preocupar em dar atenção à mulher e de comer aos filhos – como tem qualquer homem casado – é uma pessoa que tem necessariamente muito menos tempo e disponibilidade, também mental, para a sua paróquia. Mas não se trata apenas desta razão prática; o celibato dos padres é um tesouro da Igreja, porque é um sinal de liberdade relativamente às coisas mundanas, e um desejo de imitar, também fisicamente, a vida de Cristo. (Na Igreja Católica Oriental, há padres casados; por outro lado, o Papa pode autorizar que um homem casado seja ordenado presbítero, como acontece por exemplo no caso de pastores anglicanos convertidos ao catolicismo.)

Por último, os homens ordenados são padres para toda a vida (é o terceiro sacramento que imprime carácter), o que significa que mesmo aqueles que, por qualquer infelicidade, pedem a dispensa do exercício, nunca deixam de ser efectivamente padres e de poder agir como tal

A principal missão dos sacerdotes é fazerem aquilo que só eles podem fazer: governar a Igreja, pregar a palavra de Deus com uma autoridade que lhes advém da missão que o Espírito Santo lhes confiou, e administrar os sacramentos em nome de Cristo. Tudo o resto (atenção aos pobres, criação e gestão de centros sociais, obras na igreja, organização de festas, etc. etc.) pode e deve ser feito pelos leigos; e nada daquilo que é a missão dos sacerdotes pode ser feito pelos leigos. A forma mais eficaz que um padre tem de fazer bem ao rebanho que lhe está confiado é rezar com as pessoas, ir chamá-las para os actos de culto e os sacramentos, celebrar diariamente a Santa Missa e estar sentado no confessionário à espera de que os fiéis venham pedir a graça do perdão divino, como Deus está à espera do nosso arrependimento no céu. Para isso, é preciso que os paroquianos façam o resto – porque lhes compete!

Finalmente, é preciso rezarmos para haver mais padres, porque os que temos são poucos e nós precisamos deles como do pão para a boca. Nosso Senhor continua a chamar quem Ele quer, quando e como quer, mas temos de Lhe pedir que chame mais e de atrair graças sobre aqueles que Ele chama, para que correspondam e sejam fiéis. Deus chama ao sacerdócio rapazes que estavam a acabar medicina e outros que nunca viram o mar; chama jogadores de golfe e cozinheiros criativos; chama homens que a viuvez deixou livres e chama miúdos que aprendem a ler no seminário; chama simpáticos e sisudos, inteligentes e estúpidos, gagos e eloquentes, chama electricistas de 25 anos e gestores de topo de 45 – e, se chamar o teu primo, ou o teu irmão (ou o teu namorado!), como dizes que chamou o teu vizinho do lado, acredita que é a maior honra que Ele vos pode fazer!

Até amanhã, de Deus quiser!

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