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Cartas a Guiomar: A ressurreição, o Espírito Santo e a confirmação

imagem retirada de https://www.editorasantuario.com.br
Querida Guiomar,
Como te disse, Jesus morreu na cruz. E convém salientar que morreu mesmo; a lança do centurião romano abriu-Lhe o coração e ninguém consegue sobreviver com um buraco aberto no órgão que bombeia o sangue para o corpo todo. Portanto, a morte de Cristo não foi a fingir; quando foi depositado no sepulcro, Jesus já não respirava. Esteve depositado no sepulcro cerca de 40 horas e, ao terceiro dia, ou seja, na manhã de domingo de Páscoa, ressuscitou, que o mesmo é dizer que voltou à vida. E apareceu, primeiro a Maria Madalena e às mulheres que O tinham acompanhado desde os começos da Sua pregação (há quem diga que apareceu primeiro às mulheres porque queria que a notícia se espalhasse depressa), e depois aos apóstolos. Isto no primeiro dia. Ao longo dos quarenta dias seguintes, foi aparecendo a mais gente (de uma vez, apareceu a nada menos de quinhentas pessoas).
A ressurreição de Jesus é um facto histórico que não suscita qualquer dúvida. Logo desde o princípio, houve quem dissesse que os apóstolos tinham inventado que Ele ressuscitara para fazerem vingar a Sua pregação, mas basta ler os evangelhos para perceber que isto é falso. Depois da morte do Mestre (a que só um deles assistiu, porque os outros fugiram todos, com medo que lhes acontecesse o mesmo), os apóstolos fecharam-se em casa, a tremer de medo de que os judeus fossem prendê-los a seguir. E, de uma maneira geral, os discípulos começaram a dispersar: aquela aventura com o Mestre tinha sido uma coisa maravilhosa, mas agora tinha acabado (e mal) e o melhor era cada um voltar à sua casa e à sua vida. Para eles, a festa tinha terminado; não lhes passava minimamente pela cabeça que a festa estivesse apenas a começar. E, vendo bem as coisas, é muito provável que qualquer de nós (eu falo por mim, é claro) tivesse tido uma reacção muito semelhante.
Quando ouvem contar que Jesus tinha ressuscitado, não acreditam. Era bom demais para ser verdade! É certo que tinham visto Jesus ressuscitar três pessoas, mas… quem é que o tinha ressuscitado a Ele? Não podia ser! Não podia ser, mas era.
A ressurreição de Cristo foi uma acção da Santíssima Trindade, que fez aquilo que só Deus pode fazer: trazer à vida um morto depois de uma morte certa e confirmada. E a ressurreição de Jesus é a pedra basilar da nossa fé, de tal modo que São Paulo afirma: «Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé». De facto, se Cristo não tivesse ressuscitado (como tinha prometido), ficava demonstrado que era um lunático com a mania das grandezas; teria sido uma pessoa especialmente assistida por Deus, com certeza que sim, e por isso capaz de fazer milagres, mas não seria Deus, e portanto não nos teria salvado.
Mas Jesus ressuscitou verdadeiramente e, quarenta dias depois, subiu aos céus em corpo e alma à vista dos apóstolos, para ir ocupar o lugar que Lhe pertence, à direita de Deus Pai, onde intercede por nós e onde está à nossa espera para nos conduzir à glória (se nós quisermos).
Por várias vezes, sobretudo nos últimos tempos da Sua vida terrena e depois de ressuscitar, Jesus prometeu aos apóstolos que, quando Ele se fosse embora, enviaria o Espírito Santo, o Paráclito (que quer dizer Consolador). O Espírito Santo é a Pessoa da Santíssima Trindade «encarregada» da nossa santificação (enquanto o Pai é «encarregado» da criação e o Filho é «encarregado» da redenção); é pelo Espírito Santo que nós somos capazes de rezar, de nos dirigir a Deus como filhos. Ninguém consegue santificar-se por si próprio; é uma missão que está (infinitamente) acima das nossas forças. Por mais que nos esforcemos e por melhores que sejamos, ficamos sempre infinitamente aquém dessa meta se não tivermos a colaboração do Paráclito. A missão do Espírito Santo consiste em nos tornar parecidos com Cristo; o Espírito Santo actua eficazmente na nossa alma sem que nós disso nos apercebamos com nitidez, conduzindo-nos, inspirando-nos, suscitando em nós boas intenções e boas obras. Mas o Espírito Santo tem uma característica: fala baixinho (às vezes, é um baixinho aos berros, mas é baixinho na mesma); de maneira que só conseguimos ouvi-Lo se estivermos muito, mas muito atentos.
