Cartas a Guiomar: A mãe de Deus (4)

 Cartas a Guiomar: A mãe de Deus (4)

Querida Guiomar,

Como te lembras, falámos da encarnação do Filho de Deus, que tem uma consequência muito peculiar: sendo Mãe de Jesus, Maria é Mãe de Deus. Estranho, não é? Mãe… de Deus? Então Deus não é o começo de tudo? Como é que Deus pode ter Mãe? Para isso, Ela tem de ser anterior a Deus! Mais, tem de ter sido Ela a dar vida a Deus! É de facto estranho, mas o mistério não reside tanto no facto de Nossa Senhora ser a Mãe de Deus, como na circunstância de Jesus ser Deus; ora, já vimos que Jesus é de facto a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade – logo, Nossa Senhora não pode deixar de ser Mãe de Deus.

O Verbo de Deus, o Filho de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade (e estas três expressões designam a mesma Pessoa) existe desde sempre e para sempre; é eterno, porque é uma Pessoa divina e Deus é eterno. Mas esta Pessoa de natureza divina assumiu a natureza humana num certo momento e nasceu como um bebé normal, pelo que a Mãe é realmente anterior a Ele, e a Mãe deu-Lhe a vida – é um mistério, mas é verdade. É extraordinário que o Criador tenha querido dever a Sua vida humana a uma criatura, mas foi realmente assim. O nosso Deus é louco varrido!

Ora, Nossa Senhora, para além de ter dado o ser a Jesus, foi também a criatura que mais perfeitamente conformou a sua vontade com a vontade de Deus, ou seja, foi aquela que mais O amou. Não admira portanto que Ela seja objecto de uma devoção e de um culto extraordinários por parte dos católicos.

Realmente, a nossa religião é muito caseira. Não é nada uma coisa fria, um culto distante de adoração racional! Em primeiro lugar, nós tratamos o Senhor do céu e da terra por… Pai! Por Pai! E não foi a nós que nos passou pela cabeça tratá-Lo com esta sem-cerimónia (nem a nós nos teria ocorrido semelhante atrevimento); foi nada mais, nada menos que o próprio Jesus que nos disse que era assim que Ele queria ser tratado! É por isso que o Pai-nosso é a oração mais perfeita de todas.

Em segundo lugar, o Filho de Deus é nosso irmão: respirou o nosso ar, comeu a nossa comida, queimou-Se ao nosso sol, precisava de dormir oito horas por noite (embora de vez em quando roubasse horas ao sono).

Em terceiro lugar, temos uma Mãe! E a nossa Mãe é a Rainha e Senhora do céu, perante quem os anjos curvam a cabeça e que Deus contempla embevecido; é a Filha de Deus, a Mãe de Deus e a Esposa de Deus.

Finalmente, e como se não bastasse estarmos constantemente sob o olhar atento da Trindade e de Nossa Senhora, cada um de nós ainda tem um Anjo da Guarda, que constantemente o guia e protege. Nunca, mas nunca estamos sozinhos – e ainda por cima é companhia de primeiríssima classe.

Então como é que isto funciona? Deus e Nossa Senhora (e São José, já agora) e o Anjo da Guarda, está tudo no mesmo saco? Adoramo-los a todos, temos muitos deuses? Não, claro que não! Nós só adoramos a Deus, porque só Deus é digno de adoração (é o chamado culto de latria); aos anjos e aos santos, que são criaturas como nós, prestamos um culto de veneração (dulia) porque eles reflectem, com a sua conduta, as perfeições de Deus; a Nossa Senhora, que é uma pessoa especialmente santa, prestamos um culto de hiper-veneração (hiperdulia).

São quatro as verdades da fé relativas a Nossa Senhora:

* a imaculada conceição: Nossa Senhora foi concebida sem pecado original, em atenção aos méritos de Seu Filho, e por aplicação antecipada, por assim dizer, destes méritos;

* a maternidade divina: Nossa Senhora é verdadeiramente Mãe de Deus;

* a virgindade perpétua: Nossa Senhora permaneceu virgem toda a vida; concebeu por acção do Espírito Santo, permaneceu virgem durante o parto e manteve essa virgindade até ao fim da vida (os «irmãos» de Jesus, de que falam os evangelhos, são primos; era a expressão que se usava na altura para referir os familiares próximos – e que, aliás, ainda se usa hoje em algumas culturas);

* a assunção em corpo e alma ao céu: o corpo de Nossa Senhora não foi degradado pela morte; concluída a etapa terrena da sua vida, a Virgem Maria foi elevada ao céu em corpo e alma.

E vamos lá então à magna questão que ontem levantaste. Ao longo da história do mundo, tem havido alguns relatos de aparições de Nossa Senhora. Com efeito, a Mãe de Deus vem algumas vezes conversar com esta ou aquela pessoa, para fazer apelos à conversão e promessas de salvação. Não se pode dizer que nós, os seres humanos, sejamos propriamente filhos exemplares de Pai e Mãe tão dedicados, e à nossa Mãe aperta-se-lhe o coração ao ver-nos andar longe de Deus e cair nas esparrelas da infelicidade. Por isso, volta e meia não se contém e vem cá abaixo tentar chamar-nos à razão.

A atitude da Igreja relativamente às aparições é de grande prudência. A primeira coisa que a Igreja faz é não fazer nada e esperar que passe; se não passa, pede informações sobre tudo o que foi dito nessas aparições, e verifica se alguma coisa está em contradição com o conteúdo da fé. Se estiver tudo nos conformes, a Igreja diz que está tudo nos conformes – ou seja, que os católicos podem acreditar que houve de facto uma aparição. Mas a Igreja nunca afirma categoricamente: houve uma aparição, fazem o favor de ir lá todos pelo menos uma vez por mês! E porquê?

Porque as aparições de Nossa Senhora e dos santos, mesmo que sejam genuínas, são revelações privadas; não fazem parte do depósito da fé – que o mesmo é dizer que um católico não tem de acreditar nelas para se salvar. Assim, os católicos têm de acreditar nas verdades da fé expostas no catecismo, nomeadamente nos quatro dogmas relativos a Nossa Senhora, mas não têm de acreditar que Nossa Senhora apareceu em Fátima aos três pastorinhos entre Maio e Outubro de 1917 (embora tenham de acreditar no conteúdo da mensagem de Fátima, na medida em que ele coincide com a mensagem do evangelho).

Não têm de acreditar, mas convenhamos que seria um enorme desperdício se não o fizessem! Nós somos incrivelmente duros de ouvido, a nossa Mãe faz-nos o obséquio de vir puxar-nos (oh quão suavemente) as orelhas, e nós mandamo-la dar uma grande volta ao outro lado do universo? Além de ser má educação, é uma insensatez, porque Ela não ganha nada, por assim dizer, com o incómodo, e nós perdemos muito com a displicência!

Que Nossa Senhora te guarde, esta noite e sempre, e só mais uma pequena achega:

P.S. – O louvor da virgindade de Nossa Senhora não contraria de maneira nenhuma a beleza do amor matrimonial (de que falaremos mais adiante), que Nosso Senhor aliás consagrou dedicando o Seu primeiro milagre nada menos que a alegrar um casamento. A virgindade de Maria é expressão de um amor maior, de um amor que exige uma entrega total, de corpo e alma, a Deus; foi também com esta entrega total que Jesus nos amou e ama a Igreja.

*Maria José Figueiredo

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