Cartas a Guiomar: A Santíssima Trindade (1)

 Cartas a Guiomar: A Santíssima Trindade (1)

da Capela do Espírito Santo

Querida Guiomar,

Vamos então começar pelo princípio.

A nossa fé está cheia de mistérios. Basta olhar para o credo para percebermos que aquilo que temos diante de nós é uma história francamente extraordinária: um só Deus, várias pessoas, um Deus que também é homem, que nasce de uma virgem, que morre (quando Deus é imortal) e que depois ressuscita, e que ainda por cima promete vir de novo no fim dos tempos (e ainda não falámos da eucaristia!).

A nossa fé está cheia de mistérios, e é por isso que é preciso… ter fé! Trata-se de uma série de coisas francamente misteriosas, mas esse facto dá-nos enorme segurança, porque se aquilo em que acreditamos fosse normalzinho e estivesse ao nosso nível, não valia assim muito a pena acreditar. O que sabemos sobre Deus, sendo extraordinário, prova que Deus é infinitamente maior do que nós e capaz de ser e de fazer coisas que não passariam pela cabeça da mais delirante imaginação humana; ou seja, Deus é de confiança: é mesmo Deus! Mas aquilo que sabemos pela fé é um conhecimento e um conhecimento verdadeiro! Não são teorias nem são hipóteses poéticas, são verdadeiros conhecimentos, mais sólidos do que os da ciência, porque têm uma origem divina, enquanto a ciência tem uma origem humana.

O mistério central da nossa fé, o mistério fundador, por assim dizer, é o de Deus. Deus é um só, mas em três pessoas; é um Deus uno e trino. As três pessoas divinas são Deus, e nenhuma delas é idêntica a qualquer das outras (o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho, o Filho não é o Espírito Santo nem o Pai – e acho que não me esqueci de nenhum), mas são um só Deus; trata-se de uma só natureza (a natureza divina) em três pessoas. Mas como? Pois olha, é mesmo um mistério.

Como calculas, este mistério da nossa fé é o que tem feito correr mais rios de tinta, tendo enchido milhares de bibliotecas com quilómetros de páginas escritas – algumas delas por génios. E o máximo que eles conseguiram (mas também não queriam mais) foi, evidentemente, dar umas pinceladas ao de leve na ideia: que é como os três lados de um triângulo que, sendo distintos, formam uma só figura geométrica; ou que é como uma vela com três pavios, que ardem em simultâneo, mas não se confundem.

Um dos pontos mais interessantes deste mistério é que Deus é infinitamente rico: é Pai e origem eterna, é Filho gerado pelo Pai e igual a Ele, e é o Amor do Pai e do Filho, que é o outro nome do Espírito Santo. Deus é completamente auto-suficiente, não precisa de absolutamente nada fora de Si, é infinitamente perfeito (e belo, e bom) e ainda por cima é inteiramente feliz. Dá vontade de dizer que é demais para uma entidade só, mesmo sendo divina – quando nós andamos aqui de língua de fora por uns pozinhos de beleza, de bondade, de alegria e de felicidade. Mas Deus é mesmo esta maravilha!

Na próxima vez, se Deus quiser, avançamos mais um bocadinho!

*Maria José Figueiredo

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