Mas nem sempre foi assim; pelo contrário, na Sua primeira grande manifestação, o Espírito Santo deu brado. Foi no Pentecostes (ou seja, cinquenta dias depois da Páscoa). Estavam os apóstolos reunidos, a rezar, com Nossa Senhora (que nunca mais os deixou, e sem Ela sabe-se lá o que teria sido deles!), quando o Paráclito irrompeu pela sala adentro como uma grande rajada de vento, e poisou sobre cada um dos presentes sob a forma de línguas de fogo. Acorreu muita gente ao ouvir o estrondo (deve ter feito bater portas e janelas), e os apóstolos ficaram de tal maneira, que houve quem dissesse que estavam embriagados. E de facto parecia que estavam – mas não estavam. Ou por outra, estavam; estavam bêbedos do amor de Deus. E começaram então a falar àquela multidão que se tinha reunido, e aconteceu um milagre espantoso: aquela gente procedia de vários pontos do Império Romano, cada um falava a sua língua, e, embora os apóstolos estivessem a falar em aramaico, cada um os ouvia na sua própria língua! Foi um milagre, claro, que simbolizou um dos dons do Espírito Santo: a capacidade de falar de Deus de tal maneira, que aqueles que nos escutam nos compreendam; um dom que o Espírito Santo continua a dar àqueles que Lho pedem (mas agora sem as línguas; se quiseres falar de Deus aos islandeses, tens mesmo de aprender a falar islandês).
O Espírito Santo continua a actuar na Igreja, de tal maneira que, sem Ele, nem a Igreja se aguentava. A primeira vez que nós recebemos o Espírito Santo é (já sabes!) no baptismo; a segunda é no sacramento da confirmação, ou crisma. O crisma confirma e reforça a graça recebida no baptismo; é uma espécie de segunda dose do Espírito Santo que, tal como o baptismo, imprime carácter – ou seja, nunca mais se apaga; ninguém se pode des-crismar. Muitas vezes, o crisma é recebido quando a pessoa já é adulta, e também serve para o próprio confirmar pessoalmente que quer pertencer à Igreja, que quer ser soldado de Cristo. Mas, mesmo quando a pessoa o recebe ainda muito nova, o efeito é o mesmo: o Espírito Santo toma conta daquela alma e aprofunda nela a filiação divina e a pertença a Cristo e à Igreja. Com a confirmação, temos uma força interior que nos torna mais capazes de servir e defender a Igreja e, se preciso for, de dar a vida por ela.
Pela Sua presença na nossa alma, o Espírito Santo confere-nos sete dons:
- * o dom do entendimento, que nos dá a capacidade de compreender a verdade
- * o dom da sabedoria, pelo qual apreciamos adequadamente as coisas divinas (na medida em que elas são apreciáveis por nós, é claro)
- * o dom da ciência, que nos permite apreciar devidamente as coisas deste mundo
- * o dom do conselho, que dá a capacidade de apreciar os nossos actos e de ajudar os outros no seu caminho para Deus
- * o dom da piedade, pelo qual amamos a Deus como Pai e queremos fazer a Sua vontade
- * o dom da fortaleza, que nos facilita testemunhar a fé em situações difíceis
- * o dom o temor de Deus, que nos leva a temer o pecado como o maior de todos os males. Ainda nos faltam quatro sacramentos; continuamos amanhã, de Deus quiser!
*Maria José Figueiredo
